A beleza plástica e musical de Tango


O referido estilo musical argentino  teve início nas duas últimas décadas do século XIX, com violino,flauta e violão. Apaixonado e triste, ele evoca a angústia da sugestão refreada pela solidão de uma adoração não correspondida, como duas retas paralelas andando lado a lado mas destinadas a nunca se tocarem.

O cineasta Carlos Saura consegue transmitir toda a magnificência desta dança através de uma narrativa que traduz a essência da mesma, tendo como protagonista o diretor Mario Suárez, que sofre com a ausência da esposa que o abandonou para ficar com outro homem e aproveita esta dor para  montar um espetáculo tendo como tema o seguinte gênero sonoro.

No decorrer da produção o patrocinador majoritário lhe pede que sua namorada seja incluída, tendo em vista que a garota tem talento e necessita de uma chance. A bailarina Elena Flores consegue cativar  a todos inclusive Mário, que se apaixona por ela.

O triângulo amoroso formado a partir de então se torna denso quando é revelada a índole violenta do mafioso que financia o show, incrementando a condição trágica deste amor que é o mote principal da dança em questão.

A belíssimas seqüências de dança não só comunicam a melancolia agressiva do ritmo mas revelam de forma onírica as intenções dos personagens envolvidos na trama. O jogo de luz e cores realça este diálogo, formando junto com a belíssima trilha sonora uma composição poética ímpar e própria deste diretor espanhol.

A película confere homenagens aos grandes ícones do gênero, com destaque para o genial Carlos Gardel, autor de canções como Mi Buenos Aires querido, Por una cabeza, El día que me quieras e Sus ojos se cerraron.

Outra devida referência vai para o genial escritor portenho Jorge Luis Borges, cuja citação justifica uma importante e significativa cena que ilustra um período negro na história política da Argentina.

A projeção comenta também sobre o papel do artista, como alguém que traz a ruptura e não aceita interferências externas nem faz concessões.

Interessante notar o uso de metalinguagem para conduzir a apresentação da história, usando a linguagem cinematográfica para dissertar sobre o seu sentido e função enquanto elemento-chave para transmissão da mensagem desejada.

Mário incorpora  a alma do estilo musical apresentado já que sua identidade traduz muitos aspectos relevantes para a composição do mesmo. Seu andar manco por causa de um acidente de carro que o impossibilita de dançar infere a cadência triste e envolvente das notas que constituem as músicas do gênero.

Um olhar sensível sobre  uma dança que faz parte do caráter visceral da nação argentina, ilustrando a paixão amarga que contribui para a beleza agridoce de suas melodias.

Um casamento perfeito entre a beleza plástica do enquadramento embalado por cores e sombras com uma trilha sonora impecável. Um deleite memorável para olhos e ouvidos.


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