As importantes opiniões e questionamentos de Mafalda


Mafalda nasceu das mãos de seu criador, Joaquín Salvador Lavado – o Quino –, com um objetivo específico: ilustrar a publicidade de uma marca de eletrodomésticos que acabou não sendo veiculada. O cenário para as histórias de Quino são os bairros Montserrat – lugar que ganhou uma praça para homenagear Mafalda – e San Telmo, na capital argentina, Buenos Aires. O nome foi inspirado no bebê do filme Dar La Cara, de 1962, o qual foi baseado em romance homônimo de David Viñas. 

Essa menina, que encantou e até hoje encanta a todos por sua sagacidade e irreverência já foi traduzida para mais de trinta idiomas. Em 1969, seu criador, Quino e sua criação ganharam notoriedade internacional com a publicação na Europa de Mafalda, a Rebelde, a primeira edição italiana de Mafalda, com prefácio de ninguém menos que Umberto Eco. Nele, o escritor, filósofo, linguista e tradutor italiano definiu a personagem como “uma heroína zangada, que não aceita o mundo como ele é, que reivindica seu direito de continuar a ser uma menina e se recusa a assumir um universo corrompido pelos pais”; afirmou ser importante ler as tiras de Mafalda para entender a Argentina, mas ressaltou o caráter universal das inquietudes manifestadas por ela e seus amigos. 

Mafalda, com humor, critica a postura de seus pais perante a sociedade, preocupa-se com a humanidade, questiona os problemas políticos, de sexo, e até científicos que atingem sua alma infantil, ao mesmo tempo em que reflete os conflitos e angústias que as pessoas de seu tempo enfrentam, sobretudo com a progressiva mudança de costumes e a já incipiente introdução da tecnologia no cotidiano. 

Quino valeu-se, primeiramente, de uma criança de uma típica família de classe média para expor suas ideias sobre a realidade de seu tempo. O pai, funcionário de uma companhia de seguros, adora cultivar plantas em seu apartamento e sempre entra em crise quando reflete sobre sua idade. A mãe, típica dona de casa, não completou os estudos e, por isso, é vista como “medíocre” por Mafalda. 

Graças à menina com um laço de fita vermelho no cabelo, Quino foi alçado ao posto de um dos maiores humoristas gráficos do país. Mas o que faz de Mafalda uma personagem tão carismática e diferente no mundo dos quadrinhos? A menina, apesar de ter apenas seis anos, é absolutamente precoce e serviu como porta-voz de seu criador em tempos de uma implacável Ditadura Militar na Argentina. Ela tinha preocupações pouco comuns para as crianças de sua idade, enxergando a vida sob uma perspectiva peculiar ao abordar questões pertinentes através de uma linguagem ácida e extremamente irônica. 

Quino parou de produzir e publicar as tirinhas de Mafalda em 1973. Depois disso, o cartunista ainda usou a protagonista das histórias que lhe deram fama mundial algumas poucas vezes para promover campanhas em prol dos direitos humanos, a mais notória delas a Convenção dos Direitos Humanos da Criança de 1976, da Unicef. 

Mafalda ganhou corações e mentes em todo planeta. Seu alcance é comparável apenas ao de Charlie Brown e Snoopy, da série Minduim [Peanuts] do cartunista norte-americano Charles Schulz, nos anos 1950. A diferença reside em que Mafalda, uma típica argentininha, traz em seu bojo as características do humor latinoamericano, que ri de si mesmo e ridiculariza os que querem determinar todas as regras de vida, sem maiores questionamentos. Esse humor refinado, abraçado por milhares de crianças, jovens e adultos de todo o mundo, com toda certeza, ainda continuará a entreter muitas das próximas gerações. 


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