Opressão e Resistência em V de Vingança


V de Vingança foi publicado originalmente entre 1982 e 1983 em preto e branco pela editora britânica Warrior, mas não chegou a ser finalizado. Em 1988, incentivados pela DC Comics, Allan Moore e David Lloyd retomaram a série e a concluíram com uma edição colorida. A série completa foi republicada nos EUA pelo selo Vertigo da DC e no Reino Unido pela Titan Books. No Brasil, foi publicada em 1989 em cinco edições em cores pela editora Globo e mais tarde pela Via Lettera, em dois volumes em preto e branco; em 2006 teve uma edição especial pela Panini, em volume único, colorido e com material extra. Atendendo a pedidos, em 2012 a Panini relançou esta edição especial. Em 2005 a obra foi adaptada para o cinema.

A história é ambientada na Inglaterra que pós um aparente hecatombe nuclear, mergulha no caos. Eventualmente a ordem volta a se restabelecer, mas de forma ditatorial. Um governo fascista caça os direitos civis, impõe a censura e rechaça qualquer tentativa de oposição ao que impõe.

O medo profetizado no século XX, do estado vigiando o cidadão e tolhendo sua liberdade de expressão, se materializa nessa Inglaterra onde o estado tem olhos, ouvidos, nariz e dedos.

Como já ocorreu na história real do mundo, nessa ficção os ditadores também têm seus campos de concentração, nos quais os não adequados à nova ordem são interrogados, torturados, mortos e, algumas vezes, submetidos aos mais asquerosos experimentos.

Eis que mesmo nesse regime totalitário/fascista uma voz se levanta e ousa proclamar a possibilidade de uma outra forma de vida, na qual não haja regras e leis arbitrárias, em que a liberdade e as individualidades sejam valorizadas e conduzam a um novo cenário, um personagem designado simplesmente “V” é o porta-voz dessa ideia.

Vítima de um dos abomináveis campos de concentração, “V” esteve no fundo do poço, e sem ter mais para onde cair, a única opção era se erguer.

Aos poucos, se faz claro que “V”, mais que uma pessoa, representa um conceito, uma ideia.Mais do que um mártir, um herói ou um revolucionário, ele representa o ideal anarquista que prima pela ausência de domínio e pelo direito individual.

Ao passear por um mundo fascista fictício, onde todos os aspectos da vida cotidiana são censurados, inclusive os culturais, como livros, músicas, teatro, cinema etc, Alan Moore ao mesmo tempo evidencia a importância da cultura para a manutenção das liberdades individuais e alfineta a ignorância dos detentores do poder, assim como no livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.

Num sistema em que o estado vigia a liberdade, a pergunta nasce espontaneamente: quem vigia os vigilantes?

Um texto com predições sombrias e visão política clara sobre o papel do estado na vida do cidadão, na mesma linha do livro 1984, de George Orwell. Moore mostra um mundo no qual o estado vigia e oprime o cidadão.

Se o texto de Alan Moore é esplêndido, o mesmo se pode dizer da arte de David Lloyd. O artista cria uma Londres noir, nostálgica e paradoxalmente futurista. O uso de luz e sombras em doses exatas proporciona ora a percepção do pessimismo reinante (e ai se vê uma cidade triste e sombria), ora um vislumbre da esperança observada, sobretudo, na face das pessoas.

Aclamada como uma das maiores obras dos quadrinhos, V de Vingança traz inigualável profundidade de caracterizações e verossimilhança em um audacioso conto de opressão e resistência.


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