Os estranhos caminhos do destino em Viagem a Darjeeling


O cineasta Wes Anderson sempre ilustra de forma agridoce antigos ressentimentos que acabam vindo à tona por causa de um simples gesto ou frase, pessoas que reconhecem seus irmãos e pais como aqueles que melhor os compreenderão em momentos difíceis, pois cresceram aprendendo todas as suas virtudes e fraquezas.

Seu primeiro filme a tratar do assunto foi “Os Excêntricos Tenenbaums” sobre uma família disfuncional de superdotados, sendo mencionado em “A vida marinha com Steve Zissou” e novamente usado como base na película em questão.

O narrativa do filme acompanha um homem que após sobreviver a um acidente de carro que desfigurou seu rosto decide reunir-se com seus dois irmãos mais novos (afastados entre si desde a morte do pai) numa viagem espiritual de trem no coração da Índia para reforçar os laços familiares.

Dentro do espaço confinado da cabine, os três terão que aprender a confiar uns nos outros enquanto resolvem seus problemas pessoais, um tendo que lidar com uma gravidez na iminência de um divórcio e outro tentando sobreviver ao término de um relacionamento.

No decorrer da viagem eles vão aprendendo a se desligar do peso das pressões que toda a sociedade ocidental infringe, tendo a rara oportunidade para se concentrarem em suas reais necessidades e definirem desta forma suas prioridades existenciais.

A projeção mostra como o peso de ações no passado continua a exercer forte influência em nossa vida simplesmente pelo fato de nos acostumarmos a usar esta “muleta emocional” para justificar todo o nosso comportamento.

O filme ilustra também como o destino acaba traçando seus próprios caminhos, confirmando a premissa que nem sempre os nossos desejos correspondem às nossas necessidades.

As diferenças culturais são apresentadas de forma bastante natural e as belezas naturais do país e de seu povo são belissimamente retratadas, especialmente no que se refere à fotografia.

O conflito de personalidades entre o trio é interessantíssimo e aos poucos vamos percebendo como cada um deles lida com o comportamento do outro. Francis, por ser o primogênito, tem o hábito de decidir pelos outros dois. Peter, o segundo, é emocionalmente retraído e usa pertences de seu falecido pai a fim de estabelecer uma conexão com ele e o caçula Jack é passional, continuando intensamente ligado à sua ex-namorada.

A película mostra a jornada de três pessoas encontrando de forma gradativa sua sintonia com suas identidades e com seus familiares, aprendendo que a melhor maneira de lidar com seus problemas e incertezas é não deixando que eles controlem suas atitudes.

O elenco está soberbo, especialmente a trinca de protagonistas que expõe de forma sutil as pequenas afinidades e as discordâncias. Destaco também as participações especiais de Bill Murray e Angélica Huston, que participaram dos outros filmes do diretor e que conseguem marcar presença, mesmo com pouco tempo em cena.

Um filme belíssimo com uma mensagem importante numa época de narcisismo e consumismo, onde os indivíduos se desligaram até mesmo de suas famílias para seguir uma ideologia social falha porque rejeita o elemento humano.


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