Gotham

Por Matheus Pessôa

Gotham é a série exibida pelo canal Warner Bros, no Brasil e também pela plataforma Netflix. A primeira temporada contém 22 episódios de 40 minutos cada, aproximadamente, e a segunda está acontecendo esse ano.
Nas produções cinematográficas que envolviam a série, nunca antes tinha havido um desenvolvimento tão completo, detalhado e incrivelmente apaixonante de todo o universo que a cidade contém. Como todos sabem, Gotham é um lugar extremamente perigoso, a todo instante. Pode ser que haja uma guerra de gangues pelo comando dela, pode ser que um serial killer lendário esteja à solta ou simplesmente pode ser que haja um justiceiro que tenha como alvo as pessoas mais corruptas e sujas de lá.

Gotham City, na verdade, não é um lugar. É um personagem que se desenvolve durante o enredo dos episódios, e que a cada um parece mostrar sua nova faceta, seu novo truque, sua nova tramóia. Completamente imprevisível e volátil, dá espaço para que todo e qualquer tipo de pessoa surja e que, após um simples estalo, por exemplo, deixe de ser um cidadão comum e passe a fazer parte da máfia, ou queira fazer justiça com as suas próprias mãos.
Gotham colhe aquilo que planta.
Desde os cargos mais baixos até o alto escalão, existe corrupção. É um exemplo de uma cidade extremamente suja, em todos os sentidos. O povo é completamente deixado de lado, a desigualdade social é explícita. E esse povo que precisa de algo ou alguém que resolva seus problemas com violência, por exemplo, vê seus líderes, como o prefeito, fazerem discursos demagógicos, vê uma polícia completamente estragada com todos os seus policiais envolvidos em algum caso político-mafioso e à mercê de mafiosos que apenas querem “Keep the good business”.
Parece não haver um limite para tanta ambição, tantos estragos e esquemas que fazem parte do dia-a-dia, como se tudo o que ocorre fosse caracterizado como crime altamente qualificado. Ao contrário da utopia, vemos em Gotham City exatamente o oposto: a distopia. O caos. A sujeira. A máfia. Mortes, sangue, drogas. Corrupção. E tudo o que pode haver de pior.
Os cidadãos, entretanto, estão de acordo com o mundo que parece desmoronar às suas cabeças. Porém, o grande estopim para que uma nova era começasse aconteceu quando Thomas e Martha Wayne são assassinados em um beco, e Bruce Wayne é poupado. James Gordon, o novo parceiro de Harvey Bullock, é o encarregado pela investigação e promete ao jovem, que agora só encontra apoio em Alfred Pennyworth, que vai encontrar o responsável pelos assassinatos a qualquer custo.
Os pais de Bruce, proprietários da Wayne Enterprises, eram o último fio de esperança presente no coração dos cidadãos. Com seus planos de melhorias para o bairro Arkham, num ato de filantropia, havia esperança de que o futuro da cidade não fosse tão escuro como aparentava momentaneamente. Com dois disparos, esse sonho vai abaixo.
É aí que a genialidade da série entra: em vez de seguir como uma simples trama policial, ela também envolve todo o processo de criação de um lugar que, de fato, faz mal às pessoas e que nelas estimula o sentimento de que mudar é possível e de que é com as pessoas que se traz mudança. Assim, personagens mentalmente dispostos a colocar tudo em risco afim de mudar a triste realidade em que vivem simplesmente surgem. É o caso do BalloonMan, por exemplo. Surge a partir de uma necessidade de mudar. Entretanto, um homem que amarra pessoas corruptas em balões metrológicos não é exatamente algo que a sociedade precisa.
O que ela precisa, de verdade, é de alguém que faça valer a pena a crença que um novo amanhã é possível. Esse alguém começa a ser desenvolvido desde o momento em que seus pais morrem num beco escuro após uma sessão de cinema. A partir desse dia, Bruce Wayne parte em uma jornada puramente interna para tentar descobrir quem foi o assassino e o porquê, principalmente. Logo de cara, o menino, antes recluso na Mansão Wayne, a quilômetros da cidade, percebe que o que aconteceu é a simples e pura realidade. E ele quer mudar isso a qualquer custo.
James Gordon, policial, faz de tudo para que isso aconteça. O único policial honesto no DPGC e o único que se importa com o que acontece com os cidadãos todos os dias, Gordon aparece como o cavaleiro branco que pode trazer luz aos dias sombrios que tomam conta de todos. Ele faz isso combatendo todo e qualquer crime, mesmo que isso custe a sua reputação entre outros policiais do DPGC ou seu relacionamento com Barbara Kean. Seu parceiro, Bullock, a priori é apenas uma parte do covil de onde todos os policiais vêm. Com o passar do tempo, porém, ele acaba se rendendo um pouco às boas ações de Gordon, tornando-se essencial no desenvolvimento da trama. Gordon, inicialmente, é só o “filho de um promotor que outrora fora extremamente influente”, mas ele luta de modo bravo para demonstrar que é muito mais que isso, e que pretende mudar Gotham para sempre. E é isso o que ele faz.
Seus inimigos são principalmente, a fonte de todo o mal: a máfia. Don Falcone é o chefão da cidade e odiado por todos os seus amigos e inimigos. Todos querem assumir o seu lugar. Fish, proprietária de um território considerável, quer que ele se aposente logo para que consiga tornar-se a rainha de Gotham, mesmo que isso venha à custa de um banho de sangue. Don Maroni, seu maior “rival declarado”, quer que o reinado de Don Falcone acabe logo. Em vários momentos da temporada, os três personagens se enfrentam ora de uma maneira direta ou indireta, em situações bastante inusitadas, surpreendentes e incríveis.
A maioria delas envolve o Pinguim, que sonha atingir o topo e, para isso, é capaz de fazer tudo com tudo aquilo que tem. Sua arma favorita, porém, é a informação. O personagem é um dos pontos mais altos da série, recebendo um grande destaque em todos os episódios justamente por ter uma personalidade extremamente interessante, com um comportamento muito bem trabalhado e bem subjetivo: nunca sabe-se o que ele planeja, mas quando ele age, a genialidade de seus planos e desventuras é incrivelmente bem orquestrada, o que é fruto de uma mente brilhante e completamente má. Seu relacionamento com a mãe parece ser o único real que ele apresenta; de resto, apenas usa as pessoas como ferramentas para conseguir o que quer (até mesmo Jim Gordon acaba, eventualmente, sucumbindo a isso).
Como foi dito antes, a cidade é o lugar muito fértil para criarem-se novas mentalidades. E a série usa desse “Ás na manga” para poder desenvolver, de maneira brilhante uma gama completa de personagens que são familiares ao público: o Charada (Edward Nygma), Coringa, Capuz Vermelho, Mestre dos Bonecos, Eletrocutador. E tudo isso da maneira mais natural possível. Tendo uma duração boa de 40 minutos, os roteiristas puderam trabalhar de uma maneira bem tranqüila e genial para desenvolver seus personagens sempre com um background de informações que mostram a verdadeira personalidade de cada um deles, assim como a razão pela qual, possivelmente, possam tornar-se grandes vilões da cidade, causando distúrbio à sociedade. Tudo é orquestrado de uma maneira tal que o espectador nunca se cansa, apenas recebe as informações e parece pedir mais pelo que está ali.
O poço do universo Batman é cheio de informações. A série bebe dessa fonte inesgotável e apresenta aos fãs e aos “novos fãs” algo que é bem consistente, fazendo uso disso de modo impressionante, e apresenta os acontecimentos trazendo grande emoção.
A espera pela continuação é grande.
Cidade suja.Vilões à solta.Máfia.Esperança.Luta.Jim Gordon, Bruce Wayne. Falcone, Maroni, Fish, Pinguim. Charada, Coringa, Eletrocutador, Capuz Vermelho.
Batman.

O humor cotidiano em The Office

Por Gilson Pessôa

O escritório de trabalho é um local interessante para se estudar a natureza humana, pois trata-se de um ambiente onde as pessoas ficam relativamente confinadas juntas e não necessariamente se combinam,mesmo precisando desempenhar uma tarefa em conjunto. Os colegas de serviço acabam sendo presenças mais constantes do que a própria família ou amigos, criando uma ligação que pode evoluir para romances, amizades ou o oposto.

Foi refletindo sobre este recinto que os comediantes britânicos Ricky Gervais e Stephen Merchant criaram para a BBC a série humorística The Office, que basicamente simula um documentário sobre o cotidiano na filial de uma empresa de papéis em uma pequena cidade na Inglaterra. Infelizmente ela durou apenas duas temporadas, pois os criadores decidiram “que não havia mais nada a ser acrescentado”, encerrando com um especial de Natal que funcionou como um epílogo para a história.
O sucesso internacional foi tão grande que acabou gerando várias versões em diversos países, dentre elas uma americana pela NBC, cujo elenco era encabeçado pelo versátil Steve Carell interpretando o imprevisível e divertido Michael Scott, gerente regional da empresa Dundler Mifflin.
Além do chefe “sem noção” (interpretado por Gervais na versão original), outros personagens foram mantidos como o vendedor desmotivado que é apaixonado pela recepcionista (sendo esta já comprometida com outra pessoa) e o bajulador que deseja tomar o lugar de seu patrão um dia.
O grande mérito da versão americana foi não fazer uma cópia bonitinha, mas pegar a idéia da versão inglesa e expandi-la. Desta forma, além da filial na pequena cidade de Scranton (onde estão os protagonistas), temos o seu relacionamento com a matriz em Nova York e as outras sedes em diferentes cidades dos Estados Unidos, ampliando a dimensão da firma e possibilitando uma maior variedade de histórias.
Assim como na questão geográfica, o perfil dos personagens pode ser melhor desenvolvido, especialmente o de Michael Scott e seu fiel aliado Dwight Schrute. As cenas envolvendo essa dupla são sempre o ponto alto dos episódios porque proporcionam a combinação de dois níveis de insanidade completamente diferentes.
Steve Carell interpretou sem sombra de dúvida um dos personagens mais brilhantes e complexos de sua carreira, conferindo ao gerente regional diferentes camadas de personalidade e surpreendendo o público sempre. Em alguns momentos é completamente mesquinho, vaidoso e egoísta, para depois se redimir revelando completamente o oposto. Esse aspecto agridoce já era comum na versão britânica.
Outro grande diferencial da leitura americana foi a evolução dos personagens secundários que acabaram gerando momentos antológicos ao longo das temporadas. Cada um tem o seu momento e essa sincronia permite vislumbrar o escritório como um todo orgânico, transformando o espectador num observador onisciente, que consegue até imaginar como será a reação dos funcionários a certos eventos.
A linguagem em estilo documentário já utilizada na versão original envolve o público na história e permite uma visão mais elaborada do que estamos assistindo, pois temos o acontecimento e os comentários dos envolvidos a respeito do mesmo, numa espécie de reality show fictício.
A série terminou em sua nona temporada, mas o fato é que infelizmente a sua qualidade caiu um pouco com a saída de Steve Carell na sétima, já que ele era o mestre de cerimônias do espetáculo. Uma visão comovente e distorcida de um grupo de colegas de trabalho que não está tão distante de nossa realidade, o que a torna ainda mais atraente e divertida.