Cinema abençoado por Alá

No cinema iraniano a tela onde é projetado o filme transforma-se no manto do beduíno. Ancestral, guerreiro e lírico. A arte pela arte, a oportunidade de tratar temas universais como a opressão,o martírio e a esperança a partir do microcosmo: quatro mulheres fugidas de um cárcere em Teerã, crianças orfãs lutando pela sobrevivência num vilarejo Curdo na fronteira entre Irã e Iraque, assim define-se o cinema iraniano. “Nossos filmes não são políticos. Fazemos arte”, explicou o diretor de cinema iraniano Mahmoud Behrazinia, durante um debate na mostra de Cinema Internacional de São Paulo.
À mesa com outros três diretores de seu país, Bherazinia, ator do filme Djomeh e diretor do documentário Close-up Kiarostami, sobre o autor de Gosto de Cereja, outro filme iraniano, reagia à expectativa do público reunido de que a noite de filmes persas revelaria denúncias de violações aos direitos humanos e repressão generalizada. Claros retratos da chamada realidade iraniana, mais do que um instantâneo político, os filmes refletem o que é recorrente em todas as sociedades, dadas as suas peculiaridades.
É o caso, por exemplo, de O Círculo, de Jafar Panahi. Eloqüente protesto a um antiquado estereótipo programado pelos Estados Unidos, de que o Irã é uma nação de maníacos religiosos, o diretor deste filme sobre quatro mulheres fugidas do cárcere passando um dia em relativa liberdade na capital iraniana – ganhador da palma de ouro no festival de Veneza – não tem agenda religiosa.Vivendo em situação de repressão extrema, a mulher retratada por Panahi usa véu negro e sofre dentro de uma sociedade onde a mulher não tem livre arbítrio sobre a sua pessoa, seu direito reprodutivo ou a sua sexualidade. Mas, como uma espécie de observador onisciente, na poética e humana realidade das quatro fugitivas, Panahi consegue demonstrar não só o seu drama, como também sua gentil solidariedade e companheirismo.
 Identidade cultural – A sensação de esperança é dominante também no filme de Bahman Ghobadi, Tempo de Embebedar Cavalos, sobre uma família de crianças orfãs na região do Curdistão, fronteiriça com o Iraque. Em fuga constante do pieguismo, o diretor utiliza a belíssima e dura paisagem do Curdistão para demonstrar lealdade, companheirismo e amor entre as crianças de uma família. Mas mais que um filme sobre o Curdistão, Tempo de Embebedar Cavalos é sobre a necessidade que tem o ser humano de acreditar que eventualmente, através de trabalho e esforço é possível curar e viver melhor.
 Longe de ser um mero retrato da pobreza do terceiro mundo, amadurecido, o cinema iraniano é de fato arte, em sua beleza, simplicidade e respeito à capacidade de análise e interpretação do público. O cinema iraniano explodiu com produções de todos os níveis. Tende, no entanto, para obras de boa qualidade, como A maçã “Sib”, de Samira Makhmalbaf (Irã/França,1998), O Silêncio, de Mohsen Machmalbat (1998), A Árvore da Vida, filme de intenções ecologistas de Farhad Mehranfar (1998), Os Inquilinos, Um Ingresso, dois Filmes e outros. Todos eles oscilando entre o passado e o presente, entre o autóctone e o alóctone, entre o solo firme da tradição e o solo friável da aculturação. O mais famoso e o que mais se destaca é Abas Kiarostami com “Vento nas Oliveiras”, “E a vida continua” e “Gosto de Cereja”.
Há muito se diz que o cinema iraniano moderno tem suas fontes no realismo italiano. Trabalha (mas nem sempre) com atores não profissionais, faz da gente do povo o centro da ação dramática e, sobretudo, fala de tramas coletivas, que dizem respeito a toda uma nação. “Procuro, no meu cinema, retratar as pequenas coisas da vida”, disse Panahi  De fato, são pessoas simples, sem nada demais, sem glamour nem acontecimentos excepcionais em suas existências. É curioso como mais que qualquer outra cinematografia do mundo, a iraniana seja aquela que com mais propriedade consiga tocar o nervo da realidade social.