As armadilhas do inconsciente em O Imaginário do Dr. Parnassus

O inconsciente atua como espelho de nossa personalidade, refletindo todos os desejos e angústias reprimidas pelos mais diversos motivos. Um portal onde se inscreve a real essência da identidade de cada um, definida por suas infindas particularidades.

Este riquíssimo universo tem sido amplamente explorado pelas artes em geral, que buscam projetar tal caleidoscópio de potencialidades. Manifestações que dialogam com os anseios do espírito humano, colaborando para a compreensão das motivações que nos dirigem. Sonhos que seduzem e libertam a alma.
A narrativa da seguinte película conta a história de um monge budista que vivia recluso em seu templo, refletindo sobre o universo. Certo dia ele recebe a visita do Diabo, e ao perceber a ampla diversidade de lugares e instantes no mundo, faz um pacto onde ganha imortalidade em troca da alma de uma provável filha, quando esta completasse dezesseis anos.
A opção pela vida eterna foi para poder influenciar os indivíduos a iluminarem sua imaginação, descobrindo mais a respeito de si mesmos, entretanto ele foi iludido por Lúcifer, ciente da fraqueza de espírito da humanidade que foi facilmente corrompida pelas tentações mundanas e desprezou qualquer impulso de enriquecimento emocional.
Séculos depois do ocorrido, às vésperas do décimo-sexto aniversário de sua filha, o velho homem reencontra aquele que veio para cobrar sua dívida. Surge então a possibilidade de renegociar o contrato.
A montagem do cineasta Terry Gilliam trabalha com maestria a riqueza de cenários que projetam o rico painel de possibilidades inserido na imaginação do personagem principal.
A influência do característico non sense do grupo inglês Monty Python (do qual o diretor fazia parte) é bastante perceptível e genialmente aplicado, especialmente nas gags visuais. A imprevisibilidade do ambiente imaginado e como ele reage às peculiaridades de cada “visitante” na mente do ancião é um espetáculo à parte.
O diretor faz uma interessante alusão ao teatro mambembe, contrastando o mesmo com a superficialidade presente no contexto urbano pós-moderno. Vale mencionar ainda a referência aos arquétipos da commedia dell’arte: Anton (o pierrô) disputa com Tony (o arlequim) pelo amor de Valentina (a colombina).
O ator Heath Ledger realiza neste filme sua última performance, interpretando um personagem enigmático, multifacetado e carismático. Sua origem e reais intenções são reveladas somente no final do filme, o que contribui para tornar a trama mais complexa e instigante.
O elenco traz ainda os excelentes desempenhos de Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Peter Stormare e Tom Waits, entre outros nessa interessante história sobre o impacto de uma escolha e como ela configura o nosso caráter.
Uma poética película sobre as multiplicidades de pensamento e como elas se portam na constituição de nosso perfil.A análise irreverente das armadilhas que a consciência projeta para corrigir as imperfeições tão comuns que obedecemos sem questionar e ocasionalmente terminam norteando nossa postura dentro no presente cotidiano.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Todo relacionamento amoroso tem seus altos e baixos, momentos que ficam marcados para sempre e outros cuja lembrança traz somente dor e sofrimento. Quando tudo termina, fica a vontade de limpar tudo e começar do zero com outra pessoa, mas todos sabemos que isso é impossível, especialmente se o grau de envolvimento foi demasiadamente intenso. Este é o tema desta película.

A projeção mostra a trajetória de Joel Barish, que após ser informado que sua namorada Clementine apagou todas as lembranças de seu romance com ele, através de uma empresa chamada Lacuna, resolve fazer o mesmo, tentando esquecer que um dia a conheceu. Tudo parece correr bem, pois as memórias recentes são eliminadas primeiro, mas então chegam os bons momentos, e ele não quer perdê-los. Começa então uma luta, dentro de sua mente, para reverter o procedimento.

Dirigido por Michel Gondry e escrito pelo célebre Charlie Kaufman, o filme trata de um assunto comum a todos: a riqueza de um relacionamento está exatamente em suas glórias e percalços, afinal somos humanos. A experiência, mesmo a cercada de agruras, só vem a nos adicionar e fazer com que busquemos “consertar nossos defeitos”, a fim de melhorar nossa interação da próxima vez.

Um grande romance não pode simplesmente evaporar da noite para o dia, já que ele não foi construído assim. Quando uma relação termina costumamos nos concentrar na fase final, já desgastada, ao invés de procurarmos nos lembrar o que nos atraiu naquela pessoa em especial.

A montagem não-linear é um dos grandes destaques do filme, já que grande parte da história acontece dentro da mente do protagonista, que consegue ouvir os funcionários conversando durante o procedimento, explorando a narrativa de forma criativa e inteligente.

A trilha sonora idílica de Jon Brion também merece menção, dando o tom perfeito para o desenrolar dos eventos.

Interessante perceber como a empresa Lacuna é profissional no dia-a-dia do escritório, mas incrivelmente anti-ética durante a fase de remoção dos pensamentos, revelando surpresas que trarão uma nova perspectiva aos fatos apresentados.

Aplausos para a grande atuação de Jim Carrey, que interpreta um Joel introvertido cujo baixo tom de voz e o hábito de olhar sempre para baixo, escrevendo ou desenhando em seu caderno dizem bastante a respeito de sua personalidade.

O contraponto é brilhantemente ilustrado por Kate Winslet, mostrando uma Clementine impulsiva e extrovertida, mas ao mesmo tempo insegura, vulnerável e depressiva. As constantes mudanças de cor do seu cabelo revelam sua essência imprevisível e constante necessidade de aprovação.

“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” ilustra de forma divertida e original o início e o fim de um relacionamento, um olhar maduro sobre a vida a dois e a necessidade de cicatrizes emocionais, por mais que elas doam, já que trazem consigo a nostalgia lembrando o quanto valeu a pena.

A Megera Domada em Cordel

Literatura de cordel é um gênero literário, de origem portuguesa, trazido ao Brasil pelos colonizadores, que se popularizou, principalmente, na Região Nordeste. Escrito em rima e impresso em pequenos folhetos, a maioria é ilustrada com estampadas produzidas por carimbos de madeira, as xilogravuras, também utilizadas nas capas. Seu nome tem origem na forma como inicialmente os livretos eram expostos para venda, pendurados em cordas ou cordéis.

Advindo de relatos orais, o cordel costuma contar causos populares, lendas e novelas. Uma peculiaridade deste tipo de gênero é que suas histórias têm como ponto essencial uma questão que deve ser resolvida com a astúcia do personagem. A grande sacada é que muitas obras clássicas podem ser recontadas através dessa linguagem. Como aconteceu com “A Megera Domada”, de William Shakspeare, que foi transformada em cordel como resultado da adaptação do poeta e folclorista baiano Marco Haurélio.

A obra do dramaturgo inglês, que traz o corajoso Petruchio, que se dispõe a casar-se com a fera Catarina, filha primogênita do rico senhor Batista, recebeu uma adaptação genial. Algumas modificações do texto foram necessárias para uma melhor adequação ao estilo nacional. Petruchio, por exemplo, virou Petrúquio e alguns termos bem regionais foram inseridos ao contexto, sem modificar, é claro, o argumento da história original.

“- Vou fazê-lo se agitar
Cão sarnento, condenado!
Vejo ali um tamborete,
Um móvel apropriado,
Para arrebentar-lhe o quengo
E, assim, deixa-lo agitado.”

As ilustrações do cearese Klévisson Viana, por sua vez, simulam primorosamene as xilogravuras, ajudando a compor essa mistura rica e divertida entre o nordeste e a Itália renascentista.

 

 

Produzido pela editora “Nova Alexandria”, o livro faz parte da coleção “Clássicos do Cordel”, que consta com diversos outros títulos adaptados da literatura nacional e internacional. A ideia é magnifica, especialmente porque facilita o acesso aos livros clássicos, dando essa roupagem mais lúdica e brasileira.

 

Fontes:
– http://www.casadaxilogravura.com.br/xilo.html
– https://www.estudopratico.com.br/literatura-de-cordel
– http://marcohaurelio.blogspot.com.br
– http://fotolog.terra.com.br/klevisson_viana

A Fragilidade Humana em As Histórias de Titãs Quebradiços

Há muito tempo o homem descobriu que a arte não é apenas uma forma de expressão, mas, também, um perfeito refúgio, um meio de expor seus medos e tratar feridas emocionais, sublimando suas dores mais profundas e obscuras.

No livro “Histórias de Titãs Quebradiços”, de Gilson Pessoa, editora Autografia, personagens letrados, abastados de conhecimento e saber, teoricamente bem preparados para vida, expõem toda sua fragilidade cotidiana, sendo apenas – parafraseando Nietzsche – “humanos demasiadamente humanos”.

A obra traz histórias interessantes que desfilam existências e conflitos, com os quais, impressionantemente, nos reconhecemos. Conflitos como a timidez excessiva da alma romântica do personagem Salvador Alheiras que, de repente, se viu apaixonado por Suzana e que, ao primeiro encontro, não conseguiu balbuciar uma palavra sequer por horas.
Sua mente vivia presa em um labirinto por tempo integral, onde ele sempre esteve acostumado a atravessar sozinho, tomando decisões que afetariam somente o seu destino.
A narrativa segue um estilo envolvente, de cadência dinâmica. O autor optou por desenvolver uma conexão direta entre os contos, sem a utilização de capítulos. Ou seja, ao desfecho de cada história, a narrativa nos conduz, imediatamente, ao início da seguinte, sem perder o fio da meada.

As ilustrações, feitas por Rômulo Tavares Teixeira, são monocromáticas e conferem um “tom” especialmente jovial ao livro.

A musicalidade é outro componente acertado nesta obra. Sua narrativa bem desenvolvida consegue, com graça e desenvoltura, reportar, ao nosso imaginário, as músicas aludidas em cada cena. Como no momento em que os personagens Alberto e Lisandra se entregam ao tango de Carlos Gardel, embriagados de álcool e paixão.

Assim, finalizamos o livro com a nítida sensação de que ainda há muito a ser descoberto sobre esses tipos tão enigmáticos e suas experiências que se alinham e desalinham no palco da vida de cada um.

“Histórias de Titãs Quebradiços” pode ser adquirido pela Livraria Cultura online.

A brutal realidade escondida em The Cove

Os golfinhos são mamíferos notórios por sua aguçada inteligência e amistosa interação com as pessoas. Capazes de se reconhecer no espelho,possuem um poderoso sonar com o qual rastreiam todas as formas de vida no oceano,deslizando com elegância pela imensidão azul.

Todas as características que os tornam tão excepcionais servem de motivação para que os mesmos sejam aprisionados e treinados para exibições em parques aquáticos até o fim de seus dias. O mais curioso é perceber que seu destino em mãos humanas pode ser ainda pior.

O documentário vencedor do Oscar de 2009 mostra uma realidade cruel que acontece em uma enseada na cidade de Taiji, no Japão. Neste local os cetáceos são conduzidos a uma armadilha, onde alguns são capturados para serem vendidos a parques aquáticos espalhados pelo mundo, enquanto o restante é brutalmente retalhado para ser vendido aos supermercados e restaurantes da região.

A película mostra os esforços do ativista Richard O’Barry, que vem há anos lutando pela liberdade destes mamíferos por remorso, pois treinou alguns deles para atuarem no famoso seriado “Flipper”, que terminou sendo responsável pela disseminação do desejo de nadar e brincar com estas amáveis criaturas, o que consequentemente impulsionou a indústria de entretenimento neste setor.

A falsa imagem de que eles estão sempre “sorrindo” contribui para mascarar sua verdadeira condição, já que muitos deles ficam terrivelmente estressados com o alvoroço da multidão por causa de sua sensibilidade sonora, sendo que a maioria deles termina com úlceras terríveis.

O diretor Louie Psihoyos informa como essa chacina (vinte e três mil são mortos por ano) é encoberta pelas autoridades locais, evitando que a mídia internacional e a população da cidade saibam dessa triste realidade. A cidade é cheia de belas ilustrações de baleias e golfinhos, dando a entender que ali seria um lugar onde eles fossem amados.

Vale apontar a falta de envolvimento das grandes fundações ambientalistas nesta questão. A Comissão Internacional Baleeira consegue o apoio de pequenas repúblicas da América Central em troca de pequenos financiamentos e acredita que as mortes dos golfinhos “equilibram a cadeia alimentar marinha, pois comem peixe demais”. Enquanto isso, a Organização para a Preservação dos Oceanos não consegue vislumbrar a gravidade dessa pesca.

A projeção comenta também sobre a periculosidade presente na ingestão de carne dos golfinhos com elevado nível de mercúrio que está sendo distribuída na merenda escolar das escolas municipais.

Um filme que procura sensibilizar a população para uma fatalidade que alguns japoneses insistem em caracterizar como “tradição de seu povo” numa fraca tentativa de justificar tal atrocidade.

Os oceanos foram o berço da vida em nosso planeta e tal pesca indiscriminada é um espelho do retrocesso civilizatório, refletindo a ganância que motiva esse extermínio irresponsável.

O sentido do amor em Closer

O poeta britânico T.S. Eliot afirmou certa vez que “quanto mais certos estamos de conhecer uma pessoa, mais próximos estamos de nos decepcionar com ela.” Essa citação se encaixa como uma luva no filme “Closer”, onde a desilusão é uma constante durante toda a história.

Adaptada de uma peça de teatro, a película mantém os diálogos secos e cortantes, penetrando no inconsciente dos personagens a fim de alcançar o efeito desejado. As conversas viscerais são um dos grandes destaques do filme, pois a intenção é expor a nossa imersão em uma sociedade de aparências, transbordada em insegurança e solidão.

“Closer” mostra a trajetória de um jornalista escritor de obituários que, mesmo amando sua namorada, acaba se envolvendo com uma fotógrafa artística casada, o que acaba por desencadear uma teia de intrigas entre os quatro envolvidos.

O diretor Mike Nichols trabalha com maestria os quatro personagens, permitindo que possamos vislumbrar todas as suas nuances e entender seus respectivos comportamentos.

Daniel é um aspirante a escritor que se deixa levar pelas emoções e sempre segue seus impulsos, enquanto seu rival, o dermatologista Larry, sabe ser frio e manipulador quando quer, pois se considera “um observador clínico do circo humano”.

Um ponto comum aos dois personagens masculinos é o machismo. O escritor não aceita que sua ex tenha alguém depois dele, enquanto o médico é visivelmente agressivo com as mulheres, apesar de nunca ser violento.

As duas protagonistas femininas são igualmente interessantes: enquanto a fotógrafa busca resistir à sedução do jornalista (sempre cedendo a ela), a stripper ama incondicionalmente seu namorado e se mostra carente em grande parte das sequências, mas sua força acaba surpreendendo ao longo da história.

Um ponto interessante do filme é o fato de que os personagens estão sempre surpreendendo o telespectador, já que muitas vezes agem por impulso, culpa ou até mesmo pena. Ninguém é confiável ou condenável.

Daniel explica a Alice que prefere Ana porque ela não precisa dele, o que mostra uma necessidade própria nossa de sempre buscar quem é indiferente a nós, um desejo inexplicável, como uma mosca em direção a uma lâmpada, sentimento imortalizado no poema de Charles Baudelaire.

O grande trunfo de “Closer” é colocar o sentimento amoroso no microscópio, expondo todo tipo de reações que o mesmo provoca, desde a impulsividade romântica até a vingança mais fria e cruel, tecida com calma para ser degustada lentamente depois. Mostra também como o ser humano acaba traído por suas próprias fraquezas e incertezas, como William Shakespeare tinha provado em tragédias como “Othello” e Mozart através de sua ópera “Così fan tutte” (Assim fazem todas), cujas árias estão incluídas na belíssima trilha sonora.

O charme da trapaça em Golpe de Mestre

O diretor George Roy Hill filmou dois clássicos com a dupla formada por Paul Newman e Robert Redford : “Butch Cassidy” e a película em questão.

 Ambientada em Chicago na década de 30, a trama acompanha a trajetória de Johnny Hooker, que ao lado de seu parceiro e mentor Luther Coleman vive de pequenos golpes. Em certa ocasião acabam ganhando muito dinheiro, sem saber que tinham acabado de “limpar” um mensageiro de Doyle Lonnegan, um gângster perigoso que não hesita em mandar matar os responsáveis pela trapaça. Hooker consegue escapar, mas seu amigo não tem a mesma sorte.
Decidido a vingar seu parceiro ele vai atrás de Henry Gondorff, um antigo companheiro de Luther que se encontra sumido, pois o FBI está atrás dele. Juntos eles organizam um time com a nata dos vigaristas da cidade para organizar um grande golpe, lesando Doyle pelo que este fez àquele que era muito querido na comunidade dos trapaceiros.
“Golpe de Mestre” é genial em todos os sentidos. A reconstituição de época está impecável e o roteiro é perfeito, além da trilha sonora que é um show à parte. A música tema todo mundo provavelmente já ouviu em algum lugar e traduz a essência da projeção de forma única.

A montagem merece destaque também, já que a estória é dividida em atos, permitindo ao espectador observar uma verdadeira radiografia do golpe: a armação do cenário, a isca para atrair o “pato” até finalmente chegar à grande virada no final, onde até os mais experientes acabam sendo enganados por excesso de confiança.

Toda a artimanha da trapaça acaba se revelando um intenso trabalho envolvendo atuação, estratégia e paciência. O jogo psicológico com a vítima do golpe também se revela uma experiência fascinante, pois percebemos que ele termina iludido pela própria prepotência e ganância. O filme desenvolve essa estrutura até o final, surpreendendo a cada minuto, o que torna sempre instigante a experiência de assisti-lo. Como num jogo de xadrez, cada movimento precisa ser friamente calculado e o menor vacilo pode levar ao fracasso.

O filme ainda demonstra eficiência montando com cuidado o histórico de cada um dos protagonistas, a começar por Hooker, que mesmo usando um terno caro não se preocupa com o cabelo despenteado, revelando um traço de sua irreverência e impulsividade. Seu parceiro Gondorff é um golpista mais experiente e apesar de seu desleixo em casa sempre cuida da aparência,o que o torna um personagem mais distinto, que sempre foi muito cauteloso mas foi traído por uma garota, justificando uma determinada atitude ao longo da projeção.

 Como se não bastasse, o elenco faz jus a todo o resto e só incrementa este clássico: além dos dois previamente mencionados, o filme ainda traz Robert Shaw como o implacável Doyle Lonnegan e Charles Durning como o tenente Snyder, que está no encalço de Hooker e levanta dúvidas sobre o seu destino.
 Além de todos os motivos acima mencionados, destaco ainda o espetacular e inesperado desfecho que só faz aumentar a admiração por esta grande película.

Persépolis: Contravenções e Contradições

Marjane Satrapi é o nome artístico de Marjane Ebihamis, uma romancista gráfica, ilustradora e escritora infanto-juvenil franco-iraniana. Atualmente também trabalha como roteirista e cineasta, mas ficou internacionalmente  conhecida pela sua autobiografia em quadrinhos intitulada Persépolis. O livro foi adaptado para o cinema em 2008 como uma animação dirigida pela própria autora da mesma.
Na seguinte obra ela retrata sua infância em 1979,onde sofreu com as transformações políticas de seu país nesse período, a revolução que transforma o país monárquico e moderno em uma república islâmica extremamente conservadora. Se para um adulto esse tipo de mudança já é difícil de assimilar, imagine para uma criança, que de um dia para o outro é separada dos amigos (pois eles são do sexo oposto), obrigada a usar véu, proibida de participar de festas e outras coisas mais.
O livro traz em suas páginas iniciais uma breve introdução histórica sobre a política e a religião do Irã, áreas que estão intimamente ligadas e que definem todo e qualquer tipo de comportamento no país em questão.
Na fase infantil da autora, a pequena fã do astro Bruce Lee, temos as dificuldades de lidar com as mudanças, a falta de entendimento do que estava acontecendo, os horrores do conflito vistos pelos olhos inocentes da garota, que sonhava em ser profeta para resolver todos os problemas do mundo, disputava com os amiguinhos quem tinha mais parentes presos/desaparecidos e inventava histórias de heróis. Nesse período ela se relaciona bastante com o tio comunista Anouche, que sempre lhe dizia para nunca deixar de ser sincera consigo mesma.
Já na adolescência, quando se refugia em Viena na Áustria, Marje deixa para trás a repressão da ditadura recém-instalada e os perigos do novo governo, mas enfrenta um tipo de opressão diferente: o de se ver sozinha em um país estrangeiro, sem amigos e sem família. Ela tem as suas primeiras desilusões amorosas e enfrenta a solidão como nunca antes em sua vida, sendo forçada a se adaptar com outro idioma e costumes completamente diferentes ao que estava habituada.
Inteligente e com uma língua afiada, ela diz o que pensa e não mede palavras, o que não significa que ela sempre está certa. Dona de um pensamento original que desafia o machismo tão comum no Irã, ela muitas vezes age sem pensar, movida pela paixão e termina enfrentando consequências inesperadas.
Uma belíssima graphic novel sobre uma mulher forte e independente, em parte graças aos seus familiares que sempre a encorajaram nesse sentido, buscando se encontrar no mundo enquanto define a sua identidade numa conjuntura repressora e politicamente instável. Leitura mais que recomendada.

Mistério e Psicoses em Rockfeller

Beto Rockfeller, protagonista do livro “Rockefeller”, de Alexandre Apolca, bem que poderia ser um personagem de alguma canção do “Legião Urbana”, assim como o Johnny, da música “Dezesseis”. Afinal, é um sujeito fora de série, cheio de atitude e entusiasmo pela vida.

Na história, Beto sonha em fazer sucesso com sua banda de rock, a “Escória Humana”, cujos integrantes são ele, Yakult, Gringo e Santiago dos Santos. Então, sua biografia é regada a drogas, bebidas, aventuras e muita música dos anos 90, tendo como plano de fundo inicial o estado de São Paulo.

Quando decidem sair de Sampa, por causa de um infortuno, o grupo parte para a cidade mineira de São Tomé das Letras, a Machu Pichu brasileira, onde se principia uma trama complexa e misteriosa envolvendo o jovem Beto, que passa a ser atormentado por fantasmas pessoais e vitimado por psicoses, que ele mesmo desconhecia ter.

A narrativa, em primeira pessoa, é extremamente dinâmica e a história, bem original. O prefácio é escrito pelo próprio personagem, assim como o posfácio, altamente surpreendente. 

Mas, cuidado. Não acredite em nada, desconfie de tudo. Como o próprio autor afirma em sua sinopse, “nem tudo que se vê pode ser real…”

Trecho do livro:
“Ele voou até a janela e ficou me observando. Seus olhos oscilavam entre o vermelho e o preto, cores infernais. Sua plumagem era de um negro diabólico, sobrenatural. Subitamente ele grasnou, me assustando. (…)
– Chega de mistério! Quem é você? – perguntei irritado, mas ele não me respondeu, apenas grasnou suavemente como um assobio, como se quisesse rir do meu desespero, e nada mais, nada mais.”
O livro encontra-se disponível em sua fanpage.



Intolerância e sobrevivência em Maus

Inúmeras obras de arte já discursaram sobre o Holocausto nazista e o seu impacto na história da humanidade. “Maus” de Art Spiegelman também aborda o referido tema, mas se diferencia pela abordagem extremamente humanista e pessoal, tornando-se um clássico dos quadrinhos contemporâneos.

O autor narra a trajetória de seu pai, Vladek e sua mãe Anja em Sosnowiec, na Polônia desde o período anterior à invasão dos alemães até o final da Segunda Guerra Mundial.Ele não poupa detalhes ao retratar a crueldade e injustiça dos opressores, colocando seus cativos em situações que testam o limite da natureza humana, chegando inclusive a promover alguns dos judeus a soldados, reforçando assim esse enclausuramento social,cultural e religioso.

Esse contraste antes e depois da invasão nazista mostra o quanto suas vidas foram modificadas, sendo gradativamente destituídos de todos os seus bens pessoais e reduzidos a meras sombras dos grandes empresários de tecido que foram no passado.
Intercalando os flashbacks com os dias atuais, onde Art debate com seu pai sobre os eventos enquanto ele os narra, o autor insere uma história dentro da história, com pontos de vista e conjunturas históricas completamente diferentes: percebemos que Vladek é um sobrevivente, não um herói. Seu comportamento isolado e seu temperamento irritadiço espelham seu cansaço emocional, reforçado pelo peso de algumas escolhas que ele se sentiu forçado a tomar pelo seu próprio bem enquanto estava cativo em Auschwitz, trazendo uma análise complexa sobre o ser humano e seu comportamento em situações limite.

A relação entre pai e filho, que já não era das melhores, tendo em vista os vários eventos trágicos que aconteceram, vai ficando cada vez mais fragilizada.

O autor aproveita para inserir também suas próprias preocupações e dúvidas a respeito do processo de construção da obra  em questão, sua “culpa” por ter crescido num contexto diferente de seus pais e o receio de não conseguir traduzir toda a angústia e sofrimento presentes naquele período.
Um dos grandes destaques desse livro é o antropomorfismo, a representação animal de personagens humanas: os judeus são ratos (em alemão_ maus), os alemães são gatos, os americanos são cachorros, os franceses são sapos, os poloneses não judeus são porcos, os suecos renas, os ciganos traças e os ingleses peixes. Esse uso de alegorias foi uma tirada irônica em relação  às imagens propagandistas do nazismo que mostravam os judeus  e os poloneses dessa forma. O uso dessa técnica não ameniza em nenhum momento o impacto visceral da história contada.

A obra foi inicialmente lançada em dois capítulos, sendo o primeiro publicado em 1980 e o segundo em 1991. Atualmente os dois se encontram publicados num só volume. Levou treze anos pra ficar pronta e foi traduzida para pelo menos dezoito idiomas. Um belíssimo ensaio que ilustra a potencialidade distorcida da natureza humana num contexto extremamente nefasto que levou algumas pessoas a um novo estágio de percepção das coisas, cercadas de paranoia e egoísmo, mas que ainda assim conseguiam demonstrar um pouco de compaixão quando era possível.