Ditadura e Copa do Mundo em O ano em que meus pais saíram de férias

O ano de 1970 no Brasil foi marcado por uma imensa contradição: enquanto a maioria da população vibrava eufórica com a seleção de futebol no México, outros sofriam nas mãos da Ditadura Militar, vítimas de torturas terríveis por não apoiarem o regime vigente.

Várias películas trataram deste tema, sendo a mais famosa delas intitulada “Pra frente Brasil”, protagonizada por Reginaldo Faria. O filme a seguir trata do mesmo tema, usando uma abordagem mais agridoce e sutil.

A narrativa acompanha Mauro, um mineiro de 12 anos apaixonado por futebol que sai de sua casa em Belo Horizonte para ser deixado aos cuidados do avô em São Paulo, pois seus pais precisam “sair de férias”, quando na verdade estão fugindo do governo.

O garoto não encontra seu anfitrião, que falece momentos antes de sua chegada, sendo acolhido por Shlomo, judeu ortodoxo e vizinho do mesmo. Apesar do estranhamento inicial gerado pelas diferenças culturais, acabam se tornando amigos em meio ao contexto da época que oscilava entre a euforia e a angústia.

A angulação do diretor Cão Hamburger trabalha o ponto de vista do menino, que não compreende direito o que está acontecendo e chega até a vibrar diante de um caminhão do exército.

A trama acompanha de forma bastante lírica sua percepção do novo espaço e das novas amizades, bem como seus contatos iniciais com o sexo oposto. A projeção é bastante eficiente ao retratar a ampliação gradativa do universo do protagonista, suas percepções a respeito de diferentes culturas e pontos de vista.

Neste ponto gostaria de ressaltar a diferença de mentalidade dos adolescentes daquela época para a nossa, bem menos superficial e mais centrada no elemento humano.

O filme trata de forma bastante delicada a complexa situação gerada pela convivência forçada do solitário religioso com o aficionado em futebol. Apesar das divergências ambos compartilham o desejo de retorno do casal que prometeu retornar para reencontrar seu filho quando a Copa do Mundo começasse.

Importante comentar também a bela metáfora entre a situação do garoto com a do goleiro de um time, já que ambos aguardam solitários com ansiedade, pensando sempre na pior situação possível.

A análise do tema desta obra é importante na atual conjuntura, pois muitas vezes o fervor da Copa do Mundo pode acabar enevoando decisões importantes que implicam no futuro do país.

No período em questão terminou desviando a atenção de um problema gravíssimo que acontecia enquanto a multidão vibrava com as jogadas de Pelé e Tostão.

Um filme belíssimo sobre impedir que um contexto histórico violento afete a maturidade de um jovem, preservando sua inocência a respeito dos fatos que se apresentam já que isto implica em projetar uma esperança para gerações futuras, algo importantíssimo no que se refere à nossa realidade.

O filme está disponível no Youtube, neste link: O ano em que meus pais saíram de férias

A rebeldia contra o sistema em Clube da Luta

É estranho que poucas pessoas reflitam sobre o papel histórico de nossa geração. Quem somos? De onde viemos? Qual será nosso futuro? Nada disso parece importar.O presente é prioridade, onde a elite abastada frui o seu narcisismo sem analisar cuidadosamente o estado de caos que enfrentamos e que só tende a piorar. O filme em questão faz um raio-x deste painel e o expõe de forma crua, como poucas vezes tem sido feito.
A adaptação do romance de Chuck Palahniuk mostra a trajetória de um analista de seguros que enfrenta uma grave crise de insônia. Consumidor compulsivo consegue tudo o que o dinheiro pode comprar, mas não alcança paz de espírito. Começa a visitar grupos de ajuda a pessoas que possuem problemas físicos diversos e o amor incondicional deles por estranhos é tão puro que ele termina ficando viciado por essa descarga emocional.
Sua dificuldade foi parcialmente resolvida, mas ele ainda sente que está vivendo automaticamente, sem desejos nem conquistas.Tudo em sua vida é consumível e descartável.
A solução aparece em uma de suas inúmeras viagens de avião, quando conhece Tyler Durden, que mudará toda sua noção existencial até então.Desfaz-se de todos os seus bens materiais e vai morar com o novo amigo em uma casa abandonada.
O caminho para a realização espiritual do protagonista é através de sua autodestruição. Um dia, depois de uma noite de bebedeira, começa a brigar sem motivo nenhum e descobre uma maneira de aliviar suas tensões. Nasce então o Clube da Luta, onde estranhos se enfrentam à noite pelo puro prazer de aliviar suas angústias e amarguras.
Gradativamente, o que era apenas uma forma de “relaxamento” acaba se tornando uma seita fundamentalista e ganhando proporções assustadoras. O protagonista tenta reverter o processo, mas é então que ele percebe o quão visceralmente preso está a tudo isso.
Este filme não poderia ser mais atual, pois mostra o estado de carência emocional de uma sociedade pós-moderna que não enxerga outro objetivo que não seja o proposto pelos grandes conglomerados capitalistas. O personagem principal não tem nome, reforçando a ideia do indivíduo homogeneizado dentro do contexto em que vivemos.
Em certo momento Tyler Durden diz para a câmera: “você não é o seu emprego, nem o que você ganha, nem o carro que dirige, nem as calças que veste!”, mandando uma clara mensagem ao espectador.
Dirigido por David Fincher, que já tinha apresentado um filme tão impactante quando este (“Seven – Os sete crimes capitais”), a película expõe toda a situação de decadência e desespero que se esconde por trás de uma mentira que preferimos acreditar para não nos perdermos em questionamentos que desmoronariam tudo aquilo que acreditamos como verdade.
A montagem merece aplausos, pois ajuda a construir a psique do protagonista e compreender a revelação no ato final, o que exige a percepção de detalhes ao longo da narrativa.O elenco também está de parabéns. Edward Norton está ótimo como sempre e Brad Pitt mostra que sabe atuar quando bem dirigido.
 Numa época em que o tempo parece escorrer como areia por entre nossos dedos, é interessante analisar películas como esta para que possamos repensar nossos hábitos e ver se estamos consumindo ou sendo consumidos por todos os bens materiais que nos rodeiam.

As divertidas alegorias de Futurama

O criador dos Simpsons, Matt Groening afirmou certa vez que quando criança gostava de desenhar naves espaciais em seu caderno durante as aulas, mostrando que desde cedo já tinha interesse por esse imaginário, como muitos de sua idade. A diferença é que depois de crescido ele conseguiu proporcionar a sua própria visão amadurecida do mesmo.

Ao contrário da série sobre a famosa família amarela, aqui ele desenvolveu uma linha narrativa que vai se estendendo ao longo das temporadas, acompanhando assim as diferentes trajetórias dos protagonistas.

A história começa no réveillon de 1999, onde o entregador de pizza Philip J Fry vai parar num laboratório de criogenia vazio por causa de um trote, pouco depois de descobrir que sua namorada o estava deixando por outro. Depois de cair acidentalmente em uma das câmaras ele é congelado por 1000 anos, sendo trazido de volta no último dia de 2999 por uma agência de empregos que implanta um chip subcutâneo indicando a carreira de cada um para o resto de sua vida. Quando descobre que está marcado para ser entregador para o resto da vida, foge antes do final do procedimento e vai atrás de seu parente no futuro, um velho cientista que possui uma companhia de entregas espaciais.

A equipe da Planet Express inclui ainda uma sensual alienígena cíclope que supostamente é a última de sua raça, um robô egocêntrico e cleptomaníaco, um jamaicano obcecado por burocracia, uma estagiária asiática, filha de latifundiários em Marte e um médico pertencente a um planeta de lagostas humanóides.

O design das naves e das unidades robóticas é completamente retrô, o que denota uma clara homenagem aos primeiros exemplares do gênero. O criador aproveita o universo fictício para inserir vários comentários sociais ácidos sobre religião, sociedade, política e vários outros temas, inclusive trazendo uma nova perspectiva do vegetarianismo quando tira o homem do topo da cadeia alimentar..

Em Futurama existem cabines de suicídio, assim como as telefônicas espalhadas por toda a cidade. Os pedestres podem optar por um transporte rápido através de tubos que interligam a cidade inteira. As cabeças de celebridades são mantidas com vida dentro de jarros cheios de líquido e armazenadas dentro de um museu. A publicidade é tão invasiva que é transmitida durante os sonhos e um refrigerante de procedência bastante insalubre consegue ser campeão de vendas porque possui um elemento viciante em seu conteúdo.

Os robôs possuem uma inteligência artificial bastante avançada, possuindo inclusive sua própria igreja, hospício, inferno e planeta, cometendo crimes e chegando até a lutar pelo direito de se casar com humanos.Além disso um grupo de mutantes que sofreram deformações por lixo tóxico vive confinado nos esgotos, sem permissão para vir à superfície, pois não são considerados gente.

A quantidade de referências aos clássicos do gênero é impressionante, indo desde “Viagem à Lua” de George Méliés, passando por “2001_ Uma Odisséia no Espaço”, “O Dia em que a Terra Parou”, “A Guerra dos Mundos”, “Star Trek” e “Além da Imaginação” entre vários outros. O criador também aproveita para brincar com vários temas recorrentes da ficção científica como viagens no tempo, multiverso, buracos de minhoca, nanotecnologia e as leis da robótica de Isaac Asimov, produzindo assim episódios com um conteúdo bastante rico, original e que deixa o espectador refletindo, mesmo depois de ter dado umas boas risadas.

O humor é bastante trabalhado nos diálogos e muitas vezes surge das diferentes perspectivas dos protagonistas. Fry é bastante nostálgico e frequentemente peca por excesso de ingenuidade ou imaturidade. Sua ligação romântica com a cíclope Leela nasce da sensação mútua de desconforto e estranhamento em uma realidade à qual não pertencem. Ela é o cérebro da equipe, embora se permita equivocar como qualquer pessoa. A unidade robótica Bender ficou ressentida certa vez por não poder sonhar ou imaginar como os humanos, mostrando um lado bem interessante desse personagem.

Cancelado pelo canal Fox depois da quarta temporada, a série ganhou sobrevida através de sua grande massa de fãs que estava cansada das reprises. Desde então foram feitos quatro filmes e atualmente está no término de sua sétima temporada no Comedy Central, confirmando assim a excelência do seu conteúdo.

A releitura de um clássico na animação Beowulf

A mitologia nórdica é riquíssima, tendo inspirado inúmeras músicas e poemas que tratam de heróis consumidos pelo próprio orgulho, onde o sobrenatural atua como metáfora de nossas virtudes e fraquezas, transfiguradas para refletirem a real natureza de nossas atitudes.
O poema épico que serviu como fonte de inspiração para a seguinte projeção é mais antigo escrito em língua moderna e um dos mais célebres do gênero, marco na literatura medieval.
A narrativa da película acompanha o aventureiro que leva o nome do título indo ao reino da Dinamarca, atendendo ao pedido do rei Hrothgar para matar o monstro Grendel, uma criatura constantemente irritada pela música e cantoria no local em função de sua extrema sensibilidade auditiva.
O herói consegue aniquilar o troll e tranqüilizar a população por um momento, mas a mãe da besta surge pedindo vingança e cabe a ele exterminá-la, sem saber que seu orgulho será sua maior fraqueza durante este confronto.

O uso da técnica de animação permite uma melhor ilustração da história que envolve elementos míticos para reforçar o potencial simbólico de seu cerne.
A atenção aos detalhes enaltece a beleza das imagens e contribui para fazer justiça à grandiosidade do texto original.
O uso de captura de movimentos reforça a importância da interpretação dos atores envolvidos no projeto, por isso destaco as excelentes performances de Anthony Hopkins, Robin Wright Penn, Crispin Glover e Ray Winstone que ilustra com maestria a imponência do herói principal, personagem da literatura universal clássica.
A montagem do cineasta Robert Zemeckis é eficiente ao retratar a força da lenda criada em torno do protagonista, conferindo-lhe uma característica sobre-humana.
Interessante comentar também a inserção do confronto entre a religião dinamarquesa e o catolicismo para comentar o impacto da cultura ocidental no referido contexto, além de mostrar a disparidade dos universos projetados pelas citadas crenças.

O roteiro de Roger Avary em parceria com o renomado cartunista Neil Gaiman mantém-se fiel à obra original em vários aspectos e as pequenas modificações no enredo enaltecem o caráter dos personagens, confirmando seus respectivos destinos.
A película retrata a soberba como principal responsável pela derrocada do espírito humano, um traço bastante característico de nosso comportamento. O excesso de confiança age de forma nociva inibindo nossas defesas e tornando-nos vulneráveis a possíveis inimigos.
A ganância e a glória definem o perfil deste guerreiro cuja força vital ultrapassa o tempo e o espaço onde se encontra. Sua bravura vira lenda para depois tornar-se mito. Seus valores sublimam a conjuntura de seus atos.
A adaptação desta obra eleva o potencial de sua essência, transcendendo o tempo histórico em que a mesma se insere.

Uma noção de perspectiva em Lunar

Toda a nossa rotina é construída a partir de informações que recebemos da mídia e daqueles que convivem conosco. Toda a perspectiva das coisas é gerada na conjuntura em que estamos inseridos e agimos tendo como fundamento a interação com aqueles à nossa volta.

O comportamento acompanha a constante transitoriedade dos eventos, renovando a leitura da realidade e da natureza humana a partir do conujnto de experiências que enfrentamos ao longo de nossa jornada existencial.

Ambientada em um futuro próximo, a narrativa desta projeção acompanha a trajetória de Sam Bell, um astronauta que trabalha em uma base no lado escuro da lua, cuidando da manutenção de máquinas coletadoras de energia solar para posterior comercialização.

Seu contrato de três anos com a empresa está chegando ao fim e os sinais de desgaste psicológico e emocional são evidentes, pois ele tem vivido em estado de extrema clausura durante todo este tempo.

Após sofrer um acidente durante a vistoria de uma das máquinas no exterior ele acorda na enfermaria sem a lembrança de seu retorno. Resolve investigar o ocorrido e encontra outra pessoa idêntica a ele presa nos destroços do veículo avariado.

Depois de resgatar o seu “outro eu” ele começa a procurar uma razão palusível para este fato, questionando especialmente a sua própria sanidade mental.

A montagem do cineasta Duncan Jones é eficiente ao mostrar o progressivo desmoronamento da verdade na qual o protagonista fundamentou toda a sua postura até aquele momento.

O diretor consegue manter a dinamicidade da história com um único ator em cena circulando no mesmo cenário. Nesse ponto vale mencionar o excelente trabalho de Sam Rockwell, que explora as diferentes dimensões do astronauta impressas em suas diferentes “versões”.

O único companheiro de Sam durante este insólito encontro consigo mesmo é o computador Gerty, que possui inteligência e emoções artificiais assim como o icônico HAL 9000, personagem do clássico “2001: Uma Odisséia no Espaço” de Stanley Kubrick. Dublado pelo genial Kevin Spacey, ele tenta ajudar o confuso protagonista diante deste novo contexto.

A película ilustra como a ciência pode distorcer a perspectiva racional dos fatos, instaurando uma conjectura que se adapte aos seus objetivos e criando assim uma série de princípios que distorcem nossos valores mais sinceros e viscerais.

O progresso produz mudanças significativas e pode trazer inúmeros benefícios, entretanto corrói e sacrifica de acordo com seus interesses, sem considerar as perdas emocionais que ele ocasionalmente provoca.

A história de um homem que reconhece e constrói o seu próprio caminho, apesar da ganância corporativa que insiste em trancafiá-lo um cárcere espelhado. É a vitória do espírito sobre a incessante tentativa de formatação imposta pela ciência.

Tensão latente em O iluminado

A película a seguir, assim como “Chinatown” tem sido tema de inúmeros projetos de pesquisa na área de cinema, tal é seu refinamento, seja na trilha sonora ou na montagem. Além disso, de acordo com um grupo de especialistas, engloba todos os elementos necessários para um bom filme de terror e suspense.

Adaptado do romance homônimo de Stephen King, a obra narra a história de Jack Torrance, que consegue o emprego de zelador do hotel Overlook durante o período em que ele fecha suas portas a visitantes por causa do inverno rigoroso.

Ele se muda para lá com a esposa e o filho Danny, que possui um estranho dom de vidência, manifestado através de conversas com seu amigo imaginário chamado Tony.

A seqüência inicial já mostra o tom do filme, onde uma câmera aérea acompanha o carro do protagonista até sua chegada ao hotel, reforçando a idéia de isolamento a que o trio estará submetido. Esse clima é mantido durante todo o filme e o diretor perfeccionista Stanley Kubrick faz questão de imprimi-lo em cada take, usando planos fundos, a fim de acentuar o contraste dos personagens naquele ambiente vasto e sombrio.

O livro traz toda a história do local assombrado, construído em 1907, em cima de um cemitério indígena. Ao longo dos anos, foi visitado por muitas celebridades, sendo famoso por seu glamour e sofisticação, mas com o passar do tempo, eventos terríveis como assassinatos e depravações diversas aconteceram e a essência de tais atos terminou impregnada em suas paredes, o que torna a simples presença num local como esse assustadora.

Ao longo da estadia, Jack, que já possui uma índole violenta vai sendo consumido pela essência do mesmo e gradativamente transforma-se em uma ameaça para sua esposa e seu filho.

O cineasta soube trazer um tom mais realista para a história, enfocando o clima de tensão causado pelo enclausuramento ao contrário da obra literária que por sua vez abusou dos elementos sobrenaturais na trama. Kubrick manteve a essência da obra, mas optou pela sutileza, o que revela ser uma decisão mais acertada, já que o poder da sugestão é bem mais eficaz nesse gênero.

A montagem cuidadosamente trabalhada é definitivamente um dos grandes destaques do filme, com destaque para as cenas que mostram Danny andando de triciclo pelo hotel, revelando imponência do mesmo e o aspecto sombrio que vai emergindo “de suas entranhas”.

O elenco dispensa comentários. Jack Nicholson, mais uma vez inspiradíssimo, mostra um Jack Torrance que ama sua família, mas termina seduzido pelos fantasmas do hotel, enquanto o jovem Danny Lloyd surpreende ao interpretar tão bem um personagem incrivelmente complexo, aterrorizado com seu próprio dom e que consegue raciocinar até mesmo nas situações de grande risco.

“O iluminado” também pode ser visto como uma análise do confronto com demônios interiores, assim como já foi referenciado no ensaio sobre “A Janela Secreta”, adaptação do mesmo autor. Quem mais sofre com este conflito é o escritor, pois como afirma o cineasta francês Jean Cocteau, é aquele que tem necessidade de compartilhar sua solidão.

O triunfo imediato de Stranger Things

Stranger Things tornou-se um sucesso instantâneo desde a sua estreia na Netflix, no dia 15 de julho de 2014. As redes sociais foram invadidas por elogios, ilustrações diversas dos personagens mais queridos, pôsteres alternativos, além de comentários sobre as cenas mais emblemáticas. Todo esse “barulho” é justificado em função da saborosa miscelânea de elementos e referências apresentadas, especialmente o estilo que remete diretamente à década de oitenta.
O arco principal da história envolve o misterioso desaparecimento do jovem Will Byers numa pequena cidade no interior dos Estados Unidos, onde quase nada acontece. Após esse evento outras coisas estranhas vão gradativamente surgindo, dentre elas o aparecimento de uma menina paranormal com a cabeça raspada, fugitiva de uma corporação que a estava usando como cobaia em vários experimentos.As alusões são as mais diversas, algumas sutis e outras não. O filme Goonies é a mais óbvia, já que envolve um grupo de garotos envolvidos numa aventura escondidos de seus pais  para encontrar o amigo perdido. A relação dos meninos com a estranha garota e o esforço para mantê-la escondida remetem ao clássico de Steven Spielberg “ET-O Extraterrestre”. Vale acrescentar ainda que os diálogos da molecada incluem elementos de Star Wars e O Hobbit.

Outros clássicos oitentistas também são reverenciados, tais como “Contatos imediatos do terceiro grau”, “Enigma do outro mundo”, “Poltergeist” e “A morte do demônio”. As obras de Stephen King são uma enorme fonte de inspiração para a narrativa em questão. Algumas inclusive aparecem em cena, onde um personagem aparece lendo “Cujo”.
A excelente trilha sonora incluiu pérolas como “Should I Stay or Should I Go” – The Clash, “White Rabbit” e “She Has Funny Cars” , ambas do Jefferson Airplane, entre várias outras.
Os dois grandes nomes no elenco são Winona Rider e Mathew Modine, mas a criançada dá um show de interpretação, especialmente a atormentada garota chamada  Onze, que possui poucas falas e usa de linguagem não verbal a maior parte do tempo, o que é um desafio para qualquer ator, especialmente se levarmos em conta a idade da garota.
Mais do que uma mera celebração nostálgica, a série busca oferecer um entretenimento refinado usando de ferramentas já consagradas na sétima arte, repaginadas enquanto originais à sua maneira, subvertendo alguns clichês e preservando algumas fórmulas que deram certo.

Poesia milenar asiática em O clã das Adagas Voadoras

A cultura milenar asiática é riquíssima, tendo rendido belíssimas histórias contadas através das formas mais variadas como músicas, livros e filmes. Assim como ocorre com os gregos e mouros, suas narrativas sempre usam a tragédia como pano de fundo para ilustrar a natureza humana querendo transcender um código de regras previamente estabelecido. A seguinte projeção acompanha esta linha de pensamento.

Ambientada na China em 859, mostra a Dinastia Tang em sua fase decadente, onde a corrupção era uma constante e o povo sofria com os abusos de um governante fraco e incompetente. Neste contexto surge a organização secreta que leva o nome do título cujo objetivo é ajudar os mais desfavorecidos lesando os donos do poder. Seu líder foi assassinado, mas seu lugar foi tomado por um líder novo e misterioso.

A história tem início quando dois soldados têm um plano para descobrir o esconderijo do grupo rebelde e render o novo chefe, prendendo uma guerreira cega que trabalhava escondida em um bordel da região para depois simular sua fuga e deixar que ela conduzisse o caminho inadvertidamente, acompanhada por um deles que estaria disfarçado de andarilho.

A estratégia funciona, mas enquanto o casal segue sua jornada em direção à base da confraria, terminam se envolvendo romanticamente, arriscando desta forma os dois lados envolvidos na disputa.

O cineasta Zhang Yimou conduz a história de forma dinâmica e poética, revelando as pequenas reviravoltas que vão surgindo ao longo da trama. A beleza do enquadramento das imagens merece a devida atenção, especialmente nas seqüências de danças e lutas.

O conceito de cegueira é interessante se analisarmos o relacionamento amoroso na projeção, onde ninguém é realmente honesto com o próximo. É a essência da tragédia shakespeariana onde todos mentem e são testados.

A deficiência visual da protagonista define sua personalidade, realçando sua sensibilidade auditiva e permitindo que a subestimação dos outros seja sua ferramenta de dominação. Neste ponto faço uma menção especial para a bela atriz Zhang Ziyi, cuja performance mostra uma Xiao Mei dividida entre a fidelidade à sua organização e o crescente amor por aquele que a acompanha e está sempre salvando sua vida.

O enlace do casal é tratado de forma fluida e o estreitamento da relação vem das adversidades que enfrentam juntos e a sensação de segurança criada pela idéia de que tudo não passa de uma encenação termina surtindo o efeito contrário, tornando ambos vulneráveis.

A película em questão trata da imprevisibilidade do amor, mas cuida bastante de como o excesso de confiança pode vir a ser nossa maior fraqueza. O cinema oriental costuma tratar este tema com bastante carinho, tomando como exemplo várias obras-primas do cineasta japonês Akira Kurosawa, dentre elas “Trono Manchado de Sangue”, “Ran” e “Os sete samurais.”.

Um filme belíssimo que resgata toda a beleza ancestral da cultura chinesa, realçando traços estéticos e emocionais há muito soterrados pelo pós-modernismo funcional e pragmático. Que o folclore seja o espectro da identidade de seu país, a fim de que a beleza, embora referente a uma particularidade regional, possa ser projetada universalmente, tal como aconteceu com esta obra.

Terror e conspirações em Do Inferno

Jack, o Estripador foi um assassino de prostitutas na Inglaterra durante o final do século XIX. Sua identidade nunca foi descoberta, dando margem a inúmeras especulações e transformando o autor dos crimes em um personagem icônico, símbolo da decadência da época.

O cartunista britânico Alan Moore usou essa temática para criar a novela gráfica “Do Inferno”, pois segundo ele “a década de 1880, com sua pobreza miserável e promíscua incríveis e todas aquelas tendências em arte, ciência, política e pensamento, formou uma espécie de vórtice. Ao menos em minha interpretação da situação, em termos simbólicos, os assassinatos do Estripador, ocorrendo quando ocorreram e onde ocorreram, foram quase que um resumo apocalíptico daqueles tempos vitorianos. E prefiguraram muitos dos horrores do Século XX. Um apocalipse em miniatura a gerar os maiores que se avizinhavam”

A seguinte película é uma adaptação desta obra, cuja narrativa acompanha o inspetor Abberline e o sargento Peter Godley em sua investigação do assassinato de várias prostitutas em um bairro pobre de Londres.

O filme abre com uma citação do próprio assassino: “um dia olharão para trás e dirão que dei à luz o século XX”, o que marca o seu caráter emblemático.

À medida que a inquirição avança, a trajetória vai se tornando cada vez mais sombria e vários segredos a respeito da elite inglesa vão sendo desfiados.

É interessante comentar a crítica ao preconceito existente em todas as camadas sociais (especialmente a elite), que não tardam a culpar os índios,judeus,orientais e socialistas pela autoria dos crimes.

Dirigida pelos irmãos Albert e Allen Hughes, a projeção acompanha não somente a execução dos assassinatos, mas o conseqüente inquérito da polícia. Uma seqüência, através de uma progressão temporal, revela todo esse processo.

Além do serial killer, um outro personagem se revela igualmente fascinante. Viciado em ópio, absinto e láudano, Abberline entregou-se à autodestruição após sua esposa falecer durante o parto, levando também aquele que seria seu filho. Em seu estágio de transe causado pelas drogas, têm visões dos assassinatos, o que termina ajudando no estudo dos mesmos.

Nesse ponto destaco a excelente performance de Johnny Depp, interpretando um inspetor cuja índole suicida encontra uma chance de nova vida com a prostituta Mary Kelly, um dos alvos do serial killer.

Vale apontar também que ao longo da película vários personagens usam a carruagem do assassino, bem como cartolas e capas semelhantes, convidando o espectador a tentar descobrir o autor de crimes tão hediondos que nem os legistas suportavam.

Outro ponto alto é o cocheiro Netley, que é forçado a levar o mutilador. Interpretado por Jason Flemyng, sua expressão que mistura pavor, pena e desgosto marcam seu peso como cúmplice de tais atrocidades.

Intrigante, mórbido e com uma trama incrivelmente trabalhada, esta película ainda funciona como um estudo da formação de um mito e uma análise da obscuridade da natureza humana.

Ambição e intrigas em Game of Thrones

Segundo o pensador Nicolau Maquiavel “A ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela”. O desejo de alcançar o poder supremo sem considerar os efeitos colaterais dessa busca é um tema universal e atemporal que remonta desde os tempos mais antigos.
Traições, intrigas e alianças para conquistar uma posição superior já aconteceram em eras mais remotas e continuarão ocorrendo no futuro, pois é algo inerente ao ser humano, que nunca está satisfeito com o que tem.
A série da HBO, sucesso de crítica e público, é uma adaptação da série de livros do escritor George R.R. Martin intitulada “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Aparentemente serão sete livros, ele está escrevendo o sexto no momento. A saga, um épico de fantasia medieval ambientado nos continentes fictícios de Westeros e Essos, onde diferentes famílias em regiões distintas entre si disputam pelo trono de ferro na cidade de Porto Real, símbolo do poder máximo onde o senhor absoluto reina sobre todos os outros.
Enquanto isso, ao norte de Westeros existe uma muralha que foi construída para impedir que os selvagens e criaturas chamadas Andarilhos Brancos atravessem e ataquem o mundo “civilizado”. As ameaças cessaram por tanto tempo que o lugar tornou-se semi-abandonado e desacreditado. É então que começam a surgir sinais de que o perigo está gradativamente aumentando novamente.
A enorme quantidade de detalhes reforça a complexidade da história. Cada dinastia tem seus próprios princípios e motivações para cobiçar o título de rei ou rainha, excluindo qualquer tipo de maniqueísmo ou previsibilidade. Tudo pode acontecer e ninguém está salvo. Qualquer personagem está passível de falecer na próxima cena, acrescentando uma interessante dose de suspense. Nos livros, cada capítulo é escrito sobre o ponto de vista de um dos personagens, o que é inovador e muito interessante.
Vale acrescentar que o clima e o relevo atuam como personagens de extrema relevância dentro da trama, influenciando decisões e criando obstáculos. Os invernos não são anuais e quando chegam nunca é um bom sinal.
Os conflitos ideológicos entre as “casas” são fascinantes e refletem os diferentes modos de percepção da realidade. Os Stark tem um modo de vida mais bucólico e simples, com um forte senso de honra. Excelentes guerreiros que muitas vezes sofrem por tomar a decisão certa na hora errada.
Os Lannisters, por sua vez, são extremamente materialistas, arrogantes e acostumados a mentir e manipular para conseguirem o que querem. Seu histórico é de gerações abastadas que sempre foram muito refinadas, mas no momento estão em decadência e precisam fazer acordos para sobreviver.
Por fim temos os Targaryen, antigos governantes do trono de ferro que foram expulsos por Robert Baratheon e só restaram dois representantes, filhos do rei exilado que residem em Essos, do outro lado do mar estreito e que tiveram que se aliar aos Dothraki, uma tribo de bárbaros nômades, para formar um exército e tentar retomar o trono.
A série atualmente caminha para a sua sétima temporada, que encerrará a história em 2019. Poucas vezes o universo de fantasia foi tão intenso, humano e instável.