Um olhar debochado sobre a História em Asterix

A famosa série em quadrinhos criada na França por  Albert Uderzo e René Goscinny no ano de 1959 é baseada no povo gaulês e em grande parte no tempo do seu grande chefe, o guerreiro Vercingetorix. Após o falecimento de Goscinny em 1977, Uderzo prosseguiu o trabalho.

O protagonista das histórias mora junto com seu amigo Obelix em uma aldeia litorânea que é o único lugar que não foi invadido pelo Império Romano, graças a uma poção mágica do Druida Panoramix que os torna invencíveis. O único que adquiriu o poder permanente da mesma foi Obelix, que caiu num caldeirão da mesma quando era pequeno.

Em cada aventura a dupla ocasionalmente se encontra com outros povos que estão sob o domínio dos romanos e precisa ajudá-los a resolver um problema. Esse choque cultural é muito interessante e gera muitas situações engraçadas. De certa maneira acabamos aprendendo bastante sobre aqueles lugares e civilizações, já que os mesmos realmente existiram com seus respectivos idiomas e crenças.

O traço cartunesco denota a irreverência da narrativa, que apresenta personagens históricos verídicos como Júlio César, Cleópatra e outros interagindo com eles de maneira paródica. Alguns nomes são palavras formadas a partir de trocadilhos, sejam eles romanos (Acendealus, Apagalus, General Motus) ou egípicos (Pedibis, Quadradetenis). Em uma das histórias, um romano descobre segredos e ameaça revela-los. O seu nome? Wikilikis. Algumas piadas são recorrentes enquanto outras provêm de acontecimentos, invenções, frases ou ideias posteriores à época em que supostamente decorre a narrativa.

As primeiras publicações surgiram na revista Pilote, logo no primeiro número a 29 de outubro de 1959. O primeiro álbum Asterix o Gaulês foi editado em 1961, a partir do qual começaram a ser lançados anualmente.

As histórias de Asterix foram traduzidas até o momento para 83 línguas e 29 dialetos, incluindo o português, europeu/brasileiro e o mirandês sendo muito populares na Europa, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, América Latina, África e Ásia. Porém não são ainda tão conhecidas nos Estados Unidos e no Japão. Já foram lançados 35 álbuns que venderam 350 milhões de exemplares em todo o planeta, um dos quais é uma compilação de histórias curtas. Asterix também inspirou 12 adaptações para cinema (8 de animação e 4 live actions), jogos, brinquedos e um parque temático.

Albert Uderzo anunciou sua aposentadoria no fim de setembro de 2010 aos 84 anos, após atingir a marca histórica de 350 milhões de unidades vendidas em todo o planeta em diversas línguas.

Em 2013, dois anos após Albert Uderzo anunciar sua aposentadoria, foi lançado o primeiro álbum por outros artistas, Asterix entre os Pictos, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad.

Em outubro de 2015, a dupla publica um novo álbum, O Papiro de César e o volume 37, Asterix e a Transitálica, lançado em 19 de outubro de 2017. Um sinal de que as confusões desses gauleses estão longe de terminar.

A reflexão existencial de uma criança em Calvin & Haroldo

‘Calvin e Haroldo’ é uma tira diária criada pelo cartunista americano Bill Watterson, que foi publicada em periódicos entre os dias 18 de novembro de 1985 até 31 de dezembro de 1995. Narra as aventuras de um garoto bastante imaginativo e seu amigo tigre que conversa e brinca com ele, quando na verdade é um animal de pelúcia que ganha vida somente em sua imaginação. Esse tema aparentemente simples acabou se tornando uma das grandes obras no universo dos quadrinhos de todos os tempos

Se mantém atual justamente por tratar de temas extemporâneos, como o amor, a família, a amizade e também assuntos de interesse geral, como ambientalismo, educação pública, filosofia e opinião pública.

O nome de Calvin foi inspirado no reformador religioso do século XVI, João Calvino, um dos pais do cristianismo protestante, que discorreu, entre outros, acerca da depravação total do homem, ou seja, que o homem está naturalmente inclinado para promover o mal a seu próximo, enquanto Hobbes (o nome de Haroldo em inglês) o filósofo britânico do século XVII que tinha aquilo que Watterson chamou de “uma visão obscura da natureza humana”, sendo o autor da famosa máxima “O homem é o lobo do homem” — ou seja, cada homem é o predador de seu próximo. De acordo com Watterson, a fonte dos dois nomes é entendida como uma piada para as pessoas que estudam ciência política e filosofia, e que poucas outras pessoas a iriam perceber.

O olhar analítico e sincero de uma criança nos permite vislumbrar os vícios da maturidade que acabamos adquirindo ao longo dos anos. Suas ponderações nos levam a reavaliar nossos pontos de vista sob vários aspectos que talvez não tivéssemos percebidos antes. Uma visão crítica de nossa sociedade feita de forma bastante sutil e bem humorada.

A misantropia do autor é retratada no documentário Dear Mr. Watterson, que também ilustra a magnitude da sua criação dentro da cultura americana moderna. Seus impacto através de toda uma geração de leitores que cresceram acompanhando as aventuras de um garoto e seu companheiro imaginário, sendo transformadas pelas suas reflexões.

Ainda que obtenha recursos monetários de seus desenhos, Bill Watterson professa um sentimento anticapitalista e antimerchandising e proibiu expressamente sua editora de vender os direitos para lançar no mercado artigos baseados na HQ. No final, Watterson não permitiu o lançamento de qualquer merchandising, exceto alguns artigos únicos de edição limitada, como postais e pôsteres originais que se tornaram item de colecionador. Apesar dessa proibição, hoje em dia não é nada difícil encontrar T-shirts estampadas, porta-chaves ou autocolantes para carros pirateados, com imagens de Calvin a dizer e a fazer coisas que nunca disse nem fez nos quadrinhos.

Ele costumava autografar sorrateiramente cópias de seus na Fireside Bookshop, uma livraria familiar em Chagrin Falls, de onde se mudou em 2005 com sua esposa Melissa para Cleveland, mas, ao descobrir que algumas pessoas estavam vendendo os livros autografados por altos preços em leilões on-line, ele parou de fazê-lo. Por questões de privacidade, ele raramente dá entrevistas ou faz aparições públicas. O autor sabe que não precisa disso para garantir o legado de sua obra. Ele já é eterno em todos os corações que conquistou ao longo de todos esses anos.

 

 

 

 

O magnitude indescritível de Grande Sertão Veredas

Escrever um ensaio sobre a obra máxima de João Guimarães Rosa é um enorme desafio, tamanha é a sua complexidade. As mais de seiscentas páginas cercadas de neologismos e alegorias trazem uma leitura existencial do sertão mineiro, projetada em certo ponto de maneira universalizada. O protagonista Riobaldo, além de espelhar a essência do jagunço mineiro, projeta todas as paixões e incertezas concernentes ao espírito humano.
Programado inicialmente para ser uma novela pertencente ao livro “Corpo de Baile”, que também foi lançado no ano de 1956, a narrativa em questão acabou crescendo e tornando-se única em todos os sentidos. Aqui o autor faz uma série de experimentações linguísticas, criando um estilo completamente original e inconfundível. A inserção de inúmeras metáforas, saltos temporais e variados pontos de vista proporciona um painel amplamente vasto no sentido geográfico, emocional e psicológico de seus personagens.
Narrada em primeira pessoa a um interlocutor desconhecido, ela acompanha Riobaldo e um grupo de jagunços que segue enfrentando diferenciadas situações de risco que conduzem a diferentes leituras de comportamento dos integrantes do bando. Além dos perigos que estão em toda parte, ele entra em conflito com seus sentimentos em relação a um de seus companheiros, chamado de Diadorim.
A obra ganhou uma adaptação para o cinema em  1965 e televisão como minissérie em 85. Recentemente ganhou uma versão em quadrinhos roteirizada pelo artista plástico e cineasta Eloar Guazzelli, com desenhos de Rodrigo Rosa pela Globo Livros.
Uma história intrigante e tensa, intercalada por momentos de poesia e até mesmo humor, contada com maestria por um dos maiores gênios da Literatura Brasileira.A trajetória de um homem desconstruído pelo misticismo enigmático de um ambiente que o seduz e apavora em instantes duvidosos enquanto belos. Um retrato encantador e visceral da natureza humana miscigenada a uma conjuntura caótica e lírica.

Muito a dizer sobre nada em Seinfeld

Desde a sua primeira exibição, no dia 05 de julho de 1989, a série criada por Larry David e o comediante Jerry Seinfeld mostrou que veio para quebrar padrões e apresentar uma nova maneira de fazer humor. Ao afirmarem que ela era sobre nada, isso lhes deu liberdade para enfocar os mais diversos assuntos, sendo alguns deles bastante polêmicos.

Os episódios mostravam o cotidiano de quatro amigos trintões de Nova York que tinham preocupações normais, como arrumar um par amoroso, sobreviver aos respectivos empregos e manter um apartamento bacana. Algumas dessas histórias tinham desenlaces bem insólitos, especialmente quando envolviam Cosmo Kramer, o mais esquisito do quarteto.

Seinfeld rompeu com o universo comportado das sitcoms com finais felizes e abriu portas para o politicamente incorreto, servindo como precedente para séries como Friends, The Office, Modern Family, How I met your mother e Will & Grace, tratando abertamente de temas como sexo, masturbação, racismo, anticoncepcionais, adultério homossexualismo, AIDS, aborto e vários outros temas controversos. Em um dos episódios eles conseguiram inserir um “Papai Noel socialista”, distorcendo um dos maiores ícones do capitalismo.

Além das narrativas bastante originais, onde as aventuras do grupo quase sempre se entrelaçavam, vale acrescentar a inovação na montagem, que chegou a mostrar uma história acontecendo de trás para frente, outra focada na sala de espera de um restaurante chinês (quase teatral) e uma dentro do estacionamento de um shopping center.

Elaine Benes, a personagem interpretada pela talentosa Julia Louis Dreyfus, é a única garota do grupo. Inteligente e autônoma, ela tem romances efêmeros como seus amigos. Não é a típica mulher de sua época, que pensa em casar e ter filhos. Pode acontecer, mas não é algo que ela tenha como um objetivo a ser conquistado. Esse caráter forte e independente foi bastante revolucionário para o período, que tinha padrões bastante conservadores.

Apesar dos exageros, Seinfeld nos brinda com personagens bastante humanos. O resultado final é um espelho bizarro de nossa própria essência: agem quase sempre de acordo com os seus próprios interesses, de ética duvidosa e subservientes ao próprio narcisismo, sofrendo as consequências de suas escolhas e aprendendo muito pouco com elas. São essas imperfeições que nos aproximam deles, porque as reconhecemos e nos identificamos com elas. Essa genialidade durou nove temporadas, continua atual e deixando saudades.

O clichê irreverente do Western em Lucky Luke

A série em quadrinhos que é um misto de paródia e homenagem ao período do Velho Oeste americano, foi criada em 1946 pelo cartunista belga Morris (pseudônimo de Mauice de Bévère) em parceria com o célebre René Goscinny, famoso criador de Asterix.

O protagonista é o típico caubói solitário, mais rápido que a própria sombra que perambula em companhia de seu cavalo Jolly Jumper, sempre com um cigarro no canto da boca (foi substituído por uma palha em 1983, o que lhe valeu o reconhecimento da Organização Mundial de Saúde). Em suas andanças ele acaba encontrando muitos personagens, sendo alguns deles não fictícios como Jesse James, Calamity Jane e Billy The Kid, dentre outros.

Na galeria de vilões, certamente os Dalton ocupam o topo. Quatro irmãos gêmeos de tamanhos decrescentes, sendo o menor deles o mais engenhoso, ao contrário do maior que é o mais idiota e geralmente estraga tudo.

A personagem passou pelas mãos de vários autores e publicações e voltou a sobreviver quando, em 2001, Morris cedeu a uma embolia pulmonar. Daí em diante, e ainda hoje, é o artista francês Achdéquem continua a ilustrar as aventuras de Lucky Luke.

Como o seu universo é o das pequenas cidades em construção, tantas vezes abandonadas no deserto, o seu heroísmo passa mais por dar uma identidade corajosa às cidades, por ensiná-las a sobreviver, do que propriamente por salvá-las. Interessa-lhe reconciliar os rivais de Painful Gulch, ensinar uma vila a não temer a criançola Billy the Kid, unir os esforços do Western Circus e do rival vaqueiro endinheirado.

Lucky Luke é um observador da América que se constrói – da elevação dos derricks à instalação do telégrafo – e também uma espécie de agente invisível dessa América.

Já foram feitas adaptações para cinema e games, além de uma série animada. Uma visão bem-humorada que ao mesmo tempo reverencia uma parte importante do processo civilizatório americano.

Sobrenatural vs real em A lenda do Cavaleiro sem Cabeça

O cineasta Tim Burton é fã confesso do genial escritor Edgar Allan Poe, que usou o sobrenatural como espelho da crua natureza humana, trazendo à tona todas as nossas imperfeições e segredos. A película a seguir revela inúmeros traços desta influência.

Inspirada no conto de Washington Irving, a narrativa gira em torno de Ichabod Crane, um inspetor de polícia na Nova York de 1799, desacreditado por seus colegas de serviço por sua insistência em fazer uma investigação científica dos crimes ao invés de fundamentar as acusações em depoimentos de terceiros.

Cansado das constantes intervenções do mesmo durante os julgamentos, o juiz o envia à comunidade agrária isolada de Sleepy Hollow, onde várias pessoas estão sendo decapitadas sem nenhuma razão aparente.

Apesar das advertências dos moradores de que o assassino é um cavaleiro sem cabeça que veio do mundo dos mortos para saciar sua sede de sangue, o investigador está decidido de que a racionalidade está envolvida de alguma forma nesta equação.

Na medida em que a história se desenvolve, o protagonista tem suas convicções colocadas à prova, bem como sua trágica infância revisitada.

A montagem do diretor cria um ambiente sombrio, devastado, espectro da atmosfera de intrigas que envolvem os habitantes do vilarejo.

O constante conflito entre religião e paganismo foi um tema inteligentemente abordado e que cria um contexto propício para o desenrolar da história.

O racional se choca com o espiritual a ponto de se fundir com ele, criando uma situação onde não é possível determinar onde um começa e o outro termina.

A trama é tecida com engenhosidade e a notória elegância do cineasta ao lidar com o macabro e o sombrio é comprovada nos belíssimos planos em contra-luz e enquadramentos, com destaque para a seqüência dos créditos iniciais, onde acompanhamos a carruagem levando Ichabod à cidade assombrada.

Os menores detalhes revelam pistas importantes para que o mistério seja desvendado.

O cuidado no desenvolvimento dos personagens é um traço interessante que merece a devida atenção, especialmente no que se refere aos trejeitos do protagonista, interpretado com excelência por Johnny Depp. Apesar de seguro quanto às suas afirmações é curioso ver o mesmo tendo asco ao lidar com cadáveres. Seus constantes desmaios contribuem para lhe conferir um carisma ímpar, pois suas inseguranças não o ridicularizam, mas o tornam mais humano.

O restante do elenco está igualmente inspirado, especialmente os veteranos Miranda Richardson e Michael Gambon. Até mesmo as pequenas aparições de Martin Landau e Christopher Lee contribuem para tornar memoráveis suas seqüências.

Um intrigante suspense cuja revelação nos momentos finais pode surpreender até mesmo aqueles que tinham como certa a resolução da trama, mantendo o espectador atento até o último minuto. São poucas as projeções que alcançam tal proeza.

O humor escrachado e surreal de Mortadelo & Salaminho

A série de histórias em quadrinhos espanhola, criada em 1958 pelo quadrinhista Francisco Ibañez para a revista Pulgarcito acompanha as desventuras dos agentes da T.I.A(Técnicos de Investigações Avançadas), uma clara paródia da CIA. A dupla se mete nas piores enrascadas graças ao azar de Salaminho e o talento inútil de Mortadelo como mestre dos disfarces.  Com eles trabalham o exigente Superintendente da T.I.A. (Vicente, mais conhecido por Super), sempre mal-humorado, o Professor Bactério com os seus inventos mirabolantes que tendem a catástrofes quando caem nas mãos erradas, e Ofélia, a secretária cujo principal passatempo é estar no lugar errado na hora errada.

O estilo cartunesco dos traços combina com as piadas que exploram o exagero das situações.As entradas secretas podem ser dentro de cartazes no muro ou dentro de placas de trânsito. São choques,explosões, um tentando arremessar uma televisão no outro, tabefes com dentes voando, enfim, humor pastelão da melhor qualidade. Isso sem contar os diálogos inspiradíssimos, que são a cereja do bolo. Tudo converge para a imersão nesse universo insólito que faz comentários ácidos a vários eventos do mundo real, como terrorismo e o intervencionismo americano.

Os protagonistas tem as suas falhas, ocasionalmente atuando em interesse próprio quando não estão no caso por livre e espontânea pressão de seu chefe. Eles falham em muitos sentidos, o que acaba por nos aproximar deles nesse sentido. São imperfeitos, mas bem intencionados. Sentem medo, raiva, apanham (bastante), se traem. se enganam, mas no final estão sempre juntos, para o melhor ou pior.

As aventuras da dupla já foram traduzidas em várias línguas e para várias mídias, como cinema, games e televisão. A última adaptação foi para o cinema,no longa de animação em 3D intitulado Mortadelo e Salaminho:Missão Inacreditável, disponível na Netflix.

A ganância em Viagem sem Volta

A ganância é um tema que vem sido usado há bastante tempo pela sétima arte, em função de sua universalidade, pois este sentimento altamente corrosivo afeta a toda a raça humana. O mero contato com a oportunidade de poder resolver todas as dificuldades, alcançando um status de superioridade sobre os demais transforma até mesmo aqueles de juízo mais sensato.

O poder de um bem precioso invariavelmente cega quem o possui, corrompendo sua alma e dissipando a razão do seu comportamento. Todo o resto torna-se mero obstáculo para a sua posse e dividir não é uma opção. Literalmente vale tudo.

A narrativa desta projeção tem início com um misterioso passageiro que repentinamente surge correndo na estação e sobe à bordo de um trem na véspera do Natal. É transferido para o último vagão por não possuir a passagem, onde conhece um vendedor de seguros e uma estudante de medicina.

Sem dizer uma palavra, o enigmático indivíduo ingere um monte de comprimidos com alguns goles de vodka e morre. Quando o condutor do veículo vai noticiar o falecimento deste, é impedido pelas duas pessoas que viajavam com ele, informando a descoberta de uma caixa de madeira contendo um item valiosíssimo.

Tendo em vista que o cadáver anônimo não estava propriamente registrado, o trio, após muito debater, resolve se livrar do corpo e fingir que ele nunca embarcou, repartindo seu valioso pertence. Tem início uma série de eventos que segue o ritmo de uma montanha-russa e que trará consequências fatais para todos a bordo.

A perspectiva de tal conduta vai sendo gradativamente distorcida por cada um dos três envolvidos, especialmente a garota que vai lentamente se revelando como alguém fria e obsessiva.

A montagem do diretor Brian King cria uma atmosfera instável que vai sendo alterada em função dos empecilhos que ocasionalmente surgem. A história é intrigante e o suspense vai intensificando à medida que as complicações vão emergindo.

O confinamento, a neve e a noite são elementos que contribuem para acentuar o distúrbio psicológico dos personagens envolvidos na trama. O período natalino é inserido para reforçar o contraste entre o caráter das ações e a essência deste feriado.

O personagem mais interessante é o condutor Miles que sempre opta pela atitude mais correta, mas termina envolvido no plano para desaparecer com o corpo porque precisa de dinheiro para ajudar a esposa que está no hospital. Seu conflito interno é ricamente trabalhado com o auxílio da excelente performance de Danny Glover.

O elenco traz também as excelentes atuações de Leelee Sobieski e Steve Zahn, entre outros nesta película sobre a distorção de valores gerada pela cobiça que traça uma linha tênue entre a sanidade e a loucura, ofuscando qualquer tipo de discernimento.

A ambição impulsionando a conduta leviana e modificando qualquer noção de humanismo ou civilidade. A caixa mostra o que os olhos querem ver estabelecendo um diálogo subjetivo com todos aqueles que a observam. A humanidade caminhando para o isolamento e auto-destruição.

Uma interessante visão da potencialidade nociva que habita o inconsciente, disparada pelo desejo irrefreável de riqueza e poder. A cegueira do brilho que leva ao abismo.

Terror e dilema em A caixa

Os filmes de suspense mais impressionantes são aqueles que constroem suas tramas em torno da tão ambígua e contraditória natureza humana, pois ela aproxima e envolve o espectador, transferindo ao mesmo certa cumplicidade dos eventos apresentados.

As histórias mais geniais deste gênero tiveram inicio nos livros de Edgar Allan Poe, que inseria elementos sobrenaturais como espelho da personalidade dos seus protagonistas, transformando-os em arquitetos de seu próprio destino.

Inspirada em um episódio da série Além da Imaginação, a narrativa gira em torno de uma família que recebe certo dia uma caixa de madeira acompanhada da seguinte proposta: se apertarem o botão que está localizado no topo e protegido por uma redoma de vidro, receberão uma maleta contendo um milhão de dólares, entretanto uma pessoa que eles não conhecem morrerá. Eles têm exatamente 24 horas para tomar uma decisão, caso contrário o instrumento será reprogramado e entregue a possíveis interessados.

A oferta é feita por um misterioso homem com metade do rosto desfigurada por uma queimadura, mas bastante gentil e educado, o que acrescenta certa aura de misticismo em torno deste curioso personagem. O resultado desse teste de caráter trará conseqüências irreversíveis para todos os envolvidos.

A montagem do cineasta Richard Kelly constrói com eficiência o clima de tensão que é latente durante todo o filme. A ambientação da história na década de 70 (percebida inclusive na textura da fotografia) e a inserção de uma ameaça sugerida aproximam este exemplar de grandes clássicos como “O iluminado” e “O bebê de Rosemary”. Alguns enquadramentos de câmera chegam a trazer uma ligeira semelhança.

O apuro técnico reforça a complexidade inserida no roteiro desta película que discursa sobre um dilema moral bastante comum em nossa sociedade. O sacrifício humano contribuindo para a fortuna alheia e ligando todos a um futuro imprevisível e caótico.

Vale apontar a disparidade de posicionamentos diante da situação representada pelos dois cônjuges. O marido cético contra a esposa crédula que sente uma curiosa ligação com o estranho enigmático, pois o seu pé deformado em função de um acidente envolvendo um aparelho de raio-x permite que ela se solidarize com sua face parcialmente destruída.

Uma intrigante projeção sobre o peso de uma escolha que irá interferir diretamente na vida de outros. A promessa de enriquecimento trazendo consigo o peso da responsabilidade sobre o destino de terceiros, sejam eles conhecidos ou não. Cada contrato envolve pequenos grandes detalhes que podem implicar em fatalidades incorrigíveis.

O elenco apresenta as ótimas performances de Cameron Diaz, James Marsden e Frank Langella num filme que trata das repercussões de um acontecimento que mudará radicalmente o futuro de um casal, permitindo um interessante questionamento sobre o conceito de felicidade e paz interior.

Uma curiosa trama onde qualquer movimento em desarmonia com o experimento instaurado pode gerar riscos fatais e inevitáveis. Um sinal claro de como somos nocivos e frágeis ao mesmo tempo.

Drogas e Jornalismo Gonzo em Medo & Delírio

O cineasta Terry Gilliam é famoso por explorar a linha tênue entre fantasia e realidade, o que explica o seu interesse pela obra do jornalista Hunter S. Thompson, o criador do jornalismo gonzo, caracterizado por seu estilo mais autoral e espontâneo, terminando com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção.O narrador abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura profundamente com a ação. Escreveu diversos artigos onde pregou a contracultura e criticou a estrutura reacionária de pensamento da extrema direita norte-americana.

Baseado na obra homônima do mesmo, “Medo e Delírio” acompanha o escritor e seu advogado numa viagem a Las Vegas em 1971 para fazer a cobertura de um rally de motocross patrocinado por um dos hotéis locais. Usando pseudônimos (Raoul Duke e Dr. Gonzo, respectivamente) e embriagados por todos os tipos de entorpecentes conhecidos pelo homem eles viajam em busca do “Sonho Americano”, impulsionado pela ideologia de Timothy Leary, que pregava o uso de drogas para a expansão da consciência.

O filme retrata o efeito massacrante do governo americano na década de 70, que varreu qualquer traço de desconstrução e anarquia tão comuns na década anterior. Em certo momento o protagonista afirma, olhando para a janela “Nós realmente tínhamos a sensação universal de que fazíamos a coisa certa. Estávamos no pique da onda. Hoje, com o tipo certo de olhar, podemos perceber onde foi que a onda rebentou… e recuou”.

A dupla busca permanecer sempre entorpecida, pois não se encontram em sintonia com a realidade vigente. São como fantasmas de uma geração que enxergava o mundo através de uma outra perspectiva. O uso de uma pequena bandeira americana para cheirar éter ilustra bem esse contraste.

A cidade de Las Vegas termina por transformar-se em um personagem na história, ícone da angústia e do desespero por alguma forma de recompensa ao final da jornada, mesmo que isso custe o definhamento do próprio espírito.

O cineasta usa a película para criticar não apenas a ideologia do poder, representada pela convenção de promotores, mas também os entusiastas da “onda do ácido” que não entenderam o conceito e tornaram-se catatônicos e escravos do vício ao invés de usarem o narcótico para evoluir mentalmente.

A narrativa por vezes desconexa e a câmera cambaleante funcionam perfeitamente para criar a ambientação, aproximando o espectador da mente confusa do protagonista. Os flashbacks surgem como lampejos de memória tentando construir a trajetória de alguém que viu sua utopia social desmoronar, tanto que Hunter Thompson se suicidou com um tiro de espingarda na cabeça em 20 de fevereiro de 2005. Ele deixou um bilhete em que se mostrava deprimido e sofrendo de terríveis dores após uma cirurgia na região da bacia.

A fotografia e a trilha sonora pontuam de forma perfeita, ao lado das interpretações impagáveis de Johnny Depp e Benício Del Toro como a dupla que busca as drogas para encontrar algum tipo de explicação para a opressão moralizante que tinha tomado conta do país naquela época.

Interessante comentar que apesar de todo o contexto trágico apresentado, o cineasta montou um filme leve, onde o contraste e o humor emergem de forma natural nas situações apresentadas. O triste é notar que a grande maioria enxerga essa projeção como um filme de comédia, quando há bem mais a ser percebido. A sutileza pode causar esse efeito.