Hollywood no divã em O Psicólogo

O cinema comercial americano já foi analisado sob as mais variadas perspectivas. Sua superficialidade está exposta em filmes como “O Jogador”,”Barton Fink” e “What Just Happened?” mas o efeito psicológico de sua atmosfera naqueles diretamente envolvidos ainda não tinha sido devidamente trabalhado.

A indústria que move em função do audiovisual supérfluo e efêmero ocasionalmente pressiona e desgasta especialmente aqueles que estão cansados de viver em função de bilheteria e procuram produzir algo mais original, humano e inspirador.

A projeção gira em torno do psicólogo Henry Carter, que enfrenta uma séria crise depressiva após o suicídio de sua esposa. Sua clientela é composta por celebridades e seu livro mais recente, “Felicidade agora”, é um sucesso de vendas, mas tudo o que ele sente é vontade de se desligar de tudo, usando álcool e maconha como válvulas de escape.

A montagem do cineasta Jonas Pate ilustra um painel que mostra como algumas pessoas envolvidas na produção de filmes artificiais terminam emocionalmente corroídas por esse vazio, muitas vezes sem saber.

Atores em crise existencial, um aspirante a roteirista que sente uma enorme dificuldade em desenvolver uma história, um músico narcisista acompanhado de sua negligenciada esposa e um agente obsessivo-compulsivo funcionam como metáforas de um ambiente oco e carente de sentido.

O cotidiano do protagonista é alterado quando, a pedido de seu pai, ele começa a atender uma jovem estudante que está passando por um momento difícil depois que sua mãe se matou. Embora não se sinta capacitado para ajudá-la, tenta encontrar uma maneira de amenizar o seu sofrimento, esperando talvez achar um conforto para a sua própria dor.

A narrativa projeta uma realidade onde os indivíduos sentem a necessidade de realizar algo verdadeiramente construtivo que irá saciar suas necessidades emocionais. A cidade de Los Angeles, nesse sentido atua como personagem, local onde tudo gira em função das aparências.Espelho do distanciamento e impessoalidade tão comuns no atual contexto em que estamos inseridos.

O diretor insere ainda um interessante comentário sobre a excessiva categorização dos sentimentos. A sociedade espera uma reação específica dos indivíduos diante de uma situação e estranha quando ela não acontece. Mesmo o sofrimento precisa ser “reconhecível” a todos que o presenciam.

O elenco traz as excelentes performances de Kevin Spacey, Keke Palmer, Saffron Burrows e Robin Williams, entre outros nessa história sobre não se deixar consumir pela tristeza e seguir adiante, mesmo que isso pareça quase impossível.

O espírito humano necessita de tempo para se reorganizar. Sua reestruturação precisa de coragem e força interior, inspirada muitas vezes por aqueles que nos cercam. Aceitar a própria ruína é acelerar sua autodestruição, trazendo angústia a todos que se importam com o seu bem-estar. O primeiro passo para sair do labirinto é acreditar que você pode fazê-lo.

Morrendo de Amor, em Prosa Delirante

Prosa Delirante de Vicente Portella

“Onde aprender a odiar para não morrer de amor?”, indagou, certa feita, Clarice Lispector, demonstrando seu receio às “dores do coração”. Mas o medo de morrer de amor não é uma preocupação comum a todo literato. O francês Victor Hugo, por exemplo, declarou que “vós, que sofreis porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele”. E, quase o mesmo, validou nosso conterrâneo Mario Quintana, quando afirmou que “tão bom é morrer de amor e continuar vivendo”.

Quando o assunto é mergulhar de cabeça em um grande amor as opiniões são as mais diversas. Mas, é fato que todos carregamos lembranças, sejam de amores consumados, sejam de paixões não correspondidas ou platônicas. Pois, segundo o filósofo Aristóteles, o homem é um animal social, portanto, dado a sentimentos profundos.

No livro Prosa Delirante, de Vicente Portella, Chiado Editora, Eduardo, um sexagenário excêntrico, delira, agoniza e morre em plena praça pública. Não, isso não se trata de um spoiler, o mesmo encontra-se escrito na primeira orelha do livro. Pois, o ponto máximo desta obra não está na morte do protagonista, mas, sim, em sua existência, que foi intensa em todos os sentidos, se entregando às mais tórridas experiências, experimentando amores que iam do terno ao avassalador, tudo em busca da validação de sua existência, de algo que não o deixasse se transformar na multidão de almas mortas, como lhe pareciam os demais.

A obra, escrita em prosa poética, é narrada em primeira pessoa, ao estilo flashback. Através de períodos breves e cadenciados, o autor brinca com a formalidade da língua, expondo uma beleza de texto que seduz lentamente o leitor.

“Não sei se Amanda era Amanda. Nem me lembro do nome dela, na verdade. Mas aquele rosto, aquela boca, aquela ruga delicada na fronte escancarando a beleza dos olhos, aquela rua da Tijuca. Com certeza era Amanda. E se não era, era a lembrança dela. A miragem.”

E, enquanto as lembranças desfilam na mente delirante do velho Eduardo, sua história decorre pari passu à história do Brasil, tendo como plano de fundo, as profundas mudanças políticas e sociais que vivenciou, como o mandato de Getúlio Vargas, o regime militar, entre outros acontecimentos históricos.

Sobre suas paixões pregressas, o sexagenário experimenta, nos últimos minutos que lhe restam, cada momento, doce ou amargo. Deixando-nos a sensação de que, independente de sofrer ou não por amor, o mais importante, de fato, é amar.

O livro pode ser adquirido através do site da editora Chiado:
https://www.chiadobooks.com/livraria/prosa-delirante

As importantes opiniões e questionamentos de Mafalda

Mafalda nasceu das mãos de seu criador, Joaquín Salvador Lavado – o Quino –, com um objetivo específico: ilustrar a publicidade de uma marca de eletrodomésticos que acabou não sendo veiculada. O cenário para as histórias de Quino são os bairros Montserrat – lugar que ganhou uma praça para homenagear Mafalda – e San Telmo, na capital argentina, Buenos Aires. O nome foi inspirado no bebê do filme Dar La Cara, de 1962, o qual foi baseado em romance homônimo de David Viñas. 

Essa menina, que encantou e até hoje encanta a todos por sua sagacidade e irreverência já foi traduzida para mais de trinta idiomas. Em 1969, seu criador, Quino e sua criação ganharam notoriedade internacional com a publicação na Europa de Mafalda, a Rebelde, a primeira edição italiana de Mafalda, com prefácio de ninguém menos que Umberto Eco. Nele, o escritor, filósofo, linguista e tradutor italiano definiu a personagem como “uma heroína zangada, que não aceita o mundo como ele é, que reivindica seu direito de continuar a ser uma menina e se recusa a assumir um universo corrompido pelos pais”; afirmou ser importante ler as tiras de Mafalda para entender a Argentina, mas ressaltou o caráter universal das inquietudes manifestadas por ela e seus amigos. 

Mafalda, com humor, critica a postura de seus pais perante a sociedade, preocupa-se com a humanidade, questiona os problemas políticos, de sexo, e até científicos que atingem sua alma infantil, ao mesmo tempo em que reflete os conflitos e angústias que as pessoas de seu tempo enfrentam, sobretudo com a progressiva mudança de costumes e a já incipiente introdução da tecnologia no cotidiano. 

Quino valeu-se, primeiramente, de uma criança de uma típica família de classe média para expor suas ideias sobre a realidade de seu tempo. O pai, funcionário de uma companhia de seguros, adora cultivar plantas em seu apartamento e sempre entra em crise quando reflete sobre sua idade. A mãe, típica dona de casa, não completou os estudos e, por isso, é vista como “medíocre” por Mafalda. 

Graças à menina com um laço de fita vermelho no cabelo, Quino foi alçado ao posto de um dos maiores humoristas gráficos do país. Mas o que faz de Mafalda uma personagem tão carismática e diferente no mundo dos quadrinhos? A menina, apesar de ter apenas seis anos, é absolutamente precoce e serviu como porta-voz de seu criador em tempos de uma implacável Ditadura Militar na Argentina. Ela tinha preocupações pouco comuns para as crianças de sua idade, enxergando a vida sob uma perspectiva peculiar ao abordar questões pertinentes através de uma linguagem ácida e extremamente irônica. 

Quino parou de produzir e publicar as tirinhas de Mafalda em 1973. Depois disso, o cartunista ainda usou a protagonista das histórias que lhe deram fama mundial algumas poucas vezes para promover campanhas em prol dos direitos humanos, a mais notória delas a Convenção dos Direitos Humanos da Criança de 1976, da Unicef. 

Mafalda ganhou corações e mentes em todo planeta. Seu alcance é comparável apenas ao de Charlie Brown e Snoopy, da série Minduim [Peanuts] do cartunista norte-americano Charles Schulz, nos anos 1950. A diferença reside em que Mafalda, uma típica argentininha, traz em seu bojo as características do humor latinoamericano, que ri de si mesmo e ridiculariza os que querem determinar todas as regras de vida, sem maiores questionamentos. Esse humor refinado, abraçado por milhares de crianças, jovens e adultos de todo o mundo, com toda certeza, ainda continuará a entreter muitas das próximas gerações. 

O gênero Pulp em Blake & Mortimer

A série em quadrinhos criada pelo belga Edgar P. Jacobs apareceu pela primeira vez no número um na revista Tintim, em 1946. Ela narra as aventuras do Professor Philip Mortimer, um prestigiado físico escocês, amante de Arqueologia e “detetive amador” ao lado do Capitão Francis Blake, da Royal Air Force, que encontra se ligado aos serviços secretos britânicos, nomeadamente o MI5.

Um no após a Segunda Guerra, o primeiro episódio, O Segredo do Espadãonarra a tentativa de domínio do Mundo por parte de um tirano oriental e as estratégias para combater o seu poder autocrático, com a resistência a estar dependente de um projeto ultra secreto do Professor Mortimer, o Espadão. Esta história marca também a estreia de Olrik, o malvado tenente ocidental que se encontra ao serviço dos asiáticos.história foi reunida em dois álbuns, editados pela Lombard em 1950 e 1953 e, posteriormente, foi apresentada em três volumes.O volume seguinte foi O Mistério da Grande Pirâmide, que apresenta uma das grandes paixões de Jacobs: a egiptologia.

Um fragmento até então indecifrável permite descobrir um dos maiores achados arqueológicos de sempre, fazendo com que os caminhos de Blake, Mortimer e Olrik voltem a se cruzar. Para além do enredo “policial”, a história é fortemente marcada pelo fantástico.

Marca Amarela constitui uma das mais apreciadas histórias da sérieUma misteriosa personagem aterroriza Londres, a orgulhosa capital do Império Britânico, perpetrando o seu mais audacioso golpe com o roubo da Coroa Imperial da histórica Torre de Londres, para além de uma série de inexplicáveis raptos.

O grande charme das histórias protagonizadas pela dupla envolvem a fusão de grandes mistérios arqueológicos como a cidade perdida de Atlântida e grandes inovações tecnológicas da época como bombas atômicas, mísseis e foguetes em fase de teste, numa clara referência ao gênero pulp, um gênero literário popular dos Estados Unidos que teve seu ápice nos anos 20 e 30. As histórias de fantasia, ação e ficção científica publicadas em Revistas Pulp (Periódicos de papel barato) tornaram-se a referência e influência para o cinema e uma nova forma de arte que estava surgindo: os quadrinhos.

Em 1997 a produtora lançou uma série animada, adaptando algumas das melhores histórias da dupla. Intrigantes e criativas, elas continuam fazendo sucesso até os dias atuais.

As fascinantes aventuras do anti-herói romântico Corto Maltese

A obra máxima de Hugo Pratt é uma graphic novel que mostra toda liberdade de imaginação de um marinheiro que despreza a riqueza para navegar e descobrir os lugares mais fascinantes do mundo. As aventuras de Corto se passam a partir de 1900, em muitos lugares do mundo, onde ele encontra com muitos personagens históricos como o escritor Jack London e o piloto alemão Barão Vermelho.

Em sua aventura de estreia, que o ilustrador italiano lançou em julho de 1967, o oficial da Marinha Mercante britânica, nascido em Malta e com residência em Hong Kong, filho de mãe cigana e pai inglês que se recusa a criar raízes em lugares ou em ideologias, já conhecia este outro Rasputin — seu companheiro de várias viagens na aclamada série gráfica, um homem de olhar cavado e longa barba negra mais dado a interesses e loucuras do que o marinheiro errante de brinco na orelha.

O marinheiro faz muitas viagens e em 1909, quando parte da Tunísia, ele viaja pra região da América do Sul em direção a Argentina. Aproveita e dá uma passada no Brasil. Com direito a roteiro em Itapoá, no Sul e é claro uma visita a Bahia, onde se passa a história de “Sob o signo de Capricórnio”.

Depois disso ele volta para Ásia, onde vive tramas intensas trabalhando para um personagem misterioso chamado de ‘Monge’ e torna-se pirata. Durante este trabalho, Corto começa a levantar suspeitas sobre seu chefe e uma fuga do navio faz com que suas teorias se confirmem. Esta aventura é retratada em “A balada do mar salgado”.

Há quem diga que as palavras que abrem A Balada do Mar Salgado— “Sou o Oceano Pacífico e sou o maior de todos” — estão para os quadrinhos como “Chamem-me Ismael”, a primeira linha de Moby Dick, de Herman Melville, está para a literatura. Quando Pratt lançou a série , o protagonista ia ser o mar. Mas a complexidade literária e política que brotou do marinheiro acabaria por levar a melhor — o Pacífico foi relegado para segundo plano e Corto ganhou vida longa entre nós, levando-nos aos confins do mundo e da mente humana. Já dizia Umberto Eco: “Quando quero relaxar leio ensaios de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese.”

Em 2016 foi feita uma excelente adaptação animada de uma de suas HQs intitulada “O pátio secreto dos Arcanos”. Além do filme, a produtora Ellipse produziu uma série de dez episódios adaptando outros episódios do herói.

Esta vida aventurosa de Corto Maltese confunde-se com a do próprio autor, que também errou entre a Europa, a África e as Américas. As influências de Pratt são grandes autores da literatura mundial, como Joseph Conrad, Robert-Louis Stevenson, Hermann Hesse, Ernest Hemingway Jack London, Rudyard Kipling e André Malraux. As sutilezas narrativas, a personalidade das múltiplas personagens que aparecem, nomeadamente Pandora e Rasputine, o inovador aspecto gráfico, a gestão dos silêncios e os diferentes planos são os principais elementos que tornam a sua obra inconfundível.

Questionáveis métodos de saúde em O fantástico mundo de Dr Kellog

Diariamente somos bombardeados com informações a respeito de cuidados alimentares e hábitos necessários para preservar a saúde do organismo, pois precisamos tomar cuidado com o que está sendo ingerido e que efeitos ele causará em nosso corpo.

Se na atual conjuntura vivemos imersos nessa avalanche de dados que deixa muitas pessoas neuróticas a respeito, as reações e teorias mais adversas surgiram em função dos resultados encontrados quando os primeiros estudos na área nutricional começaram a ser feitos, no final do século XIX.

Neste período se destaca a doutrina de John Harvey Kellogg, um médico que gerenciava um centro clínico de recuperação física, onde o foco era a cura holística do indivíduo, corrigindo seus hábitos alimentares e comportamentais, restringindo sua libido à base de uma dieta vegetariana, pois ele acreditava que o “segredo para uma vida longa e saudável é um intestino imaculado e abstenção de qualquer estímulo sexual”. O doutor em questão ficou famoso pela invenção dos flocos de milho com seu irmão, comida presente em praticamente todo café da manhã americano.

A seguinte película faz uma divertida análise crítica deste período, acompanhando o casal Will e Eleanor Lightbody que chega ao citado centro médico para uma desintoxicação do rapaz, cujos remédios à base de álcool e ópio corroeram seu sistema digestivo de tal forma que ele não consegue comer nada além de torradas secas.

Neste ponto o filme aponta as perigosas misturas presentes na época que incluíam ainda láudano e até mesmo cocaína.

O cineasta Alan Parker apresenta ao espectador os estranhos instrumentos mecânicos da época que prometiam longevidade, mas apresentavam um alto nível de periculosidade, sendo alguns letais inclusive, especialmente os que funcionavam à base de eletricidade, que ainda não era devidamente manipulada.

O diretor também apresenta um interessante painel sociológico, onde as classes mais abastadas viviam em meio ao frenesi criado em cima de promessas para viver uma vida longa e saudável.

Os coros em uníssono dão a idéia de um ambiente onde foi feita uma lavagem cerebral nas pessoas e qualquer tipo de questionamento referente ao método usado é prontamente abafado pelos próprios pacientes. A ideologia do doutor termina sendo o placebo de muitos.

A projeção mostra também duas histórias paralelas, sendo uma relacionada ao difícil relacionamento entre Dr. Kellog e seu filho adotivo George, cuja necessidade de atenção gera sempre uma atmosfera de conflito entre os dois e outra mostrando a trajetória de Charles Ossining, um homem que tinha a esperança de lucrar na indústria de cereais nutritivos, mas termina enganado por seu sócio, sendo forçado a buscar meios ilícitos para vencer neste mercado.

Vale ainda comentar a presença dos médicos alemães que usavam a ignorância das mulheres ricas da época para satisfazer suas próprias perversões, lucrando com a frustração sexual das mesmas.

O elenco apresenta performances impecáveis, a começar pelo genial Anthony Hopkins, um médico que realmente acredita ter encontrado a chave para uma vida melhor e duradoura e que fica triste com a teimosia e ódio de George. Matthew Broderick é outro ponto alto do filme, pois seu ponto de vista é o do espectador dentro daquele estranho local e suas reações são a de qualquer pessoa normal dentro daquelas circunstâncias.

Um olhar bem humorado sobre a natureza humana, sempre disposta a tentar de tudo para prolongar sua existência no planeta, mesmo que isso custe suas próprias vidas.

A ética distorcida em Cela 211

A penitenciária é um ambiente frequentemente utilizado pela indústria audiovisual, por se tratar de um local com o seu próprio conjunto de regras e valores.O psicológico de qualquer um que permanece inserido em tal contexto termina sendo seriamente afetado, em função deste contato direto com o lado mais visceral da natureza humana.

O confinamento infere uma reflexão sobre a eficiência de tal prática e  como ela traduz a falta de respeito que é conferida aos infratores detidos, minando qualquer esperança de regeneração dos mesmos.

A narrativa mostra a jornada de Juan Oliver, um agente carcerário recém-contratado de um presídio que sofre um acidente no seu primeiro dia, enquanto fazia uma ronda para conhecer as instalações.

Inconsciente, ele é levado às pressas para a cela 211, que estava vazia, onde ficaria aguardando a chegada do médico. Quando ele acorda,percebe que está em meio a um motim de prisioneiros e decide se passar por um deles,como alternativa de sobrevivência.

A montagem do cineasta Daniel Monzón registra com elegância que não existem inocentes em nenhum dos lados envolvidos no conflito, que aumenta de proporção quando os rebeldes encarcerados decidem usar terroristas separatistas do ETA como reféns, envolvendo desta forma o governo basco nas negociações.

A película apresenta as diferentes angulações do acontecimento através das distintas motivações de cada personagem. O único fator constante é a imprevisibilidade, pois todos se posicionam tendo em vista os seus próprios interesses.

A conduta padrão já foi há tempos descartada e no final só prevalecem às verdadeiras necessidades.

Vale apontar a gradativa mudança de atitude do protagonista ao longo da trama. Assustado a princípio, ele vai tomando conhecimento da perspectiva dos encarcerados e fazendo amizade com seu líder através de jogadas estratégicas. Essa nova parceria incomoda especialmente os antigos companheiros do carismático e violento chefe.

A crescente tensão entre os personagens revela como eles reagem às constantes mudanças de cenário. Cada agravamento demanda uma atitude diferente, que pode colocar em risco a vida de todos os internos.

O filme também ilustra como o tráfego de informações altera o painel apresentado. Elas seguem um interessante protocolo de conveniência que podem nem sempre trazer os resultados esperados.

Os flashbacks que introduzem cenas de amor entre Juan e sua esposa grávida servem para denotar como a sua personalidade foi distorcida durante a sua estadia naquele contexto.

Uma projeção sobre como uma situação limite realça os demônios interiores que estão além de nosso controle, deixando o desespero tomar as rédeas e jogando o destino à sua própria sorte.

 

Conflitos de um escritor em A Janela Secreta

Três grandes adaptações de romances de Stephen King foram feitas tendo um escritor como protagonista. São elas: “O iluminado”, “Louca obsessão” e a projeção a ser discutida.

O filme narra a história de Mort Rainey, um famoso autor de livros de mistério que entra em crise após flagrar sua esposa com outro homem em um motel. Passa a morar isolado de tudo, em uma cabana à beira do lago Tashmore, em busca de tranquilidade.

Enfrentando um bloqueio de escrita, vive deitado no sofá cochilando, fumando e bebendo sem a mínima noção de tempo, como se quisesse apagar a própria existência.

Certa manhã alguém bate à sua porta. É um homem chamado John Shooter, com sotaque sulista, acusando-o de plágio de um conto que ele escreveu anos atrás. A princípio, o autor não o leva a sério, mas aos poucos começa a perceber que sua vida corre perigo se o equívoco em questão não for esclarecido.

Dirigido por David Koepp, a película constrói um clima de tensão que vai crescendo gradativamente, prendendo a respiração do espectador a cada take. O suspense em cima da sugestão é bem mais assustador e o filme comprova essa tese.

Além do mistério, há uma outra trama que também é desenvolvida no filme, mostrando como Mort tornou-se um escritor decadente depois de presenciar o adultério da esposa, e a forma como isso corroeu sua mente. Além disso, explica o que gerou o afastamento do casal, levando sua mulher a procurar amor fora do casamento.

Nesta projeção é construído o autêntico perfil de um escritor: avesso ao contato social, perdido em pensamentos e questionamentos, sempre deprimido e enfrentando crises pessoais que eventualmente o levam a se afastar de tudo e de todos.

A trilha sonora de Philip Glass ajuda a construir a ambientação necessária para a trama, sem usar de clichês sonoros para alcançar o efeito desejado no espectador.

O elenco é perfeito, com destaque para Johnny Depp, que interpreta um Mort Rainey consumido pela amargura e lutando contra os seus próprios julgamentos. John Turturro também está excelente como o sulista ameaçador, que nunca levanta o tom de voz, mas demonstra ao longo da narrativa que sua ameaça é séria e graves conseqüências acontecerão se o erro não for reparado.

“A Janela secreta”, além de ser o título do conto que gera o conflito na película, pode também ser analisado como a porta do inconsciente, onde todas as lembranças ruins ficam devidamente soterradas porque trazê-las à tona poderia trazer conseqüências imprevisíveis.

Intrigante e misteriosa, a projeção conta com um final surpreendente, deixando bem clara a premissa de que os demônios internos são mais perigosos de que qualquer forma de ameaça exterior.

A beleza plástica e musical de Tango

O referido estilo musical argentino  teve início nas duas últimas décadas do século XIX, com violino,flauta e violão. Apaixonado e triste, ele evoca a angústia da sugestão refreada pela solidão de uma adoração não correspondida, como duas retas paralelas andando lado a lado mas destinadas a nunca se tocarem.

O cineasta Carlos Saura consegue transmitir toda a magnificência desta dança através de uma narrativa que traduz a essência da mesma, tendo como protagonista o diretor Mario Suárez, que sofre com a ausência da esposa que o abandonou para ficar com outro homem e aproveita esta dor para  montar um espetáculo tendo como tema o seguinte gênero sonoro.

No decorrer da produção o patrocinador majoritário lhe pede que sua namorada seja incluída, tendo em vista que a garota tem talento e necessita de uma chance. A bailarina Elena Flores consegue cativar  a todos inclusive Mário, que se apaixona por ela.

O triângulo amoroso formado a partir de então se torna denso quando é revelada a índole violenta do mafioso que financia o show, incrementando a condição trágica deste amor que é o mote principal da dança em questão.

A belíssimas seqüências de dança não só comunicam a melancolia agressiva do ritmo mas revelam de forma onírica as intenções dos personagens envolvidos na trama. O jogo de luz e cores realça este diálogo, formando junto com a belíssima trilha sonora uma composição poética ímpar e própria deste diretor espanhol.

A película confere homenagens aos grandes ícones do gênero, com destaque para o genial Carlos Gardel, autor de canções como Mi Buenos Aires querido, Por una cabeza, El día que me quieras e Sus ojos se cerraron.

Outra devida referência vai para o genial escritor portenho Jorge Luis Borges, cuja citação justifica uma importante e significativa cena que ilustra um período negro na história política da Argentina.

A projeção comenta também sobre o papel do artista, como alguém que traz a ruptura e não aceita interferências externas nem faz concessões.

Interessante notar o uso de metalinguagem para conduzir a apresentação da história, usando a linguagem cinematográfica para dissertar sobre o seu sentido e função enquanto elemento-chave para transmissão da mensagem desejada.

Mário incorpora  a alma do estilo musical apresentado já que sua identidade traduz muitos aspectos relevantes para a composição do mesmo. Seu andar manco por causa de um acidente de carro que o impossibilita de dançar infere a cadência triste e envolvente das notas que constituem as músicas do gênero.

Um olhar sensível sobre  uma dança que faz parte do caráter visceral da nação argentina, ilustrando a paixão amarga que contribui para a beleza agridoce de suas melodias.

Um casamento perfeito entre a beleza plástica do enquadramento embalado por cores e sombras com uma trilha sonora impecável. Um deleite memorável para olhos e ouvidos.

A poesia nos detalhes em O fabuloso destino de Amélie Poulain

O contexto pós-moderno em que vivemos mergulhados decreta tamanha quantia de urgências (especialmente financeiras) para criar uma imagem apresentável de nossa personalidade que muitas vezes terminamos nos esquecendo de apreciar os pequenos prazeres que juntos formam um painel memorável de nossa identidade. A referida projeção trata deste mote.

A narrativa acompanha a trajetória da protagonista, desde o momento de sua concepção até a sua vida adulta, onde trabalha como garçonete em um café em Paris.

Desde pequena foi privada de qualquer tipo de interação por causa de uma mãe neurótica e um pai distante. Essa educação fez com que ela criasse sua própria realidade, um mundo onde estaria sempre segura de qualquer adversidade, cultivando pequenos prazeres.

Uma mudança significativa acontece em sua vida quando encontra uma caixa dentro da parede de sua casa contendo objetos que um antigo morador escondeu quando criança.

Ela decide então procurar e devolver o estojo ao seu dono a fim de despertar um sentimento de nostalgia no mesmo, mas a mudança termina sendo mais profunda, pois leva o homem a analisar a fugacidade do tempo e a preciosidade de cada momento.

A partir deste momento a protagonista resolve provocar essa ruptura no cotidiano daqueles ao seu redor, fazendo com que reflitam a respeito de seu comportamento, abrindo os olhos para uma nova perspectiva que lhes trará um encanto especial pela vida.

O que Amelie não percebe é que ela mesma necessita de uma mudança de atitude, pois vive preocupada em ajudar os outros para não ter que analisar a si mesma. Esta urgência é incrementada quando ela se apaixona por Nino Quincampoix, um rapaz com hábitos semelhantes aos dela.

O cineasta Jean-Pierre Jeunet consegue criar um ambiente de fábula poética através da belíssima trilha sonora acompanhada de uma fotografia bastante focada na cor das imagens e guiada pela narração em off.

A montagem leva o espectador a enxergar as situações através do ponto de vista da personagem principal que ocasionalmente sorri para a câmera criando uma relação de cumplicidade com o mesmo.

O grande destaque no elenco vai para Audrey Tautou que interpreta uma protagonista que busca levar a epifania àqueles que a rodeiam, mas é covarde para batalhar a sua própria felicidade. Alguém que viveu tanto tempo isolada de contato humano que perdeu a habilidade de interação.

A película trata de pessoas solitárias e ansiosas por contato humano numa realidade onde os pequenos prazeres foram sublimados por preocupações materialistas e fugazes, sem tempo para refletir sobre o que nos completa e realiza espiritualmente. Enfoca aqueles instantes que valem ouro e duram segundos.

Um libelo sobre a necessária atenção aos detalhes, pois são eles que refletem as nuances de nossa verdadeira essência.