A distopia machista em The Handmaids Tale

O termo distopia se refere a uma versão distorcida da realidade, geralmente caracterizada por opressão e autoritarismo de um regime que é instaurado para resolver uma disfunção ou problema. A princípio, ela é nunca é vista como uma coisa negativa, sendo em muitos casos defendida cegamente pelos seus seguidores mais fiéis. Estes cenários foram criados na ficção para gerar um debate sobre a condição humana em situações extremas. O tema em questão acabou gerando vários clássicos da Literatura Mundial, como “1984”, “Admirável Mundo Novo”, “Laranja Mecânica”

Fahrenheit 451”. No cinema temos “Mad e nos quadrinhos temos “V de Vingança” dentro dessa referência. A série em questão, está na sua terceira temporada e é adaptada do romance homônimo de Atwood para o serviço de streaming Hulu. Mostra um governo alternativo nos Estados Unidos que passou a se chamar Gilead e é essencialmente patriarcal

As mulheres foram divididas em um tipo de “castas”, usando cores para realçar essa distinção. As esposas vestem azul piscina, são estéreis e sua função é gerenciar a casa e cuidar dos bebês gerados pelas aias, mulheres férteis que vestem vermelho e são sumariamente estupradas pelos comandantes com a cabeça apoiada nas coxas de sua cônjuge, que também segura os braços da moça.  

Essa bizarrice recebe o nome de “cerimônia”, sendo nomeada assim para de alguma forma atenuar a natureza do ato em si, já que estamos falando de um estado fundamentalista religioso, com saudações como “Bendito seja o fruto”, “Que o Senhor possa abrir”, “Sob os olhos Dele”. Aqueles de comportamento desviante são “corrigidos” (castrados), mortos ou enviados para “as colônias”.

Outros segmentos femininos são as empregadas domésticas, que vestem cinza e as “Tias” que gerenciam as aias e vestem marrom, além de serem bastante truculentas. Após o parto elas são realocadas e rebatizadas de acordo com o dono da casa onde irão temporariamente residir. 

 

 

A protagonista da história é June Osborn, que após ser afastada de seu marido e filha é rebatizada como a aia Offred (ou pertencente a Fred, o nome do comandante da casa onde ela mora). A narrativa é intercalada em flashbacks que mostram o passado dela e como esse regime foi sendo gradativamente instaurado.  

Vivendo em regime cativo dentro dessa residência ela convive com o motorista Nick, a serviçal Rita e a esposa Serena, além do patriarca. Seus únicos momentos de leveza são quando ela sai com a aia da casa vizinha para comprar suprimentos e ir ao médico. Nessa distopia machista e misógina é curioso perceber que os momentos de maior agressividade e truculência partem das mulheres em posição superior, como as Tias e as esposas. 

Um ponto em comum a todas essas histórias sufocantes é que nelas a força do espírito humano é colocada à prova. Aqui é reconfortante saber que ele ganha uma resposta em latim: “Nolite Te Bastardes Carborundorum” (Não deixe os cretinos te oprimirem). Um lema atualíssimo e bastante versátil, vamos concordar! 

 

 

A ética póstuma em The Good Place

Desde o início dos tempos a humanidade vem criando formas de mesurar se alguém é essencialmente bom ou mau. Segundo Confúcio “Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo; quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo”. Já William Shakespeare diria que “Não existe o bom ou o mau; é o pensamento que os faz assim”. Por fim existe um provérbio indígena que diz que “Dentro de nós há dois cachorros: um deles é cruel e mau; o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que alimentamos mais frequentemente”.

Que critérios são os mais justos para avaliar as nossas ações em vida para definir o nosso futuro póstumo? Essa é a discussão que permeia o seriado da NBC “The Good Place”, disponível no catálogo da Netflix. 

 

A comédia gira em torno de Eleanor, uma mulher extremamente egoísta que é enviada após sua morte ao Bom Lugar do título, onde são recompensados todos aqueles que foram caridosos e altruístas em vida. Percebendo que foi enviada para lá por engano e com medo de ser realocada no “Mau Lugar”, ela confessa a sua situação à “alma gêmea” que lhe foi designada, o senegalês Chidi, que em vida foi professor de filosofia e pede que ele a ajude a ser alguém melhor, a fim de realmente merecer a sua estadia naquele lugar. Mas ser uma pessoa boa no pós-morte conta pontos a favor dela ou seria tarde demais para qualquer tipo de redenção?  

Enquanto ela tenta se esforçar para melhorar a sua atitude, percebe que algumas alterações espontâneas na vizinhança estão colocando em risco os habitantes locais, como um sumidouro que brota dentro de um restaurante, camarões gigantes voadores e outras bizarrices que parecem ter saído da cabeça do escritor Douglas Adams. Toda essa confusão deixa o arquiteto Michael, responsável pelo design daquele vilarejo em estado de pavor, Já que se trata do seu primeiro projeto nesse sentido. 

 

Quanto mais a história avança, mais se percebe que muitas coisas ali não são o que parecem e o acaso realmente não existe, como já dizia Alan Kardec. A série levanta uma questão moral que nos leva a questionar nossos próprios comportamentos, já que inadvertidamente podemos ser nocivos àqueles ao nosso redor. Levando em consideração a conjuntura em que nos encontramos, marcada pelo individualismo e falta de empatia com o próximo, ela nos conduz a uma reflexão existencial e garante boas gargalhadas.

 

O charme da rebeldia em “La Casa de Papel”

Já dizia Steve Jobs que “é muito mais divertido ser pirata do que se alistar na Marinha”. Existe um estranho charme na contravenção, tanto que existem diversos criminosos que exalam um carisma indefinível. Foras da Lei que caíram nas graças do público porque suas atitudes desafiavam o status quo de determinado contexto, sejam os mafiosos durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos ou até mesmo os cangaceiros no Brasil. Seus delitos levavam ao questionamento da ordem institucionalizada. Segundo o escritor Oscar Wilde, “A rebeldia aos olhos de todo aquele que tenha lido um pouco de história, é a virtude original do homem.” 

A série espanhola da Netflix que agora está em sua terceira temporada acompanha um grupo de desajustados que se reúnem em torno da misteriosa figura do Professor, o qual possui um plano infalível para executar um roubo histórico na Casa da Moeda da Espanha. Para isso ele os reuniu em uma casa de campo onde ficaram cinco meses confinados estudando cada movimento e possível desdobramento de cada movimento da polícia ou deles mesmos. Tudo foi tão meticulosamente estudado que chega a impressionar até mesmo aqueles que acreditam desvendar cada desfecho.

 

A tensão está sempre presente, pois a história já começa no assalto e a partir daí vamos conhecendo melhor a história a partir dos flashbacks alternados que se sucedem. Assim temos esse estranho grupo de pessoas que foram reunidas por suas respectivas habilidades, mas não se conhecem pelo nome de batismo, pois cada um recebeu o nome de uma cidade a partir do momento em que pisaram na casa. Um não conhece o “currículo” do outro, por assim dizer. Além disso, temos diferentes personalidades que geram resultados adversos durante o roubo e antes dele, já que as respectivas motivações são variadas e subjetivas. 

O bando liderado pelo Professor que monitora tudo pelo lado de fora é formado pela intempestiva Tóquio, o passional Rio, o bem humorado Denver e seu pai Moscou, o calado Oslo, o gigante dócil Helsinki, a carismática Nairóbi e o pragmático Berlim, que foi instituído como o segundo no comando da operação, controlando todos de dentro do local. Vale apontar a excelente dinâmica dos mesmos entre si e com os reféns perdidos no meio do fogo cruzado dos bandidos com a polícia, já que sua desorientação os leva a seguir as ideias do diretor da instalação, que procura organizar uma fuga em massa dos prisioneiros. 

 

Do lado de fora da Casa da Moeda acompanhamos os esforços da polícia em resolver aquela situação o mais rápido possível, enquanto tentam desvendar a identidade do organizador de tudo aquilo, que previu todos os seus movimentos, como num jogo de xadrez ensaiado, menos se envolver romanticamente com a policial encarregada para prender os assaltantes. Todos esses conflitos internos e externos levam o público a assistir a série na beira do assento, movidos pela imprevisibilidade que pode ser comprometida por esse acaso, pois o gênio do crime agora está passível de cometer algum deslize movido pelo coração e não pelo cérebro. 

O carisma ideológico do líder eleva o simbolismo do evento planejado, que pretende criar uma comoção pública em torno do grupo de macacão vermelho e usando a máscara emblemática de Salvador Dali. A música “Bella Ciao”, ícone da resistência italiana ao fascismo de Mussolini e que se tornou um hino da resistência durante a Segunda Guerra Mundial, aqui ganha força contra o sistema financeiro instituído que de certa forma está sendo contestado nessa ação conjunta.  

O humano acima do bem e do mal em “Good Omens”

Há muito tempo a humanidade vem tentando criar um conceito definitivo para o bem e o mal, essas duas forças opostas que se opõem e ao mesmo sofrem uma atração mútua. Já dizia Mário Quintana que “Todos tem seu encanto: os santos e os corruptos. Não há coisa na vida inteiramente má. Tu dizes que a verdade produz frutos. Já viste as flores que a mentira dá?”

Na filosofia chinesa temos os conceitos de Yin e Yang, duas energias opostas. As duas esferas dentro do símbolo representam a ideia de que, toda vez que cada uma das forças atinge seu ponto extremo, manifesta-se dentro de si um sentimento contrário.

 

A nova série do Amazon Prime é uma adaptação feita por Neil Gaiman do livro homônimo que ele escreveu com Terry Pratchett, uma história irreverente envolvendo o anjo Aziraphale e o demônio Crowley às voltas com o iminente Apocalipse que terá início em uma pequena cidade inglesa.

A narração em off de Deus é feita de maneira bastante irreverente e pontua o típico humor britânico que permeia a trama, também presente em obras como O Guia do Mochileiro das Galáxias e Monty Python.

O grande destaque vai para a relação entre o anjo e o demônio escalados para vigiar a criança que dará início ao Apocalipse. Ao longo dos episódios vamos acompanhando a amizade de longa data, desde o início dos tempos, quando um era guardião do Portão Leste do Jardim do Éden enquanto o outro foi a serpente que tentou Eva para comer a maçã. Suas longas estadias na Terra acabaram por deixá-los um tanto humanizados, o que acaba por levá-los a evitar o Juízo Final em favor da Paz, enquanto os seus superiores não aceitam nada além da guerra que definirá de uma vez por todas a supremacia de um sobre o outro.

 

Em sua jornada para evitar o Armagedom e encontrar o Anticristo, agora um menino de 11 anos vivendo tranquilamente em uma cidadezinha inglesa, eles acabarão trombando com uma jovem ocultista, dona do único livro que prevê com precisão os acontecimentos do fim do mundo, com caçadores de bruxas ainda na ativa e, quem sabe, até com os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Mas eles terão de ser rápidos.

Uma história envolvente e divertida que mostra como o cinza pode ser mais interessante que o preto e o branco.

O existencialismo agridoce de “After Life”

Ricky Gervais é um dos maiores gênios do humor na minha opinião. Suas piadas sempre tem o timing acertado, mesmo quando ele discute temas polêmicos ou ácidos. Seja em seus stand ups, séries, filmes ou as famosas apresentações do Globo de Ouro ele sempre se destaca e é bem recebido pelo público e pela crítica.

Uma de suas criações mais famosas é a versão britânica de The Office, que alavancou a sua carreira e renderia anos depois um derivado americano que manteve a qualidade do original pois contava com a sua consultoria. Sempre muito bem-humorado, sabe rir de si mesmo e dos outros de maneira bastante sarcástica, o que nem sempre é bem recebido por todos, dada a natureza subjetiva da comédia. De qualquer forma é seguro dizer que ele consegue ser comovente e divertido na medida certa, sempre nos fazendo refletir sobre a natureza do ser humano.

 

Sua obra mais recente é a série After Life, que no Brasil ganhou o péssimo subtítulo “Vocês vão ter que me engolir”, fazendo referência à célebre frase de Zagalo enquanto pouco casa com a proposta da história, que acompanha o viúvo Tony, jornalista de um pequeno periódico em uma cidadela inglesa. A perda de sua amada o abalou de tal forma que ele abandonou por completo o seu “filtro social”, dizendo o que lhe vier à cabeça e agindo da mesma forma, pois segundo o mesmo, na pior das hipóteses ele teria sempre um plano B: o suicídio.

Poucos são aqueles que conseguem escapar de seu comportamento kamikaze, como o seu sobrinho, sua cadela, seu pai junto à enfermeira que cuida do mesmo, uma jornalista novata e uma viúva cuja lápide do marido é vizinha à de sua falecida esposa. O mais interessante é que suas frases não são necessariamente desagradáveis (por isso a minha discordância com o subtítulo), mas nada além de uma logística rasgada e crua, sem a maquiagem da etiqueta que muitas vezes nos trava diante de uma situação delicada.

 

Com a segunda temporada já garantida para 2020, essa história agridoce nos leva a refletir sobre nossas atitudes e sobre nossa mortalidade, pois segundo o pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger, a consciência de nossa morte nos leva a aproveitar melhor a vida, ao invés de adiar a nossa própria felicidade com outras prioridades menos relevantes.