Super Heróis detestáveis em “The Boys”

“Quem vigia os vigilantes?” é a pergunta que o genial quadrinista Alan Moore já fazia em Watchmen, afinal como se sentir seguro convivendo com seres de habilidades sobre humanas que podem destruir uma cidade em poucas horas? Na ficção a grande maioria deles se tornou digna de confiança, como os heróis da Marvel e da DC. Mas e se não fossem? 

Garth Ennis respondeu a essa dúvida em “The Boys”, série em quadrinhos que foi adaptada para a TV recentemente através da Amazon Prime Vídeo por Seth Rogen, Evan Goldberg e Eric Kripke, com a segunda temporada já confirmada. Ela aborda uma realidade alternativa onde super heróis existem, combatem o crime e são vistos como celebridades, recebendo a mesma adoração e exercendo a mesma influência sobre as massas. O que quase ninguém sabe é que em suas vidas privadas eles são arrogantes, egocêntricos, mimados, superficiais, promíscuos e com um absoluto desdém pelas vidas humanas que salvam.  São financiados por uma empresa que cuida e lucra com a imagem deles, chamada Vought. 

A narrativa começa quando Hughie, o pacato funcionário de uma loja de eletrônicos vê a sua namorada ser acidentalmente pulverizada  por um velocista desatento pertencente ao grupo dos “Sete”, uma versão distorcida da Liga da Justiça que é liderada por Capitão Pátria, uma versão bem escrota do Superman. Ao rapaz é oferecida uma indenização, mas ele recusa. Entra em cena o misterioso Billy Butcher, que sugere uma oportunidade de parceria para revidar e fazê-los pagarem por seus erros. Nessa cruzada anti-heróis também passam a fazer parte o Francês e um corpulento gentil apelidado de Leitinho de Mamãe, além de uma estranha asiática muda que é extremamente letal e possui poder regenerativo.

Enquanto isso a inocente Luz Estelar, recém integrada aos “Sete” vai gradualmente percebendo que nem sempre é uma boa ideia encontrar os heróis que você idolatrou na infância. A sexualização presente no seu uniforme é uma de suas várias decepções, deixando a mesma no dilema de abandonar o sonho que tinha desde criança ou se corromper ao sistema vigente. 

Vale afirmar também que cada personagem no seriado possui a sua motivação psicológica bem construída, permitindo compreender que não há uma apresentação maniqueísta dos mesmos. Cada um tem a sua trajetória muito bem definida e isso é essencial para contar uma boa história como essa. É muito bom ver uma proposta tão bacana como essa sendo explorada em todas as suas vertentes.

A série usa de humor negro para criticar o culto às celebridades e o marketing corporativo, onde as pessoas são influenciadas a adorar seres que secretamente os desdenham, especialmente através do Capitão Pátria, que disfarça muito pouco seu desprezo pelos humanos. O seriado também faz comentários ácidos à mercantilização religiosa, militarismo, assédio sexual, politicagem e racismo. Irreverente e bastante sarcástica, “The Boys” irá estrear a sua segunda temporada dia 04 de setembro na Amazon Prime.