A história da nossa vida e o filme A Chegada

Fisicamente, tempo e espaço são duas grandezas correlacionadas entre si. Mas a nossa jornada por essa fusão chamada espaço-tempo só começou no século passado, quando Albert Einstein publicou as derivações matemáticas que fundaram a Teoria da Relatividade Geral (link para os trabalhos em inglês). Esse trabalho revolucionou a maneira como toda a humanidade interpretara o tempo até então, e como pensara sobre estruturas físicas de larga escala — planetas, galáxias, e basicamente todo o universo em si. Essa teoria apresenta uma constatação matemática sobre como nós viajamos no tempo. Sempre na direção do futuro, evidentemente, passando por um breve presente, deixando tudo no passado (esse último uma época que, fisicamente, também seria revisitável).

No livro A História da Sua Vida (e outros contos), de Ted Chiang, a ideia da passagem do tempo e suas interpretações é explorada no conto homônimo. Nele, uma linguista renomada, Louise Banks é convocada a traballhar na interpretação de sinais dos heptápodes, criaturas misteriosas que simplesmente pousaram na Terra em 12 diferentes localidades, com 12 diferentes naves de 450 metros de altura. Naturalmente, a questão fundamental (qual o propósito deles na Terra?) é a que urge por ser respondida. Mas qualquer resposta requer comunicação. Qualquer tentativa de comunicação requer compreensão e um vocabulário em comum entre locutor e interlocutor. Nesse jogo, Louise sai à frente de todos os outros especialistas do mundo todo e consegue extrair os primeiros sinais de comunicação dos heptápodes, no que parecem ser manchas circulares extremamente complexas. Como interpretá-las? Bem, isso ela consegue descobrir após algumas semanas. Agora o significado de tudo é muito mais profundo.

A nossa noção de tempo, hoje, é atrelada ao espaço. Mas o tempo em si, visceral como é, em sua divisão de passado, presente e futuro, também é uma questão das nossas limitações humanas, demonstrada por nossa maneira de deixar escritos por aí, atos que datam milhares de anos. A escrita heptápode, porém, é transcendental. As estruturas são uma fusão perfeita entre passado, presente e futuro: há uma interconexão fundamental, que começa justamente pela forma como eles se expressam. E nesse jogo temporal, Ted Chiang nos prende em seu conto, de maneira que passemos a questionarmos por nós mesmos qual a nossa relação com o tempo. Isso, claro, como se pudéssemos fazê-lo de uma maneira consciente.

A ideia transcendeu as páginas dos livros e foi parar nas telas de cinema, no filme A Chegada, estrelado por Amy Adams no papel de Louise e Jeremy Renner no papel de um físico teórico que também contribui para a tradução das mensagens. Uma das características principais no filme é como o silêncio é tratado em todas as cenas, numa metalinguagem interessante, uma vez que o tema central é a comunicação. O filme, para alguns, pode ser mais sobre a conexão da raça humana para lidar com a invasão alienígena. A temática, em si porém, vai muito além. O sentido muito mais profundo encontra-se na maneira como a história é contada. A carga emocional nas memórias do passado, presente e futuro de Louise são fundamentais para o grande desfecho do filme, assim como foi do conto.

O contato com heptápodes, criaturas de outra realidade desconhecida, nos põe a pensar sobre o modo de enxergar a vida. A fluidez no espaço-tempo dessas criaturas é sumarizada justamente na escrita. A partir do momento que Louise entra em contato com tais escritas, nota-se a influência sobre as suas memórias. Todas elas. Presente, passado e futuro, reunidos em um só acontecimento. Em um conto diferente do livro, Entenda, temos uma descrição praticamente exata de como os heptátpodes se comunicam:

Minha nova língua está tomando forma. Ela é orientada à Gestalt, configurando-se de maneira notável para o pensamento, mas impraticável para escrever ou falar. Não seria transcrita na forma de palavras dispostas de forma linear, mas como um ideograma gigante, para ser absolvido inteiro. Tal ideograma poderia transmitir, de modo mais deliberado que uma imagem, o que mil palavras não conseguem. A complexidade de cada ideograma seria proporcional à quantidade de informação contida; eu me divirto com a noção de um ideograma colossal que descreva todo o universo.

Nossa maneira de descrever o universo, como raça humana, ainda é incompleta e pouco eficiente. Nossas maiores ferramentas, a Física e a Matemática, ainda enfrentam enormes desafios para uma descrição de uma Teoria de Tudo. Quando a nossa ferramenta de comunicação maior, a Ciência, puder descrever tudo, talvez possamos dar um passo rumo à fluidez dos heptápodes, desta vez, transcendendo dos livros e das telas para a nossa própria realidade. A história das nossas vidas contará.

One thought on “A história da nossa vida e o filme A Chegada

  1. Muito orgulho desse menino.

    Muito orgulho desse nenino…

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