A irreverência e despojamento de Robert Crumb

Robert Crumb é um dos maiores representantes da contracultura norte-americana, famoso por criações como Fritz the Cat e Mr. Natural, ganhou notoriedade por discutir sexos, drogas e violência num período de intensa repressão nos Estados Unidos.

Seus primeiros trabalhos foram publicados na revista Zap Comix, criada por ele no final dos anos 60 e que fazia frente à forte censura e ao autoritarismo da época, marcando desta forma o início da era dos quadrinhos underground.

Com seu humor ácido e corrosivo ele expôs a hipocrisia da sociedade americana através de seus personagens politicamente incorretos. Desprezando completamente a intenção de ser didático ou pragmático, sua obra descontraída exalta o hedonismo e o confronta com a moral americana conservadora e coercitiva.

Robert Crumb também foi essencial para a carreira de outro grande autor que tinha muito a dizer, mas não sabia desenhar. Seu nome era Harvey Pekar e suas primeiras histórias foram adaptadas para os quadrinhos através dos desenhos do mesmo, revelando assim o seu potencial e abrindo um precedente para que outros desenhistas fizessem o mesmo para ajudá-lo. O entrosamento dessa dupla pode ser conferido no excelente livro “Bob & Harv – Dois Anti-heróis Americanos”.

Ilustrou também várias capas de discos de Janis Joplin e outros artistas consagrados, incluindo os de sua banda de blues: “R. Crumb and his Cheap Suit Serenaders.”

Sua admiração por este estilo musical também fez com que ele lançasse um livro sobre o assunto. O álbum intitulado “Blues” traz quadrinhos que relatam a vida do cantor Charley Patton e a maldição que teria se abatido sobre Jelly Roll Morton, além das aparições do próprio Crumb e de Mr. Natural.

Outra obra sua que merece menção é “Kafka de Crumb” uma livre biografia do escritor tcheco, famoso por suas histórias claustrofóbicas e sombrias. Além de apresentar a trajetória de um dos maiores autores do século XX, O livro traz o resumo, análise e desenhos de suas principais obras: O Veredito, A Metamorfose, A Toca, Na Colônia Penal, O Processo, O Castelo, Um Artista da Fome e Teatro da Natureza de Oklahoma (ou Amérika).  Nessa mesma linha, desenhou em cima dos textos de Bukowski e Phillip K. Dick.

Em 1994 o desenhista foi tema de um filme documentário, intitulado “Crumb”, do diretor Terry Zwigoff. O filme é focado no relacionamento do mesmo com seus dois irmãos, sendo que os três possuem certo grau de sociofobia, em grande parte relacionada ao seu pai severo e mãe superprotetora.

Sua visão de mundo bastante sincera e por vezes debochada contribui em grande parte para compor a aura de carisma que o envolve. Sem preocupação em agradar ou ofender, ele rasga o verbo e brinca com essa contravenção, batendo de frente com os conservadores americanos. Apesar de grande apreço pela cultura de seu país, já fez questão de deixar bastante claro que possui problemas de incompatibilidade com a sociedade do mesmo, tanto que se mudou com sua família para o Sul da França e lá mora até hoje.

Um de seus lançamentos recentes mais comentados foi sua adaptação do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, para os quadrinhos, que demorou quatro anos para ser concluído, lançado em Outubro de 2009. Em 2010 esteve na Flip_ Feira Literária de Parati, onde se definiu como “um artista do século 19, que gosta de molhar a pena na tinta e desenhar.”Um espírito nobre revelando que muitas vezes os avessos são aqueles que estão na direção certa.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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