A transcendência da música em O Solista

A música é a melhor ponte para alcançar a transcendência do espírito. Basta fechar os olhos e deixar a melodia conduzir o caminho, mesmo que ele seja incerto e imprevisível.

A grande beleza desta arte está na entrega que ela exige. Não segue um conjunto lógico de parâmetros, estando imersa na incrível variedade de sentimentos e perspectivas que por ela são sugeridas. Aqueles que se dedicam a servi-la precisam estar preparados para acompanhar os seus caprichos e por essa razão a vida de muitos deles é marcada pela tragédia.

Baseada em fatos reais, a narrativa desta projeção acompanha um colunista do Los Angeles Times que encontra um talentoso e prolixo músico sem-teto enquanto procurava um tema para o seu próximo artigo. Após descobrir que este abandonou a renomada escola de música Julliard no segundo ano, resolve escrever sobre ele.

À medida que o jornalista vai tomando conhecimento do incrível potencial desperdiçado deste artista, sente uma pungente necessidade de fazer todo o possível para que ele tenha a atenção que ele tanto necessita e merece, O grande desafio reside em convencê-lo a aceitar todos os benefícios e oportunidades que lhe são oferecidas.

A crescente amizade entre os dois aumenta o sentimento de culpa e angústia do escritor pela precária situação de alguém tão promissor e comprometido com sua arte abandonado e condenado à marginalidade.

Nathaniel Ayers é um músico que vive em paz no ambiente em que reside. Sua extremada dedicação às notas que toca faz com que ele seja transportado a outro nível de percepção da conjuntura ao seu redor. Apaixonado pelas composições de Beethoven, ele guarda uma relação especial com elas.

A montagem do cineasta Joe Wright acompanha a interação entre os dois amigos que possuem em comum a intensa dedicação ao seu trabalho, enquanto mostra em flashbacks a trajetória do violoncelista desde pequeno até o surto que impulsionou a sua fuga de Julliard.

A esquizofrenia do artista coloca o colunista num difícil dilema, pois a necessidade de remédios entra em conflito com sua natureza adversa. O colunista sente uma gigantesca responsabilidade pelo virtuoso artista e quer que ele se adapte ao sistema ao invés de ficar sozinho dialogando com seus demônios interiores, mas os medicamentos podem alterar profundamente sua percepção e prejudicar sua arte.

O elenco traz as excelentes performances de Robert Downey Jr., Catherine Keener, entre outros, mas o grande destaque vai para Jamie Foxx, que projeta toda a genialidade de Nathaniel em conflito com sua loucura, transformando essa batalha pessoal em melodias que inspiram e emocionam.

Muitas vezes a grande ajuda que podemos oferecer é simplesmente emprestar os ombros e ouvidos, dar uma força. No atual contexto, onde predominam o individualismo e os valores materiais, essa necessidade de companheirismo se faz cada vez mais necessária.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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