Amor e existencialismo em Antes do pôr do sol

Jesse e Celine se encontraram num trem e passaram uma noite romântica em Viena. Nove anos depois se reencontram em uma livraria em Paris, onde ele escreveu um livro sobre esta experiência.

A história é contada em tempo real, ou seja, o tempo do filme equivale ao pouco tempo que ele tem antes de ir para o aeroporto.

Enquanto o casal anda pelas ruas da cidade, comentam sobre o que fizeram durante o tempo em que estiveram separados e o rumo que suas vidas tomaram. Ele é um escritor e ela trabalha para uma organização de proteção ao meio-ambiente.

Vários assuntos surgem, desde política internacional a existencialismo e romance no contexto pós-moderno.Nesse ponto o filme mostra como estamos constantemente preocupados em seguir uma carreira e garantir um futuro e acabamos não apreciando o presente e a beleza em cada pequeno detalhe da vida.

Jesse é romântico e otimista enquanto Celine é mais realista e melancólica.O diálogo é interessantíssimo, politizado e nos leva a pensar sobre os vários tópicos abordados, como se o telespectador estivesse acompanhando e curtindo a caminhada com o casal.

O diretor Richard Linklater conduz a trama com suavidade, através de uma fotografia fascinante (Paris durante o crepúsculo _ precisa dizer mais?) e uma trilha sonora belíssima.

Os atores retratam com brilhantismo o amadurecimento dos personagens, realçando algo muito comum, que é o fato de querer ter ontem o amadurecimento de hoje, apesar de reconhecer que foi graças aos percalços e desencontros no passado que obtivemos o crescimento emocional e espiritual.

É interessante notar a progressão da conversa, onde podemos perceber os antigos sentimentos subindo a tona, mostrando que apesar de seguirem diferentes rumos, ambos nunca conseguiram superar a noite em Viena, aquela ocasião especial em que eles realmente se entregaram.

Nesse aspecto o filme aponta para algo muito comum em nossa vida e que vale um comentário: qual é o peso das pequenas concessões que fazemos ao longo da vida, em nome de uma boa convivência social?Enterrar o peso de nossas decisões é mais seguro, mas até que ponto elas trouxeram alguma forma de realização?

Outro ponto a ser mencionado é a angústia de que Jesse fala no filme. Somos escravos de um desejo infindo, mas precisamos dele. Assim que saciamos nossa vontade, uma outra nasce, remetendo às teorias do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

Um libelo que nos suspende e faz pensar nas grandes histórias, nos amores que marcaram e que agora repousam num canto seguro do cérebro, porque despertá-los pode acabar nos forçando a uma leitura não muito agradável da realidade que enfrentamos, como Celine afirma em uma seqüência: “Eu estava bem até ler o seu maldito livro!”

Finalizando: a última seqüência, onde Julie Delpy canta uma valsa e imita Nina Simone é memorável, como um sonho do qual não queremos acordar. E quem quiser saber como foi a noite romântica do casal em Viena assista o filme “Antes do Amanhecer”.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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