A sensibilidade visceral de Eveline em Animais e Fronteiras

Desde o início dos tempos, as relações entre homens e animais na Terra foram bastante desiguais e injustas. O homo sapiens em toda a sua arrogância estabeleceu um desnível e foi utilizando o ecossistema a seu bel prazer, estabelecendo critérios de acordo com a sua conveniência, sem perceber que o desequilíbrio gerado pelo mesmo poderia lhe afetar a longo prazo. 

Os animais foram severamente afetados nesse contexto, algumas espécies inclusive chegando a ser varridas por completo de sua existência, tudo de forma bastante natural, tendo em vista que “seres inferiores” não teriam direito a opinar sobre seu espaço no planeta. 

Partindo deste princípio a jornalista Eveline Baptistella busca realçar e discutir as relações entre animais humanos e não humanos, relatando situações reais do cotidiano em Cuiabá, denunciando momentos onde a invasão urbana tirou o habitat de seres que acabaram se encontrando perdidos em seu espaço, como o jacaré que vive num estacionamento.

Ela explica também como algumas pessoas se afeiçoam por alguns animais, silvestres ou não, e a partir daí não aceitam o seu maltrato, mas perdoam a violência aos da mesma espécie. 

Utilizando uma linguagem sem rodeios e floreios, Eveline sensibiliza sem pieguice ou vitimismos. Ilustra a nocividade de nosso comportamento que foi adotado pela grande maioria como “normal”, enquanto inadvertidamente tóxico. 

Um obra que pretende trazer uma releitura de nossa perspectiva a respeito da noção de espaço no meio ambiente, nos levando a meditar sobre a coabitação com seres que em certa instância chegam até mesmo a ser mais evoluídos que nós mesmos. 

 

A dimensão paralela da literatura em “Os Livros Que Devoraram Meu Pai”

 
“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda.” Sigmund Freud
 
 
A literatura não é apenas uma “imitação” da realidade. Ouso dizer que se trata de um mundo à parte, ou dimensão paralela, que conseguimos acessar através da leitura de um bom livro, capaz de assumir o papel de portal, escancarado, permitindo o acesso a essas outras infinitas terras.
 
Em Os Livros Que Devoraram Meu Pai, de Afonso Cruz, editora Leya, a possibilidade de acessar esse universo distinto foi desenvolvida de modo extraordinário. Na história, o entediado escriturário Vivaldo Bonfim mergulha, em segredo, nos seus livros preferidos durante o expediente na repartição financeira onde trabalha. Até que, literalmente, desaparece em uma das obras, um exemplar de A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells.
 
Seu filho, Elias Bonfim, nasce pouco tempo depois do insólito incidente. E, até seu aniversário de doze anos, acredita que o mesmo havia morrido de um ataque cardíaco. Era o que todos diziam, ou preferiam acreditar. Pelo menos era mais aceitável que a história verdadeira, que é contada, finalmente, pela sua avó paterna ao entregar-lhe a chave do sótão que era de Vivaldo, repleto de seus livros favoritos, inclusive, A Ilha do Dr. Moreau. Elias, então, inicia uma busca por pistas sobre o paradeiro de seu pai, em uma jornada incrível entre livros clássicos, personagens inesquecíveis e a presença amiga do cachorro Prendick que surgiu de forma inusitada em suas incursões literárias.
 
Em paralelo com sua busca pelo pai, Elias Bonfim narra sua amizade com Bombo – menino espirituoso que sofre de diabetes e aprecia contos chineses – e sua paixão platônica por Beatriz que, segundo Elias, era a menina mais linda da escola, com o “sorriso escrito à mão”.
 
A versão da obra pela editora Leya traz algumas ilustrações que delimitam os capítulos. Desenvolvidas por Mariana Newlands, são monocromáticas, singelas e divertidas.
 
 
A história, perfeita para quem ama livros, vai deixando pequenas pistas e referências ao longo do caminho. Cuidado, apenas, para não mergulhar de vez no mundo dos livros, assim como aconteceu com Vivaldo Bonfim.
 
 
Sobre o autor
Afonso Cruz nasceu em Fiqueira da Foz, Portugal, em 1971. Além de escritor premiado, também é ilustrador, produtor de filmes de animação e compositor. Escreveu outros quatro livros: A Carne de Deus, Enciclopédia da Estória Universal, A Contradição Humana e A Boneca de Kokoschka.
 
 
Sobre a ilustradora
Mariana Newlands é designer gráfica, ilustradora e fotógrafa. Estudou Desenho Industrial na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Design Gráfico e Computação Gráfica na Parsons School of Design, em Nova York. Formou-se mestre em literatura, também na PUC, escrevendo sobre bibliomania.
 
 
Curiosidades
Afonso Cruz recebeu os seguintes prêmios literários: Conto Camilo Castelo Branco (2010), Autores SPA/RTP (2011), White Ravens (2011), Menção Especial do Prêmio Nacional de Ilustração (2011) e Prêmio Literário Maria Rosa Colaço (2009);
Afonso Cruz é membro da banda The Soaked Lamb.
 
 
 
Trecho do livro
“Minha avó diz que isso pode acontecer quando nos concentramos verdadeiramente no que lemos. Podemos adentrar um livro, como aconteceu com meu pai. É um processo tão simples quanto nos debruçarmos em uma varanda, só que muito menos perigoso, apesar de ser uma queda de vários andares. Sim, porque a leitura das coisas pode ter muitos andares. Soube pela minha avó que um tal Orígenes, por exemplo, dizia existir uma primeira leitura, superficial, e outras mais profundas, alegóricas. Não vou me alongar nesse tema, basta saber que um bom livro deve ter mais do que uma camada, deve ser um prédio de vários andares. O rés do chão não serve à literatura. É adequado para a construção civil, é cômodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas, para a literatura, são necessários andares empilhados uns sobre os outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letra acima.”
 
 
Fonte
– Informações contidas no próprio livro.

Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente

“Só sofro com toda a força do mundo porque amo com a intensidade de um cometa.” Nando Reis
 
Costumo dizer que livros são seres individuais, repletos de energia e personalidade e que a essência deles, curiosamente, pode ser bem diferente daquela que o próprio autor pensou imprimir ao escrevê-lo, pois, depende muito de como cada leitor irá abarcar sua mensagem. De modo geral, todos os livros, de todos os gêneros, têm algo a nos dizer, sendo sua qualidade subjetiva demais para ser mensurada.
 
Nesse sentido, alguns livros nos marcam pela delicadeza de seu conteúdo, outros pela sua carga dramática, assim como Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente, de Igor Pires e o coletivo TCD, editora Globo (selo Alt), que traz como proposta o abraço empático através de textos carregados de emoção e profundidade.
 
Não se trata, no entanto, de um livro de autoajuda. Os textos são viscerais, transbordam dor e, muitas vezes, melancolia. Mas a proposta é justamente expor o quanto é, geralmente, doloroso viver e, mais ainda, o quanto é necessário expurgar nossos sentimentos.
 
Criada a partir da fanpage homônima que já fazia grande sucesso no Facebook, trata-se de uma coletânea de textos sobre as relações humanas, dividido em quatro capítulos. Suas ilustrações, profundamente tocantes, foram produzidas pela artista plástica Anália Moraes. São em preto e branco e compõem a experiência sensorial, conforme a natureza da obra.
 
O primeiro capítulo, intitulado Pra quando você se esquecer de mim, fala sobre relacionamentos que chegam ao fim, deixando saudades e marcas profundas.
 
 
O segundo capítulo, A memória é uma pele, fala sobre solidão, resignação e amor próprio.
 
 
O terceiro capítulo, Pra você não se esquecer de sentir, é um misto dos temas anteriores.
 
 
O quarto capítulo, A felicidade é uma arma quente, finaliza com reconstruções e recomeços.
 
Enfim, é uma obra para pessoas intensas, para “aqueles que não têm medo ou vergonha de presenciarem o sentimento tomando conta de cada centímetro da pele, das tripas, coração”, como descreve o próprio autor.
 
 
 
 
Sobre o autor
Igor Pires é paulista, formado em Publicidade e Propaganda, e cursa Jornalismo na UFRJ. Mais informações através do Instagram: @heyaigu
 
 
 
Sobre a ilustradora
Anália Moraes nasceu em São Paulo, fez o curso técnico em Comunicação Visual e é graduanda em Artes Plásticas na Escola Panamericana de Arte e Design. É co-fundadora e artista residente da Casa Dobra. Mais informações através do Instagram: @moraes_a
 
 
 
Sobre o coletivo TCD
A TCD é um coletivo formado por pessoas de diversas áreas, comprometidas com trabalhos autorais que abordam temas cotidianos, incluindo experiências pessoais e relatos extremamente íntimos e complexos. Mais informações:
 
 
 
Trecho do Livro
“eu sei que doeu em você
porque eu fui a única pessoa
que olhou dentro do seu olho
e pediu calma.
 
porque todas as outras
pessoas passaram por você e
pediram pressa.”
 
 
 
Curiosidades
– Em todo o livro, com exceção dos textos que delimitam os capítulos, nenhuma frase se inicia com a letra maiúscula;
– A ilustradora Anália Moraes também é ceramista;
– TCD foi o livro nacional de não ficção mais vendido em 2018.
 
 
Fontes
– Informações contidas no próprio livro.
 

10 filmes sobre escritores que você precisa conhecer

A escrita é um ofício solitário, onde o autor encontra sua essência ao longo do tempo e de modo muito autônomo e particular. Construindo, sozinho e aos poucos, uma espécie de personalidade artística que inclui estilo, ritmo, gênero, enfim, uma série de características que o definem.
 
Nessa construção, não existe certo ou errado. Cada um tem o seu processo de inspiração, rotina, maturação de ideias, etc. Alguns autores, por exemplo, gostam de horários rígidos para escrever, com planejamento e metas. Outros, porém, escrevem quando a inspiração vem, ao sabor do destino.
 
De qualquer forma, quase sempre ficamos curiosos sobre o processo de outros autores. Principalmente, os mais famosos. Será que Stephen King teve bloqueio criativo alguma vez na vida, ou Machado de Assis ousou duvidar do seu próprio potencial?
Para nossa felicidade, além dos livros biográficos, muitos filmes tratam da vida e obra de alguns escritores. É claro que a maioria dessas histórias reais foi romantizada, ou dramatizada, mais que o normal, para a adaptação cinematográfica. No entanto, a verdade de cada personagem permanece no resultado final. E, mesmo as obras ficcionais, trazem muito das peculiaridades dessa arte tão deliciosamente sofrida, que é a escrita.
Compartilho, então, dez filmes inspiradores que falam de autores e suas histórias pessoais:
 
1- Meia Noite em Paris (2011)
Como falar de filmes sobre a escrita e não citar essa obra-prima de Wood Allen? Nessa ficção, o escritor e roteirista Gil (Owen Wilson) vai à Paris com sua noiva e família. Entediado com a rotina de compras que sua futura esposa e sogra realizam, ele decide passear sozinho e descobre que, à meia-noite, existe uma forma de ser magicamente transportado à década de 1920, época em que Paris era considerada Cidade Luz, capital das artes, do requinte e do esplendor. Assim, ele tem a oportunidade de conhecer personalidades históricas e fantásticas desse período, como F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), Ernest Hemingway (Corey Stoll), Salvador Dali (Adrien Brody), entre outros. Gil, que já trabalha como roteirista, busca validação como romancista e consegue a avaliação crítica de, ninguém mais, ninguém menos que a escritora e poetisa Gertrude Stein (Kathy Bates). O filme expõe as dúvidas do protagonista em relação à sua própria capacidade de escrever, além de revelar dicas sutis de escrita, ao longo da história.
 
2- O Mestre dos Gênios (2016)
Baseado em fatos reais, o filme conta a trajetória de Max Perkins (Colin Firth), um famoso editor literário norte americano, do começo do século XX, que aposta em novos talentos e descobre nomes como F. Scott Fitzgerald (Guy Pearce) e Ernest Hemingway (Dominic West), trazendo como ponto principal sua relação conturbada com o gigante literário Thomas Wolfe (Jude Law) e sua vida totalmente atormentada. Wolfe apresenta a Perkins originais enormes, os quais não aceita que sejam retocados. É curioso ver como funciona o trabalho de um editor, que precisa lapidar, cuidadosamente, as obras que recebe, antes de sua publicação. Outro ponto bastante interessante, discutido na trama, é como alguns autores têm grande facilidade de escrever muito, enquanto outros escrevem bem menos e, nem por isso, deixam de ser geniais.
 
3- Miss Potter (2006)
Também baseado em fatos reais, esse filme encantador conta a história de Beatrix Potter (Renée Zellweger), uma jovem cientista que escreve e ilustra histórias infantis cativantes como “Pedro Coelho”, que foi adaptado para o cinema, recentemente. Beatrix precisou vencer muitas barreiras para se tornar escritora, incluindo os preconceitos de sua época, a descrença em seu trabalho e uma mãe super manipuladora. No entanto, contra todas as expectativas, seus livros se tornaram grandes sucessos de venda. Um ótimo exemplo de como seguir adiante, em situações adversas, com persistência e coragem.
4- Autores Anônimos (2014)
Nessa ficção, um grupo de escritores iniciantes se reúnem, regularmente, para apoiarem, uns aos outros, na busca da tão sonhada primeira publicação. O filme, gravado ao estilo “reality show”, acompanha a rotina diária de cada um deles, revelando bastidores nem sempre tão agradáveis. Nas reuniões, no entanto, quase todos se esforçam para demonstrar confiança, talento e certo apreço pela escrita dos colegas. Até que essa aparente harmonia é quebrada quando Hannah (Kaley Cuoco) surge como nova integrante e, pouco tempo depois, tem seu romance aceito por um editor. É interessante observar o que tornou o original de Hannah mais atraente para o mercado editorial e de como seu sucesso imediato passou a incomodar, mesmo que temporariamente, o restante do grupo.
 
5- As Palavras (2012)
O filme começa com o escritor Clay Hammond (Dennis Quaid) fazendo a leitura de seu último lançamento em uma universidade. Seu livro conta a trajetória de Rory Jansen (Bradley Cooper), um autor que não consegue sua primeira publicação e começa a duvidar de seu próprio talento. Até que, em determinado dia, ele encontra um manuscrito perdido e decide publicá-lo como se fosse seu. O livro foi um grande sucesso. Mas Rory logo descobre que não se consegue enganar a todos para sempre. Além da delicada questão do plágio, o filme expõe o processo de escrita do verdadeiro autor, que envolve muito sofrimento.
6- Mary Shelley (2017)
A trama biográfica relata a vida de Mary Shelley (Elle Fanning), britânica de 17 anos, e seu relacionamento romântico com o poeta Percy Bysshe Shelley (Douglas Booth). Filha do filósofo William Godwin e da feminista e escritora Mary Wollstonecraft, a jovem e tempestuosa Mary começou a escrever o que achou que seria uma história curta, em uma noite chuvosa, como parte de uma diversão entre amigos, que originou a obra-prima “Frankenstein ou O Prometeu Moderno”, publicado, oficialmente, em janeiro de 1818. Apesar de sua vida abastada, Mary enfrentou vários dramas. Inclusive, possivelmente o maior deles serviu como dolorosa inspiração para seu livro. Um grande exemplo de como a dor pode ser sublimada através da arte.
7- Sem Limites (2011)
Esse filme ficcional conta a história de Eddie Morra (Bradley Cooper), um escritor estagnado por um grande bloqueio criativo. Tomado pelo desânimo, ele reencontra seu ex-cunhado, que lhe apresenta uma pílula que promete transformar qualquer um em gênio, instantaneamente. E o que parecia ser a fórmula mágica para um possível best-seller, acaba por prende-lo em uma rede de problemas aparentemente sem solução. O filme considera a genialidade como o conjunto de, entre outras habilidades, disciplina, auto cuidado e ousadia.
 
8- Magia além das palavras – A história de J. K. Rowling (2011)
Embora não tenha sido oficialmente permitido pela criadora de Harry Potter, este filme narra sua vida, expondo suas venturas e desventuras, como o casamento conturbado em Portugal e o período de pobreza e depressão que viveu após a separação, antes do primeiro livro da saga do bruxinho ser publicado. Rowling conseguiu driblar as inúmeras dificuldades, sem deixar de acreditar em seu sonho, mesmo sendo recusada por vários editores. Com tantos problemas, quem poderia imaginar o sucesso estrondoso que seu livros alcançariam?
 
9- Os Demônios de São Petersburgo (2008)
O filme conta as desgraças experimentadas pelo escritor Dostoiévski (Miki Manojlovic), desde sua prisão na Sibéria até as inúmeras complicações financeiras, além de um editor que o obrigava a escrever incessantemente. Aliás, por causa desse editor, Dostoievski conheceu Anna Grigorievna (Carolina Crescentini), uma estenógrafa – pessoa que consegue acompanhar, na escrita, a rapidez da fala* – que o ajudou a concluir a obra “Os Demônios”, em poucos dias. Outro grande exemplo de genialidade e superação.
 
10- Histórias Cruzadas (2011)
Skeeter (Emma Stone), uma jovem americana recém formada, decide se tornar uma escritora. Motivada pela busca de um assunto original, escolheu o tema “a vida das empregadas domésticas”, questão bastante polêmica para sua época, a década de 60, quando acontecia o “Movimento dos direitos civis dos negros”, nos Estados Unidos. Ela, então, começou a entrevistar mulheres negras do Mississipi, coletando os mais variados depoimentos. O que tornou sua jornada de escrita maravilhosa… ora comovente, ora divertida, mas com uma grande e importante lição, ao final de tudo.
E você? Incluiria mais filmes à essa lista? Já viu algum desses elencados acima? Gostou ou não gostou de alguma indicação? Participe, deixe suas impressões nos comentários.
 
Grande abraço! 🙂
 
 
*Dicio – Dicionário Online de Português: <https://www.dicio.com.br/estenografo>

A história da nossa vida e o filme A Chegada

Fisicamente, tempo e espaço são duas grandezas correlacionadas entre si. Mas a nossa jornada por essa fusão chamada espaço-tempo só começou no século passado, quando Albert Einstein publicou as derivações matemáticas que fundaram a Teoria da Relatividade Geral (link para os trabalhos em inglês). Esse trabalho revolucionou a maneira como toda a humanidade interpretara o tempo até então, e como pensara sobre estruturas físicas de larga escala — planetas, galáxias, e basicamente todo o universo em si. Essa teoria apresenta uma constatação matemática sobre como nós viajamos no tempo. Sempre na direção do futuro, evidentemente, passando por um breve presente, deixando tudo no passado (esse último uma época que, fisicamente, também seria revisitável).

No livro A História da Sua Vida (e outros contos), de Ted Chiang, a ideia da passagem do tempo e suas interpretações é explorada no conto homônimo. Nele, uma linguista renomada, Louise Banks é convocada a traballhar na interpretação de sinais dos heptápodes, criaturas misteriosas que simplesmente pousaram na Terra em 12 diferentes localidades, com 12 diferentes naves de 450 metros de altura. Naturalmente, a questão fundamental (qual o propósito deles na Terra?) é a que urge por ser respondida. Mas qualquer resposta requer comunicação. Qualquer tentativa de comunicação requer compreensão e um vocabulário em comum entre locutor e interlocutor. Nesse jogo, Louise sai à frente de todos os outros especialistas do mundo todo e consegue extrair os primeiros sinais de comunicação dos heptápodes, no que parecem ser manchas circulares extremamente complexas. Como interpretá-las? Bem, isso ela consegue descobrir após algumas semanas. Agora o significado de tudo é muito mais profundo.

A nossa noção de tempo, hoje, é atrelada ao espaço. Mas o tempo em si, visceral como é, em sua divisão de passado, presente e futuro, também é uma questão das nossas limitações humanas, demonstrada por nossa maneira de deixar escritos por aí, atos que datam milhares de anos. A escrita heptápode, porém, é transcendental. As estruturas são uma fusão perfeita entre passado, presente e futuro: há uma interconexão fundamental, que começa justamente pela forma como eles se expressam. E nesse jogo temporal, Ted Chiang nos prende em seu conto, de maneira que passemos a questionarmos por nós mesmos qual a nossa relação com o tempo. Isso, claro, como se pudéssemos fazê-lo de uma maneira consciente.

A ideia transcendeu as páginas dos livros e foi parar nas telas de cinema, no filme A Chegada, estrelado por Amy Adams no papel de Louise e Jeremy Renner no papel de um físico teórico que também contribui para a tradução das mensagens. Uma das características principais no filme é como o silêncio é tratado em todas as cenas, numa metalinguagem interessante, uma vez que o tema central é a comunicação. O filme, para alguns, pode ser mais sobre a conexão da raça humana para lidar com a invasão alienígena. A temática, em si porém, vai muito além. O sentido muito mais profundo encontra-se na maneira como a história é contada. A carga emocional nas memórias do passado, presente e futuro de Louise são fundamentais para o grande desfecho do filme, assim como foi do conto.

O contato com heptápodes, criaturas de outra realidade desconhecida, nos põe a pensar sobre o modo de enxergar a vida. A fluidez no espaço-tempo dessas criaturas é sumarizada justamente na escrita. A partir do momento que Louise entra em contato com tais escritas, nota-se a influência sobre as suas memórias. Todas elas. Presente, passado e futuro, reunidos em um só acontecimento. Em um conto diferente do livro, Entenda, temos uma descrição praticamente exata de como os heptátpodes se comunicam:

Minha nova língua está tomando forma. Ela é orientada à Gestalt, configurando-se de maneira notável para o pensamento, mas impraticável para escrever ou falar. Não seria transcrita na forma de palavras dispostas de forma linear, mas como um ideograma gigante, para ser absolvido inteiro. Tal ideograma poderia transmitir, de modo mais deliberado que uma imagem, o que mil palavras não conseguem. A complexidade de cada ideograma seria proporcional à quantidade de informação contida; eu me divirto com a noção de um ideograma colossal que descreva todo o universo.

Nossa maneira de descrever o universo, como raça humana, ainda é incompleta e pouco eficiente. Nossas maiores ferramentas, a Física e a Matemática, ainda enfrentam enormes desafios para uma descrição de uma Teoria de Tudo. Quando a nossa ferramenta de comunicação maior, a Ciência, puder descrever tudo, talvez possamos dar um passo rumo à fluidez dos heptápodes, desta vez, transcendendo dos livros e das telas para a nossa própria realidade. A história das nossas vidas contará.

A beleza essencial da poesia em “Nem tudo que voa é pássaro”

“Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão.” – Chico Buarque

 

O poeta e o filósofo têm muito em comum. A particularidade mais manifesta entre os dois é a curiosa habilidade de contemplar tudo aquilo que passaria despercebido para a maioria das pessoas. Não que apenas os poetas e os filósofos sejam capazes de observar nas entrelinhas. Mas, ambos exercitam essa visão diferenciada de mundo com tanta frequencia, pra não dizer sempre, que respiram e transpiram admiração.

Particularmente, amo a poesia. Com ela, diz-se tanto, com tão pouco. A mente viaja com apenas algumas linhas de uma setença abstrata. Como disse o filósofo iluminista francês Voltaire, “um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa”.

Enfim, existem tantos motivos pra afirmar que o mundo precisa de poesia. Talvez o principal deles é que a maioria de nós vive de forma automatizada. Os pequenos detalhes raramente são captados por nossos olhos, porque, geralmente, estão voltados para as telas, para as pequenas e grandes telas, espalhadas por todo lado! E, livros como Nem Tudo que Voa é Pássaro, de Valéria Rezende, editora Katzen, nos convidam a olhar para as infinitas possibilidades. Lançando o apelo sutil, embora evidente, de que a vida real não seja desperdiçada.

A obra é uma coletânea de poemas, da qual tive o imenso prazer de escrever a primeira orelha e a sinopse de capa. Os versos da autora Valéria Rezende são, ora doces, ora intensos, com uma beleza ímpar, que faz a gente fluir pelas páginas com o coração inebriado e a imaginação ativa.

A autora, que é doceira, consegue extrair beleza do que poderia ser corriqueiro, de forma alquímica! Como a querida e saudosa Cora Coralina (que também era doceira), transforma o simples em beleza rara. A beleza essencial que o mundo precisa!

 

Sobre a autora:
Valéria Rezende nasceu na Zona Norte do Rio de Janeiro, é casada, tem um casal de filhos e trabalha como doceira. Dança, desenho e literatura sempre fizeram parte da sua vida. Nem tudo que voa é Pássaro é o seu primeiro livro.

 

Trecho do livro:
Depois da Transformação
Liberta
Abstrai o medo de voar
Longe vai
Saboreia o horizonte
Num galanteio
Que chega a hipnotizar”

 

O livro pode ser lido através do site da editora Katzen: https://katzeneditora.com.br/nem-tudo-que-voa-e-passaro

Fontes: – Informações contidas no próprio livro.

Os caminhos tortuosos da vida em “O Poeta e o Guarda-chuva”

“O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”. Fernando Sabino

Há quem defenda que somos frutos do nosso meio e que em nada podemos alterar nosso destino. Mas, basta um olhar um pouco mais atento sobre nossas escolhas passadas, para percebemos o quanto elas tiveram o poder de definir nosso presente.

Essa liberdade para decidir tem um preço. Como toda ação provoca uma reação, uma vez feita a escolha, não escapamos de suas consequências, boas ou ruins. É obvio que nem tudo na vida precisa ser tão definitivo. Algumas decisões erradas podem ser consertadas facilmente, outras, no entanto, criam uma cascata de alterações negativas, o chamado “efeito borboleta”, que pode mudar todo o rumo de uma história. Mas, ainda assim, é possível escapar da tragédia anunciada, promovendo pequenas mudanças ou, ainda, simplesmente, nos deixando ser salvos por algumas circunstâncias.

No livro O Poeta e o Guarda-chuva, de Ricardo Tagliaferro, editora Letramento, o personagem principal trilha caminhos tortuosos, que fatalmente o levarão à derrocada, restando-lhe, apenas, ser salvo pela sua arte, a poesia… Se ele assim permitir.

Na história, Vicent, que foi batizado assim por sua mãe, em homenagem ao pintor holandês Vicent Van Gogh, vive de forma bastante instável. Experimentou grandes amores e se perdeu em todos eles, angustiado com as dúvidas que lhe faziam beirar a insanidade.

O poeta, de temperamento forte e alma cética, tenta se manter dentro dos parâmetros morais e racionais comuns, mas sempre flertando com o lado obscuro, através de seus instintos e paixões, por vezes, incontroláveis. E, diante das dicotomias, é aconselhado por uma voz misteriosa que o acompanha por toda vida, tentando guia-lo pelos melhores caminhos.

Por seu talento, Vicent pode se tornar um grande artista, reconhecido e reverenciado na posteridade. No entanto, por suas decisões, seu fado pode ser a escuridão e o esquecimento.

O Poeta e o Guarda-chuva é um romance incrível, com drama desenvolvido de modo poético, mas muito realista. Seus personagens são críveis e sua história tão sincera, que poderia ser a de qualquer um de nós, responsáveis, que somos, por nossa próprias escolhas.

 

Sobre o autor:
Ricardo Tagliaferro nasceu em Pindamonhangaba (São Paulo), em 1992. Amante de fotografia e da produção editorial, publicou os livros “O poeta e o guarda-chuva”, “100 cartas de uma saudade” e “18 anos de solidão”. Participou de antologias poéticas no Brasil e em Portugal, além de participar como autor e organizador das coletâneas de poesias “Depois das 11” e “Café e Prosa”. Desconcertos é sua estréia no gênero contos.

 

Trecho do livro: “A voz a moça ecoava por toda a praça e Vicent se viu encurralado enquanto a salva de palmas ficava cada vez mais forte, e as pessoas o encaravam com um ar de respeito e admiração. Nascia ali um poeta. Um poeta que, acuado, correu para longe de tudo aquilo e fingiu que estava acordando de um sonho. A arte enfim o escolheu”.

 

O livro pode ser adquirido através do site da editora Letramento:
https://grupoeditorialletramento.com/shop/pre-venda-o-poeta-e-o-guarda-chuva/

 

A criatividade do Steampunk

 

Muito popular entre as décadas de 1980 e 1990, o Steampunk é um subgênero da Ficção Científica, com histórias ambientadas no passado – especialmente na Era Vitoriana. O grande diferencial nesse estilo é justamente a tecnologia: nas histórias em questão, a tecnologia a vapor (steam, em inglês) não foi rapidamente superada, desenvolvendo-se mais do que todas as outras e sendo o grande invento do homem, enquanto a eletricidade fica em segundo plano. Junte isso com um excesso de aparelhos mecanizados e está criado o cenário para essas aventuras. 

Com essas mudanças no curso da humanidade, tudo é afetado. Cientistas e engenheiros criam diversas bugigangas de uso militar ou civil, enquanto a arquitetura das cidades abusa de engrenagens e estruturas metálicas. 

Antes de firmar-se propriamente, o steampunk era apenas um subgênero de um subgênero: suas raízes remetem ao cyberpunk, uma ramificação da ficção científica que engloba universos paralelos futuristas e uma tecnologia muito mais avançada do que a encontrada na época em que se passam as histórias.

 

O gênero Steampunk tem sua origem no universo de ficção científica de autores pioneiros como Júlio Verne, H. P. Lovecraft e Mary Shelley que imaginaram, para o momento histórico que viviam, tecnologias muito à frente de seu tempo. Há quem diga, ainda, que o filme Viagem à  Lua, de Georges Méliès, foi também uma das grandes inspirações do gênero, com seu imenso canhão capaz de catapultar uma nave espacial até a Lua. 

Além disso, várias figuras consagradas da literatura tiveram ao menos um pé no estilo em algumas histórias, como Arthur Conan Doyle (da série Sherlock Holmes), H.G. Wells (de “Guerra dos Mundos”) e Charles Dickens (de “Oliver Twist”). 

Mesmo que as bases mais fortes do steampunk estejam na literatura, o cinema e os games foram essenciais para sua popularização, já que o gênero foi retratado em grandes lançamentos. A grande maioria consiste de filmes famosos, com um elenco cheio de estrelas. Entre longas com temática central ou apenas referências ao steampunk, é possível citar “As Aventuras de James West”, “A Liga Extraordinária”, “Rocketeer”, “De Volta Para o Futuro III” e os recentes “Sucker Punch – Mundo Surreal” e “9 – A Salvação”, além da série “Bioshock” nos games. 

A Turma da Mônica encontra o Menino Maluquinho para uma aventura

Movimento comum na cultura pop, a ideia de juntar personagens de diferentes franquias não é novidade. Em 1976, por exemplo, a DC Comics e a Marvel reuniram, pela primeira vez em HQ, dois de seus heróis mais famosos, Superman e Homem-Aranha, respectivamente. Mais recentemente, a série Sobrenatural teve um inusitado episódio especial em reunião com um clássico dos desenhos animados, Scooby-doo. É quase de se estranhar que tenha demorado tanto para surgir algo como MMMMM – Mônica e Menino Maluquinho na Montanha Mágica (Melhoramentos, 80 páginas, R$ 49), lançada neste ano durante a 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Durante esses anos todos, eu estive sempre com o Ziraldo. Ele participa da minha vida e vice-versa”, comenta Maurício de Sousa, observando que, apesar da proximidade entre os dois artistas, nenhum deles havia pensado em reunir seus personagens antes. “Não me ocorria um crossover, não tinha esse papo com ele. Essa ideia é recente, alguém, que nem sei quem foi, sugeriu”, acrescenta o criador da Turma da Mônica.

Por que não fazer um crossover de personagens fortes, e de um amigo? E aí começaram os preparativos”, recorda o quadrinista, acrescentando que ele e Ziraldo concordaram com a ideia de chamar outro autor para imaginar esse encontro. “Tinha de ser um conhecedor das duas famílias de personagens.” O nome escolhido foi Manuel Filho, experiente autor de livros infanto-juvenis, com mais de 40 obras publicadas e já agraciado com um Prêmio Jabuti.

Embora os personagens das duas franquias sejam imediatamente associados aos quadrinhos, sobretudo os de Mauricio, o Menino Maluquinho surgiu como livro, em 1980, e só depois foi adaptado para as HQs e outras mídias. Tal como a publicação original de Ziraldo, MMMMM – Mônica e Menino Maluquinho na Montanha Mágica é um livro infantil ilustrado.

A história parte de uma premissa similar à de A fantástica fábrica de chocolate:após serem premiados em uma promoção que levariam os ganhadores para conhecer a Montanha Mágica que dá título ao livro, as respectivas turmas viajam até o lugar. De um lado, Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Franjinha e o cãozinho Bidu; do outro, Maluquinho, Julieta, Bocão, Junim e Lúcio. Os dois grupos logo se entrosam e embarcam em uma série de aventuras e competições inusitadas.

Com texto bastante agradável e divertido, além de bonitas ilustrações feitas pela equipe do estúdio de Mauricio de Sousa, MMMMM faz jus à expectativa de um encontro entre esses dois universos. E outras reuniões podem ocorrer no futuro. “Já que começou, é possível que volte a acontecer. Deixa baixar a poeira. Depois, vamos ver. É gostoso fazer isso”, pontua Mauricio.