Super Heróis detestáveis em “The Boys”

“Quem vigia os vigilantes?” é a pergunta que o genial quadrinista Alan Moore já fazia em Watchmen, afinal como se sentir seguro convivendo com seres de habilidades sobre humanas que podem destruir uma cidade em poucas horas? Na ficção a grande maioria deles se tornou digna de confiança, como os heróis da Marvel e da DC. Mas e se não fossem? 

Garth Ennis respondeu a essa dúvida em “The Boys”, série em quadrinhos que foi adaptada para a TV recentemente através da Amazon Prime Vídeo por Seth Rogen, Evan Goldberg e Eric Kripke, com a segunda temporada já confirmada. Ela aborda uma realidade alternativa onde super heróis existem, combatem o crime e são vistos como celebridades, recebendo a mesma adoração e exercendo a mesma influência sobre as massas. O que quase ninguém sabe é que em suas vidas privadas eles são arrogantes, egocêntricos, mimados, superficiais, promíscuos e com um absoluto desdém pelas vidas humanas que salvam.  São financiados por uma empresa que cuida e lucra com a imagem deles, chamada Vought. 

A narrativa começa quando Hughie, o pacato funcionário de uma loja de eletrônicos vê a sua namorada ser acidentalmente pulverizada  por um velocista desatento pertencente ao grupo dos “Sete”, uma versão distorcida da Liga da Justiça que é liderada por Capitão Pátria, uma versão bem escrota do Superman. Ao rapaz é oferecida uma indenização, mas ele recusa. Entra em cena o misterioso Billy Butcher, que sugere uma oportunidade de parceria para revidar e fazê-los pagarem por seus erros. Nessa cruzada anti-heróis também passam a fazer parte o Francês e um corpulento gentil apelidado de Leitinho de Mamãe, além de uma estranha asiática muda que é extremamente letal e possui poder regenerativo.

Enquanto isso a inocente Luz Estelar, recém integrada aos “Sete” vai gradualmente percebendo que nem sempre é uma boa ideia encontrar os heróis que você idolatrou na infância. A sexualização presente no seu uniforme é uma de suas várias decepções, deixando a mesma no dilema de abandonar o sonho que tinha desde criança ou se corromper ao sistema vigente. 

Vale afirmar também que cada personagem no seriado possui a sua motivação psicológica bem construída, permitindo compreender que não há uma apresentação maniqueísta dos mesmos. Cada um tem a sua trajetória muito bem definida e isso é essencial para contar uma boa história como essa. É muito bom ver uma proposta tão bacana como essa sendo explorada em todas as suas vertentes.

A série usa de humor negro para criticar o culto às celebridades e o marketing corporativo, onde as pessoas são influenciadas a adorar seres que secretamente os desdenham, especialmente através do Capitão Pátria, que disfarça muito pouco seu desprezo pelos humanos. O seriado também faz comentários ácidos à mercantilização religiosa, militarismo, assédio sexual, politicagem e racismo. Irreverente e bastante sarcástica, “The Boys” irá estrear a sua segunda temporada dia 04 de setembro na Amazon Prime.

Heróis disfuncionais em “The Umbrella Academy”

Ao longo dos anos que se seguem, várias trajetórias de super heróis já foram contadas e a maioria delas gira em torno de escolhas que tiveram que ser feitas em torno de transformações pessoais na vida de cada pessoa, mas e se essa escolha lhe for negada e o heroísmo tiver sido o único propósito da sua criação? 

A série da Netflix em questão é uma adaptação dos quadrinhos de Gerard Way e do brasileiro Gabriel  e tem início em 1989, onde 43 crianças nasceram de mulheres sem ligação entre si e que engravidaram na noite anterior ao parto. O bilionário Reginald Hargreaves adota sete desses bebês que possuem habilidades especiais e são criados com o único propósito de se tornarem uma equipe de super-heróis.  

Assim nasce a Umbrella Academy e o plano funciona durante um tempo, mesmo após a morte de um deles e o fato uma das crianças não possuir “poderes”, ficando na casa e convivendo à sombra de seus irmãos famosos por conta da mídia que os exaltava. Vale apontar também que o “número cinco”, que possui a habilidade de teletransporte, começa a praticar saltos temporais desobedecendo o seu patriarca e acaba preso num futuro distante apocalíptico, sem a chance de retornar. 

Após o grupo ter se desmanchado durante a adolescência, eles se reúnem já adultos em função da misteriosa morte de Reginald. Para complicar ainda mais, o irmão desaparecido retorna para a sua respectiva linha temporal, avisando seus irmãos que eles têm uma semana para impedir o fim do mundo. 

A história é tratada com muita irreverência e trata de temas como viagem temporal e universos paralelos sem muito didatismo. Os grandes destaques vão para a excelente trilha sonora e o desenvolvimento dos personagens, que tiveram uma infância disfuncional e direcionada para um único propósito.  O mais perto que eles têm de uma figura paterna carinhosa é o chimpanzé Pogo, que fala articuladamente, com andar e roupa de humano, treinado desde cedo para agir como um mordomo do bilionário.

Luther, com seu tamanho descomunal e superforça que contrasta com a sua docilidade. Número cinco retorna aos seus irmãos com mente de adulto e corpo de criança enquanto Klaus, que se comunica com os mortos, inclusive com o falecido membro da equipe, precisa usar drogas para conviver com a sua habilidade. Vanya, por outro lado ressente a sua falta de poderes e sempre se sente inferior em relação a seus irmãos. 

A segunda temporada estreou no último dia 7 de agosto na Netflix. Criativa, divertida e inteligente, sem perder o foco em seus protagonistas, pois é o seu drama que move toda a narrativa. Uma nova perspectiva para um gênero aparentemente tão saturado. 

O visual diferenciado e desafiador de Legion

Legion é uma adaptação dos quadrinhos sobre um personagem ligado ao universo dos X Men. Seu protagonista David é filho de ninguém menos que o Professor Xavier com Gabrielle Haller, uma paciente de um instituto para sobreviventes do Holocausto onde Xavier estava trabalhando. Ele é um mutante nível Ômega, uma espécie rara com poderes que parecem ultrapassar os limites conhecidos. 

Quando a história tem início ele está internado em uma instituição psiquiátrica, pois foi convencido que na verdade é um paciente com esquizofrenia e todas as experiências ligadas às suas habilidades na verdade são alucinações de sua mente. Durante a sua estadia no local ele conhece Sydney Barret, que possui o dom de trocar temporariamente de corpo com outras pessoas através do toque.  

Juntos eles vão gradativamente descobrindo que na verdade são prisioneiros de um grupo denominado Divisão 3, que procura estudar e isolar os mutantes, pois temem o seu impacto no convívio entre os humanos. 

O grande destaque para a série se resume ao seu visual, com sua montagem caleidoscópica aliada a uma trilha sonora idílica, trazendo algo totalmente diferente e ousado no que tange a adaptações de quadrinhos envolvendo super-heróis, especialmente os ligados ao universo dos famosos mutantes.  

A narrativa aparentemente desconexa permite que o espectador tenha empatia pelo protagonista, um ser em constante questionamento existencial que tem extrema dificuldade em separar, passado, presente, futuro, realidade ou fantasia, já que grande parte da história se passa na verdade dentro de sua mente, gerando uma espécie de fusão entre “X Men” e “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”. O resultado final é extremamente interessante e definitivamente traz uma nova leitura para esse universo.

 

A série inclui várias reviravoltas incluindo uma grande quantidade de personagens igualmente fascinantes ao casal protagonista, como um casal de irmãos gêmeos que compartilham do mesmo corpo, um arquiteto de memórias e um homem que vive dentro de um cubo de gelo inserido no plano astral e gosta de poesia beatnik 

É muito bom poder desfrutar de produtos como esse, que desafia o seu público a caminhar por caminhos tão tortuosos e fascinantes, deixando para trás o medo de se perder nessa realidade tão criativa. A terceira e última temporada estreou dia 08 de Julho na Netflix. 

Dia de Rock, Bebê!

Tá, o Dia do Rock foi ontem, mas vamos de clichê que “dia de rock é todo dia” e indicar filmes maravilhosos pra apreciar que nem vinho: gota a gota.

Mas você sabe por que dia 13 de julho é considerado o Dia do Rock? Bom, há 35 anos acontecia, simultaneamente em Londres, Inglaterra, Filadélfia e nos Estados Unidos, o Live Aid, um evento que tinha como objetivo conscientizar a população mundial sobre a drástica pobreza e a fome na Etiópia. Mas, antes desse evento acontecer e a data ficar marcada, o responsável pelo evento, Bob Geldof, procurou diversos amigos, como Bono Vox, The Edge, Paul McCartney, Midge Ure e Boy George, para estarem com ele ajudando a melhorar a situação da Etiópia. Fizeram um single, que alcançou o título de single mais vendido da história do Reino Unido. Para aumentar ainda mais a arrecadação, Bob idealizou e fez acontece o Live Aid.

E, como já estamos falando do Live Aid, começo indicando esse filme maravilhoso sobre a vida de Freddie Mercury. Espero que gostem das dicas <3

 

1) Bohemian Rhapsody (2018) – Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas.

 

2) The Runaways (2010) – Los Angeles, 1975. Joan Jett (Kristen Stewart) tinha o sonho de montar uma banda de rock, formada apenas por mulheres. Ela encontra apoio em Cherrie Currie (Dakota Fanning), que integra a banda, e no empresário Kim Fowley (Michael Shannon). Com ele as integrantes da banda The Runaways levam uma vida desajustada e, apesar de apresentarem um som cru, alcançam o sucesso graças ao talento de Joan e o visual sensual de Cherie.

 

3) Escola do Rock (2004) – Dewey Finn (Jack Black) é um músico que acaba de ser demitido de sua banda. Cheio de dívidas para pagar e sem ter o que fazer, ele aceita dar aulas como professor substituto em uma escola particular de disciplina rígida. Logo Dewey se torna um exemplo para seus alunos, sendo que alguns deles se juntam ao professor para montar uma banda local, sem o conhecimento de seus pais.

 

4) The Dirt: Confissões do Motley Crue (2019) – Considerada uma das mais importantes bandas da história do Glam Metal, Mötley Crüe foi responsável por dar rosto a uma vertente do Rock que, até então, não era muito bem vista pelo público em geral. Vivendo no ápice do estrelato nas décadas de 80 e 90, seus membros vivenciaram todo o glamour de ser um rockstar — até nos momentos mais improváveis.

 

5) Idênticos (2014) – Durante a Grande Depressão nos Estados Unidos, um casal pobre tem dois filhos gêmeos. Incapazes de cuidar das duas crianças, eles aceitam dar um dos garotos à família de um pastor evangélico, cuja esposa é infértil. Os irmãos crescem separados, e têm carreiras muito distintas: enquanto um se torna um grande ícone da música, o outro luta para seguir a carreira religiosa que seu pai adotivo preparou para ele.

 

6) La Bamba (1987) – Richard Stephen Valenzuela, mais conhecido como Ritchie Valens (Lou Diamond Phillips), marcou o final dos anos 50 com uma carreira meteórica, recheada de sucessos e pontuada por uma das canções mais famosas de todos os tempos: “La Bamba”.

 

7) Cadillac Records (2008) – 1947. O Chess Records é um pequeno estúdio musical, localizado na parte sul de Chicago. De início trabalha o blues, tendo como principais ícones Muddy Waters (Jeffrey Wright) e Little Walter (Columbus Short). Chuck Berry (Mos Def), um dos precursores do rock, também gravou nele. Leonard Chess (Adrien Brody) é o produtor do estúdio e tem um ouvido refinado para identificar diferentes tipos de música. Ele acredita que pode ganhar dinheiro ao assinar com talentos ascendentes do meio musical, como o compositor Willie Dixon (Cedric the Entertainer) e Howlin’ Wolf (Eamonn Walker). Leonard os trata como se fosse parte de sua família, o que não é algo simples pela grande quantia gasta para que esta situação aconteça. Quando Chuck Berry é preso, ele decide apostar no talento de outra cantora: Etta James (Beyoncé Knowles).

 

8) The Beach Boys: Uma História de Sucesso (2014) – Brian Wilson (John Cusack) fundou os Beach Boys, uma das bandas mais populares do Estados Unidos nos anos 1960. Mas, ao longo de sua vida, luta com seus problemas mentais, enquanto dependente de uma série de drogas e se isola da sociedade. O Doutor Eugene Landy (Paul Giamatti) torna-se fundamental na recuperação de Brian, além da esposa do músico, Melinda Ledbetter (Elizabeth Banks), quem o ajudou a se reerguer.

 

9) The Rolling Stones: Shine a Light – um filme documentário sobre a banda inglesa The Rolling Stones durante um show da turnê A Bigger Bang Tour, além de apresentar imagens de arquivo da carreira da banda. O documentário inclui também os artistas Christina Aguilera, Jack White e Buddy Guy, cantando uma canção cada junto com os Stones.

 

10) Purple Rain (1984) – The Kid (Prince), um jovem músico, vive uma difícil situação em sua casa, onde precisa enfrentar um contexto abusivo. Além disso, sua carreira na música não anda nada bem: para Kid, The Time, a banda que o acompanha não se esforça o suficiente. Então, determinado a virar o jogo, Kid faz de tudo para dar a volta por cima tanto em sua vida pessoal quanto em sua carreira.

 

11) This Is Spinal Tap (1984) – A banda inglesa de heavy metal Spinal Tap está em turnê pelos Estados Unidos. Um cineasta americano decide filmar a passagem da banda pelo país, mas a turnê não sai como o esperado e algumas apresentações são canceladas.

 

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O abstrato contra o científico em Freud

Sigmund Freud é considerado o “Pai da Psicanálise” por introduzir ao mundo uma nova técnica de tratamento de doentes mentais, usando teorias como ego, superego e inconsciente, Complexo de Édipo, traumas forjados na infância e histeria. Seus métodos não foram prontamente aceitos em função do contexto histórico, que estava mergulhado no Positivismo e no embasamento científico que exigia uma fundamentação em dados e respostas biológicas. 

Ambientada na Viena durante o final do século XIX, a série alemã da Netflix acompanha a juventude do médico em questão, que está fascinado e convencido de que a hipnose é o método perfeito para acessar a mente e assim poder aperfeiçoar o diagnóstico de seus pacientes, mergulhando na raiz de suas enfermidades mentais. Obviamente essa prática não é bem vista pela comunidade médica, que enxerga a mesma como charlatanismo. 

Enquanto pesquisa sobre a técnica em questão ele acaba se envolvendo com a médium Fleur Salomé, que acaba o ajudando a trabalhar com a polícia na investigação de estranhos assassinatos e sequestros, cujos culpados agem como se estivessem sobre uma espécie de transe hipnótico, sem ter a mínima ideia do que realmente estão fazendo. O que o doutor não sabe é que a própria garota está involuntariamente envolvida na conspiração de uma seita com propósitos bastante obscuros. 

A narrativa usa várias referências históricas precisas, como a tensão política do império austro-húngaro, as sessões espíritas(que realmente eram bastante comuns naquele período), além de vários traços característicos do protagonista, como o seu apreço por cocaína e sua formação judaica para ajudar a contar a história, mas não se trata de uma série sobre a vida do notório psicanalista. Ela apenas utiliza alguns elementos com muita licença poética para conduzir o mistério, enquanto aproveita para discutir alguns temas de sua obra, que ocasionalmente vão surgindo no desenrolar do mesmo. 

Vale mencionar a reconstituição histórica perfeita e a trilha sonora que por vezes chega até mesmo a trazer um necessário incômodo, pois é a partir do mesmo que se projeta a busca para decifrar os enigmas propostos. Uma interessante jornada pelos caminhos que levam a lugares inesperados, com perigosas e estranhas motivações que só serão descobertas mais tarde, revelando informações desconhecidas sobre nós mesmos. 

A galhofa intencional em ‘The Tick’

Estamos vivendo em uma época em que os super heróis estão sendo levados demasiadamente a sério, com suas produções em cinema e televisão aparecendo a todo instante o que acaba os afastando do espírito lúdico que tanto fascinava crianças pelo mundo inteiro. Hoje em dia até mesmo os desenhos tem tramas bastante complexas, personagens com elevadas cargas emocionais, então é bacana quando surge uma produção que leva tudo para o lado da zoeira mesmo.

A série com duas temporadas na Amazon Prime é a terceira adaptação de uma criação dos quadrinhos de Bem Edlund em 1986. Seu espírito de paródia já vem desde a sua criação. Primeiro foi uma série animada nos anos 90 e depois uma série de comédia live action em 2001, onde o protagonista era estrelado por Patrick Warburton, que acabou se tornando o produtor executivo da mais recente série.

Em sua primeira aparição o mesmo foge de um hospício, sem nenhuma memória de sua vida anterior. Um homem enorme e extremamente forte vestindo um traje azul à prova de balas com duas pequenas antenas que na verdade são o seu ponto fraco. Seus discursos acalorados sobre a verdade, a justiça e o destino parecem ter sido retirados de um gibi da década de 50. Seu parceiro é Arthur, um homem simples e tímido, apaixonado pelo universo de supers que ganha uma roupa High Tech e precisa a aprender a lidar com toda essa nova realidade ao seu redor.

O humor não é forçado e nasce da estranheza e maluquice do próprio universo apresentado, onde um cachorro super escreve suas memórias e dá autógrafos e palestras, sendo reverenciado por onde vai, um barco com inteligência artificial se apaixona por uma pessoa e Superion, uma óbvia sátira ao Super Homem que começa a se sentir inseguro por causa de haters em suas redes sociais.

Tudo acaba sendo uma grande brincadeira, onde os vilões não sabem explicar os seus planos, as fantasias são coloridas e exageradas, enfim nada faz realmente muito sentido. Grande parte da história envolve o mistério a respeito de uma grande ameaça à humanidade chamada de Terror, que traumatizou Arthur em sua infância e foi dado como morto, embora alguns não acreditem nisso. Uma diversão de qualidade para aqueles que procuram algo mais descontraído, que não exige extensas teorias e conspirações rocambolescas.

 

Filmes que todo fotógrafo precisa assistir

A cinematografia, ou fotografia no cinema, é a captação de imagens por filmagens em películas ou por câmeras digitais. É sobre a “impressão” do que veremos nas telas dos cinemas ou nas TV’s.

“Nós escrevemos histórias com a luz e a escuridão, com o movimento e as cores. É uma linguagem com seu próprio vocabulário e com ilimitadas possibilidades de expressar nossos pensamentos e emoções.” – Vittorio Storaro

O diretor de fotografia controla o processo de construção e registro das imagens. Ele torna real toda a atmosfera e linguagem imaginada na pré-produção por meio de técnicas de iluminação, filtros, lentes, movimentos de câmera, enquadramento, cor, exposição…

Filmes e Séries se tornam nossa fonte de inspiração, seja as cores, enquadramentos, poses, situações, história. Para ajudá-los nas ideias e ainda entretê-los durante essa pandemia, segue algumas dicas de filmes.

1) O Fotógrafo de Mauthausen (2018) – Venceu 4 Prêmios Gaudí, em 2019, que é o equivalente ao Oscar na Catalunha, sendo os prêmios: Melhor Direção de Produção, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo.

 

2) 1917 (2020) – Cinematografia de Roger Deakins. Completamente filmado em plano sequência, com apenas um corte, 1917 ganhou 7 prêmios Bafta, Oscar de melhor fotografia, melhor mixagem de som e melhores efeitos visuais).

 

3) Nunca Deixe de Lembrar (2018) – Cinematografia de Caleb Deschanel. Nunca Deixe de Lembrar” tem um visual bem romântico e bonito, o que combina com o tom da história. O tema do papel da arte dentro do filme é interessante e, algumas vezes, assume a dianteira.”

O filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13, incluindo as indicações para os Oscar’s de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Direção de Fotografia no Oscar 2019. A produção também foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

 

4) O Rei do Show (2017)- Cinematografia de Seamus McGarvey. No 75º Globo de Ouro, a produção foi indicada nas categorias de Melhor Filme – Comédia ou Musical enquanto Jackman foi indicado ao prêmio de Melhor Ator – Comédia ou Musical. A canção “This Is Me” recebeu o Globo de Ouro de Melhor Canção Original e foi indicada ao Óscar de Melhor Canção Original.

 

5) Parasita (2019) – Cinematografia de Kyung-pyo Hong. Ganhou 22 prêmios em 2019, dentre eles a Palma de Ouro no Festival de Cannes e no Buil Film Awards venceu a categoria de melhor fotografia.

 

6) Coringa (2019) – Cinematografia de Lawrence Sher. Foi considerado a experiência cinematográfica mais impactante do ano. Venceu o Oscar nas categorias Melhor Trilha e Melhor Ator.

 

7) Mad Max – Estrada da Fúria (2015) – Cinematografia de John Seale. O filme tem como base do tratamento visual duas cores: laranja e azul, cores opostas no círculo cromático, e os detalhes secundários tem tons de verde e vermelho. Os tons terrosos do deserto tão a sensação de sufocamento, calor, secura, enquanto o contraste do azul dá um alívio pros olhos, uma tranquilidade. O diretor de fotografia, John Seale, deu a dica de usarem várias e várias câmeras, para que conseguissem pegar vários ângulos de uma vez só. (informações vistas no vídeo da Carol Moreira) Venceu 6 prêmios no Oscar em 2016 e 4 prêmios no BAFTA.

 

Infrações e Delitos em Trailer Park Boys

A série de humor canadense em questão é apresentada como um documentário que acompanha o cotidiano de um grupo de moradores do estacionamento de trailers Sunnyvale em Dartmouth, Nova Escócia, Canadá. A narrativa é mais focada em dois ex-presidiários: Ricky, um fumante inveterado que tem um dom inato de se meter em problemas por conta de seu espírito impulsivo e inconsequente ao lado do alcóolatra Julian que é mais ponderado apesar de nunca abandonar o seu copo de bebida.  

Bubbles é um amigo fiel da dupla que nunca foi preso, por isso fica sempre nervoso quando eles se metem em encrenca. Com o seu incomparável óculos de fundo de garrafa e seu amor incondicional por felinos, ao lado de sua perícia em lidar com equipamentos mecânicos e elétricos, ele é um dos personagens mais carismáticos da série. 

O ex-policial Jim Lahey e seu parceiro Randy, que insiste em nunca usar uma camisa, mesmo no inverno são os antagonistas da dupla, já que são os encarregados pela administração do estacionamento, que pertence à ex-mulher do primeiro.

O grande charme da série está no fato de que seus protagonistas veem a cadeia mais como um inconveniente do que uma punição. Tendo em vista as condições de moradia dos mesmos (Ricky mora dentro de um carro), em alguns momentos a prisão parece ser até mais confortável em alguns aspectos. A partir dessa perspectiva, eles não pensam duas vezes antes de montar um negócio ilegal ou até mesmo assaltar uma loja de conveniências para resolver um imprevisto. 

As situações chegam a um nível tão absurdo que a série chegou até mesmo a ganhar uma versão animada, que leva essas loucuras a um novo patamar. A série tem as doze temporadas disponíveis na Netflix, mais a versão animada e dois spin offs que mostram as desventuras do trio nos Estados Unidos e na Europa. 

Adotando um viés politicamente incorreto, a série é uma boa opção para aqueles que buscam uma diversão descompromissada, onde situações condenáveis obviamente acontecem de maneira bastante natural, mas chegam até mesmo a serem compreensíveis dentro daquele contexto, como a menina de nove anos que divide os adesivos de nicotina com o seu pai. Um grupo de pessoas que consegue se manter unida nos momentos mais difíceis e se ajudar, encontrando calor humano mesmo nos instantes mais estranhos. 

O morrer de amor em Prosa Delirante, de Vicente Portella

“Onde aprender a odiar para não morrer de amor?”, indagou, certa feita, Clarice Lispector, demonstrando seu receio às “dores do coração”.

Mas o medo de morrer de amor não é uma preocupação comum a todo literato. O francês Victor Hugo, por exemplo, declarou que “vós, que sofreis porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele”. E, quase o mesmo, validou nosso conterrâneo Mario Quintana, quando afirmou que “tão bom é morrer de amor e continuar vivendo”.

Quando o assunto é mergulhar de cabeça em um grande amor as opiniões são as mais diversas. Mas, é fato que todos carregamos lembranças, sejam de amores consumados, sejam de paixões não correspondidas ou platônicas. Pois, segundo o filósofo Aristóteles, o homem é um animal social, portanto, dado a sentimentos profundos.

No livro Prosa Delirante, de Vicente Portella, Chiado Editora, Eduardo, um sexagenário excêntrico, delira, agoniza e morre em plena praça pública. Não, isso não se trata de um spoiler, o mesmo encontra-se escrito na primeira orelha do livro. Pois, o ponto máximo desta obra não está na morte do protagonista, mas, sim, em sua existência, que foi intensa em todos os sentidos, se entregando às mais tórridas experiências, experimentando amores que iam do terno ao avassalador, tudo em busca da validação de sua existência, de algo que não o deixasse se transformar na multidão de almas mortas, como lhe pareciam os demais.

A obra, escrita em prosa poética, é narrada em primeira pessoa, ao estilo flashback. Através de períodos breves e cadenciados, o autor brinca com a formalidade da língua, expondo uma beleza de texto que seduz lentamente o leitor.

E, enquanto as lembranças desfilam na mente delirante do velho Eduardo, sua história decorre pari passu à história do Brasil, tendo como plano de fundo, as profundas mudanças políticas e sociais que vivenciou, como o mandato de Getúlio Vargas, o regime militar, entre outros acontecimentos históricos.

Sobre suas paixões pregressas, o sexagenário experimenta, nos últimos minutos que lhe restam, cada momento, doce ou amargo. Deixando-nos a sensação de que, independente de sofrer ou não por amor, o mais importante, de fato, é amar.

 

Sobre o autor:
Vicente Portella é escritor, compositor e poeta. Nasceu na cidade de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de janeiro, em 1966. Publicou mais três livros: “Luz da sobra”, “Os Anjos do Pé Sujo”, e “O Parto do Pensamento”, em parceria com Elaine Caldas.
Fanpage: www.facebook.com/prosadelirante

 

Trecho do livro:
Não sei se Amanda era Amanda. Nem me lembro do nome dela, na verdade. Mas aquele rosto, aquela boca, aquela ruga delicada na fronte escancarando a beleza dos olhos, aquela rua da Tijuca. Com certeza era Amanda. E se não era, era a lembrança dela. A miragem.”

 

O livro pode ser adquirido através do site da editora Chiado: https://www.chiadobooks.com/livraria/prosa-delirante