Ditadura e Copa do Mundo em O ano em que meus pais saíram de férias

O ano de 1970 no Brasil foi marcado por uma imensa contradição: enquanto a maioria da população vibrava eufórica com a seleção de futebol no México, outros sofriam nas mãos da Ditadura Militar, vítimas de torturas terríveis por não apoiarem o regime vigente.

Várias películas trataram deste tema, sendo a mais famosa delas intitulada “Pra frente Brasil”, protagonizada por Reginaldo Faria. O filme a seguir trata do mesmo tema, usando uma abordagem mais agridoce e sutil.

A narrativa acompanha Mauro, um mineiro de 12 anos apaixonado por futebol que sai de sua casa em Belo Horizonte para ser deixado aos cuidados do avô em São Paulo, pois seus pais precisam “sair de férias”, quando na verdade estão fugindo do governo.

O garoto não encontra seu anfitrião, que falece momentos antes de sua chegada, sendo acolhido por Shlomo, judeu ortodoxo e vizinho do mesmo. Apesar do estranhamento inicial gerado pelas diferenças culturais, acabam se tornando amigos em meio ao contexto da época que oscilava entre a euforia e a angústia.

A angulação do diretor Cão Hamburger trabalha o ponto de vista do menino, que não compreende direito o que está acontecendo e chega até a vibrar diante de um caminhão do exército.

A trama acompanha de forma bastante lírica sua percepção do novo espaço e das novas amizades, bem como seus contatos iniciais com o sexo oposto. A projeção é bastante eficiente ao retratar a ampliação gradativa do universo do protagonista, suas percepções a respeito de diferentes culturas e pontos de vista.

Neste ponto gostaria de ressaltar a diferença de mentalidade dos adolescentes daquela época para a nossa, bem menos superficial e mais centrada no elemento humano.

O filme trata de forma bastante delicada a complexa situação gerada pela convivência forçada do solitário religioso com o aficionado em futebol. Apesar das divergências ambos compartilham o desejo de retorno do casal que prometeu retornar para reencontrar seu filho quando a Copa do Mundo começasse.

Importante comentar também a bela metáfora entre a situação do garoto com a do goleiro de um time, já que ambos aguardam solitários com ansiedade, pensando sempre na pior situação possível.

A análise do tema desta obra é importante na atual conjuntura, pois muitas vezes o fervor da Copa do Mundo pode acabar enevoando decisões importantes que implicam no futuro do país.

No período em questão terminou desviando a atenção de um problema gravíssimo que acontecia enquanto a multidão vibrava com as jogadas de Pelé e Tostão.

Um filme belíssimo sobre impedir que um contexto histórico violento afete a maturidade de um jovem, preservando sua inocência a respeito dos fatos que se apresentam já que isto implica em projetar uma esperança para gerações futuras, algo importantíssimo no que se refere à nossa realidade.

O filme está disponível no Youtube, neste link: O ano em que meus pais saíram de férias

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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