Drogas e Jornalismo Gonzo em Medo & Delírio

O cineasta Terry Gilliam é famoso por explorar a linha tênue entre fantasia e realidade, o que explica o seu interesse pela obra do jornalista Hunter S. Thompson, o criador do jornalismo gonzo, caracterizado por seu estilo mais autoral e espontâneo, terminando com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção.O narrador abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura profundamente com a ação. Escreveu diversos artigos onde pregou a contracultura e criticou a estrutura reacionária de pensamento da extrema direita norte-americana.

Baseado na obra homônima do mesmo, “Medo e Delírio” acompanha o escritor e seu advogado numa viagem a Las Vegas em 1971 para fazer a cobertura de um rally de motocross patrocinado por um dos hotéis locais. Usando pseudônimos (Raoul Duke e Dr. Gonzo, respectivamente) e embriagados por todos os tipos de entorpecentes conhecidos pelo homem eles viajam em busca do “Sonho Americano”, impulsionado pela ideologia de Timothy Leary, que pregava o uso de drogas para a expansão da consciência.

O filme retrata o efeito massacrante do governo americano na década de 70, que varreu qualquer traço de desconstrução e anarquia tão comuns na década anterior. Em certo momento o protagonista afirma, olhando para a janela “Nós realmente tínhamos a sensação universal de que fazíamos a coisa certa. Estávamos no pique da onda. Hoje, com o tipo certo de olhar, podemos perceber onde foi que a onda rebentou… e recuou”.

A dupla busca permanecer sempre entorpecida, pois não se encontram em sintonia com a realidade vigente. São como fantasmas de uma geração que enxergava o mundo através de uma outra perspectiva. O uso de uma pequena bandeira americana para cheirar éter ilustra bem esse contraste.

A cidade de Las Vegas termina por transformar-se em um personagem na história, ícone da angústia e do desespero por alguma forma de recompensa ao final da jornada, mesmo que isso custe o definhamento do próprio espírito.

O cineasta usa a película para criticar não apenas a ideologia do poder, representada pela convenção de promotores, mas também os entusiastas da “onda do ácido” que não entenderam o conceito e tornaram-se catatônicos e escravos do vício ao invés de usarem o narcótico para evoluir mentalmente.

A narrativa por vezes desconexa e a câmera cambaleante funcionam perfeitamente para criar a ambientação, aproximando o espectador da mente confusa do protagonista. Os flashbacks surgem como lampejos de memória tentando construir a trajetória de alguém que viu sua utopia social desmoronar, tanto que Hunter Thompson se suicidou com um tiro de espingarda na cabeça em 20 de fevereiro de 2005. Ele deixou um bilhete em que se mostrava deprimido e sofrendo de terríveis dores após uma cirurgia na região da bacia.

A fotografia e a trilha sonora pontuam de forma perfeita, ao lado das interpretações impagáveis de Johnny Depp e Benício Del Toro como a dupla que busca as drogas para encontrar algum tipo de explicação para a opressão moralizante que tinha tomado conta do país naquela época.

Interessante comentar que apesar de todo o contexto trágico apresentado, o cineasta montou um filme leve, onde o contraste e o humor emergem de forma natural nas situações apresentadas. O triste é notar que a grande maioria enxerga essa projeção como um filme de comédia, quando há bem mais a ser percebido. A sutileza pode causar esse efeito.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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