Identidade Nacional X Talibã em O Caçador de Pipas

O Talibã é um movimento que se propunha a  implantar a lei islâmica no Afeganistão, desagregado pela queda do regime comunista.  Era composto por  jovens treinados em   escolas religiosas rurais,  surgidas  ao longo da década de 1980. Estas escolas  haviam sido  berço de militantes que lutaram contra a ocupação soviética no país. Seu governo tem-se caracterizado pela aplicação rígida de seu código religioso. Dois grandes filmes foram feitos retratando esta realidade, o belíssimo “Osama” e a película em questão.

Baseado no livro de Khaled Hosseini, o filme acompanha a trajetória de Amir Jan, desde sua infância abastada em Cabul, onde passava os dias junto a seu servo e amigo Hassan. Sua índole passiva e introvertida sempre contrastou com a coragem e a energia do companheiro, gerando um ressentimento que é incrementado pela lealdade cega do mesmo. Apesar de tudo, são visíveis o carinho e respeito que um nutre pelo outro.

A invasão soviética no território faz com que o protagonista emigre para os Estados Unidos junto ao pai, onde consegue fazer carreira como escritor. Anos mais tarde, termina descobrindo segredos sobre sua família, sendo forçado a retornar à cidade natal, agora governada pelo regime do Talibã, para resgatar um parente que não conhecia.

O perfil psicológico dos personagens é bastante trabalhado, especialmente o do protagonista que busca a qualquer custo conquistar o orgulho e o respeito de seu pai e se sente culpado pela morte da mãe, já que a mesma morreu no parto.

A competição de pipas (onde o vencedor deve eliminar as adversárias usando cerol, uma mistura de cola de madeira com vidro moído na linha) acentua o contraste entre os dois tempos históricos ilustrados na película: enquanto o primeiro é marcado por uma inocência trágica em certos aspectos, a contemporaneidade denota uma região completamente destituída de qualquer resquício de humanidade, impacto que pode ser claramente percebido nas diferenças arquitetônicas dos dois períodos.

Um aspecto do filme que merece ser ressaltado é a fidelidade à língua original da região, o que é importante num filme que tem um apelo tão forte para a ancestralidade, dignidade e nacionalidade. O Talibã afirma estar fazendo o que é melhor para o seu país, quando na verdade é o contrário.

A pipa pode ser interpretada como uma metáfora do espírito humano em meio à série de distorções e contradições que constituem nossa pós-modernidade. O pensamento poético e independente trafegando com dificuldade em meio aos contratempos históricos e sociais.

É interessante perceber também a evolução dos personagens ao longo da projeção. Amir, que era covarde e passivo, buscando sempre a fuga da realidade através da ficção torna-se alguém preocupado com a realidade de seu país, escrevendo livros que relatam as tragédias em sua nação, enquanto seu pai, que foi sempre uma figura distante durante sua infância, passa a desempenhar um papel mais participativo, chegando inclusive a apoiar a carreira do filho, mesmo que não a aprovasse.

O diretor Marc Forster realizou um filme belíssimo usando uma narrativa lenta, criando uma atmosfera idílica com bastante cuidado para que sua degradação fosse digerida com a devida atenção, sensibilizando o espectador para a perda de identidade de um povo.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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