O charme da rebeldia em “La Casa de Papel”

Já dizia Steve Jobs que “é muito mais divertido ser pirata do que se alistar na Marinha”. Existe um estranho charme na contravenção, tanto que existem diversos criminosos que exalam um carisma indefinível. Foras da Lei que caíram nas graças do público porque suas atitudes desafiavam o status quo de determinado contexto, sejam os mafiosos durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos ou até mesmo os cangaceiros no Brasil. Seus delitos levavam ao questionamento da ordem institucionalizada. Segundo o escritor Oscar Wilde, “A rebeldia aos olhos de todo aquele que tenha lido um pouco de história, é a virtude original do homem.” 

A série espanhola da Netflix que agora está em sua terceira temporada acompanha um grupo de desajustados que se reúnem em torno da misteriosa figura do Professor, o qual possui um plano infalível para executar um roubo histórico na Casa da Moeda da Espanha. Para isso ele os reuniu em uma casa de campo onde ficaram cinco meses confinados estudando cada movimento e possível desdobramento de cada movimento da polícia ou deles mesmos. Tudo foi tão meticulosamente estudado que chega a impressionar até mesmo aqueles que acreditam desvendar cada desfecho.

 

A tensão está sempre presente, pois a história já começa no assalto e a partir daí vamos conhecendo melhor a história a partir dos flashbacks alternados que se sucedem. Assim temos esse estranho grupo de pessoas que foram reunidas por suas respectivas habilidades, mas não se conhecem pelo nome de batismo, pois cada um recebeu o nome de uma cidade a partir do momento em que pisaram na casa. Um não conhece o “currículo” do outro, por assim dizer. Além disso, temos diferentes personalidades que geram resultados adversos durante o roubo e antes dele, já que as respectivas motivações são variadas e subjetivas. 

O bando liderado pelo Professor que monitora tudo pelo lado de fora é formado pela intempestiva Tóquio, o passional Rio, o bem humorado Denver e seu pai Moscou, o calado Oslo, o gigante dócil Helsinki, a carismática Nairóbi e o pragmático Berlim, que foi instituído como o segundo no comando da operação, controlando todos de dentro do local. Vale apontar a excelente dinâmica dos mesmos entre si e com os reféns perdidos no meio do fogo cruzado dos bandidos com a polícia, já que sua desorientação os leva a seguir as ideias do diretor da instalação, que procura organizar uma fuga em massa dos prisioneiros. 

 

Do lado de fora da Casa da Moeda acompanhamos os esforços da polícia em resolver aquela situação o mais rápido possível, enquanto tentam desvendar a identidade do organizador de tudo aquilo, que previu todos os seus movimentos, como num jogo de xadrez ensaiado, menos se envolver romanticamente com a policial encarregada para prender os assaltantes. Todos esses conflitos internos e externos levam o público a assistir a série na beira do assento, movidos pela imprevisibilidade que pode ser comprometida por esse acaso, pois o gênio do crime agora está passível de cometer algum deslize movido pelo coração e não pelo cérebro. 

O carisma ideológico do líder eleva o simbolismo do evento planejado, que pretende criar uma comoção pública em torno do grupo de macacão vermelho e usando a máscara emblemática de Salvador Dali. A música “Bella Ciao”, ícone da resistência italiana ao fascismo de Mussolini e que se tornou um hino da resistência durante a Segunda Guerra Mundial, aqui ganha força contra o sistema financeiro instituído que de certa forma está sendo contestado nessa ação conjunta.  

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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