Poesia milenar asiática em O clã das Adagas Voadoras

A cultura milenar asiática é riquíssima, tendo rendido belíssimas histórias contadas através das formas mais variadas como músicas, livros e filmes. Assim como ocorre com os gregos e mouros, suas narrativas sempre usam a tragédia como pano de fundo para ilustrar a natureza humana querendo transcender um código de regras previamente estabelecido. A seguinte projeção acompanha esta linha de pensamento.

Ambientada na China em 859, mostra a Dinastia Tang em sua fase decadente, onde a corrupção era uma constante e o povo sofria com os abusos de um governante fraco e incompetente. Neste contexto surge a organização secreta que leva o nome do título cujo objetivo é ajudar os mais desfavorecidos lesando os donos do poder. Seu líder foi assassinado, mas seu lugar foi tomado por um líder novo e misterioso.

A história tem início quando dois soldados têm um plano para descobrir o esconderijo do grupo rebelde e render o novo chefe, prendendo uma guerreira cega que trabalhava escondida em um bordel da região para depois simular sua fuga e deixar que ela conduzisse o caminho inadvertidamente, acompanhada por um deles que estaria disfarçado de andarilho.

A estratégia funciona, mas enquanto o casal segue sua jornada em direção à base da confraria, terminam se envolvendo romanticamente, arriscando desta forma os dois lados envolvidos na disputa.

O cineasta Zhang Yimou conduz a história de forma dinâmica e poética, revelando as pequenas reviravoltas que vão surgindo ao longo da trama. A beleza do enquadramento das imagens merece a devida atenção, especialmente nas seqüências de danças e lutas.

O conceito de cegueira é interessante se analisarmos o relacionamento amoroso na projeção, onde ninguém é realmente honesto com o próximo. É a essência da tragédia shakespeariana onde todos mentem e são testados.

A deficiência visual da protagonista define sua personalidade, realçando sua sensibilidade auditiva e permitindo que a subestimação dos outros seja sua ferramenta de dominação. Neste ponto faço uma menção especial para a bela atriz Zhang Ziyi, cuja performance mostra uma Xiao Mei dividida entre a fidelidade à sua organização e o crescente amor por aquele que a acompanha e está sempre salvando sua vida.

O enlace do casal é tratado de forma fluida e o estreitamento da relação vem das adversidades que enfrentam juntos e a sensação de segurança criada pela idéia de que tudo não passa de uma encenação termina surtindo o efeito contrário, tornando ambos vulneráveis.

A película em questão trata da imprevisibilidade do amor, mas cuida bastante de como o excesso de confiança pode vir a ser nossa maior fraqueza. O cinema oriental costuma tratar este tema com bastante carinho, tomando como exemplo várias obras-primas do cineasta japonês Akira Kurosawa, dentre elas “Trono Manchado de Sangue”, “Ran” e “Os sete samurais.”.

Um filme belíssimo que resgata toda a beleza ancestral da cultura chinesa, realçando traços estéticos e emocionais há muito soterrados pelo pós-modernismo funcional e pragmático. Que o folclore seja o espectro da identidade de seu país, a fim de que a beleza, embora referente a uma particularidade regional, possa ser projetada universalmente, tal como aconteceu com esta obra.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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