A dimensão paralela da literatura em “Os Livros Que Devoraram Meu Pai”

 
“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda.” Sigmund Freud
 
 
A literatura não é apenas uma “imitação” da realidade. Ouso dizer que se trata de um mundo à parte, ou dimensão paralela, que conseguimos acessar através da leitura de um bom livro, capaz de assumir o papel de portal, escancarado, permitindo o acesso a essas outras infinitas terras.
 
Em Os Livros Que Devoraram Meu Pai, de Afonso Cruz, editora Leya, a possibilidade de acessar esse universo distinto foi desenvolvida de modo extraordinário. Na história, o entediado escriturário Vivaldo Bonfim mergulha, em segredo, nos seus livros preferidos durante o expediente na repartição financeira onde trabalha. Até que, literalmente, desaparece em uma das obras, um exemplar de A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells.
 
Seu filho, Elias Bonfim, nasce pouco tempo depois do insólito incidente. E, até seu aniversário de doze anos, acredita que o mesmo havia morrido de um ataque cardíaco. Era o que todos diziam, ou preferiam acreditar. Pelo menos era mais aceitável que a história verdadeira, que é contada, finalmente, pela sua avó paterna ao entregar-lhe a chave do sótão que era de Vivaldo, repleto de seus livros favoritos, inclusive, A Ilha do Dr. Moreau. Elias, então, inicia uma busca por pistas sobre o paradeiro de seu pai, em uma jornada incrível entre livros clássicos, personagens inesquecíveis e a presença amiga do cachorro Prendick que surgiu de forma inusitada em suas incursões literárias.
 
Em paralelo com sua busca pelo pai, Elias Bonfim narra sua amizade com Bombo – menino espirituoso que sofre de diabetes e aprecia contos chineses – e sua paixão platônica por Beatriz que, segundo Elias, era a menina mais linda da escola, com o “sorriso escrito à mão”.
 
A versão da obra pela editora Leya traz algumas ilustrações que delimitam os capítulos. Desenvolvidas por Mariana Newlands, são monocromáticas, singelas e divertidas.
 
 
A história, perfeita para quem ama livros, vai deixando pequenas pistas e referências ao longo do caminho. Cuidado, apenas, para não mergulhar de vez no mundo dos livros, assim como aconteceu com Vivaldo Bonfim.
 
 
Sobre o autor
Afonso Cruz nasceu em Fiqueira da Foz, Portugal, em 1971. Além de escritor premiado, também é ilustrador, produtor de filmes de animação e compositor. Escreveu outros quatro livros: A Carne de Deus, Enciclopédia da Estória Universal, A Contradição Humana e A Boneca de Kokoschka.
 
 
Sobre a ilustradora
Mariana Newlands é designer gráfica, ilustradora e fotógrafa. Estudou Desenho Industrial na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Design Gráfico e Computação Gráfica na Parsons School of Design, em Nova York. Formou-se mestre em literatura, também na PUC, escrevendo sobre bibliomania.
 
 
Curiosidades
Afonso Cruz recebeu os seguintes prêmios literários: Conto Camilo Castelo Branco (2010), Autores SPA/RTP (2011), White Ravens (2011), Menção Especial do Prêmio Nacional de Ilustração (2011) e Prêmio Literário Maria Rosa Colaço (2009);
Afonso Cruz é membro da banda The Soaked Lamb.
 
 
 
Trecho do livro
“Minha avó diz que isso pode acontecer quando nos concentramos verdadeiramente no que lemos. Podemos adentrar um livro, como aconteceu com meu pai. É um processo tão simples quanto nos debruçarmos em uma varanda, só que muito menos perigoso, apesar de ser uma queda de vários andares. Sim, porque a leitura das coisas pode ter muitos andares. Soube pela minha avó que um tal Orígenes, por exemplo, dizia existir uma primeira leitura, superficial, e outras mais profundas, alegóricas. Não vou me alongar nesse tema, basta saber que um bom livro deve ter mais do que uma camada, deve ser um prédio de vários andares. O rés do chão não serve à literatura. É adequado para a construção civil, é cômodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas, para a literatura, são necessários andares empilhados uns sobre os outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letra acima.”
 
 
Fonte
– Informações contidas no próprio livro.

Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente

“Só sofro com toda a força do mundo porque amo com a intensidade de um cometa.” Nando Reis
 
Costumo dizer que livros são seres individuais, repletos de energia e personalidade e que a essência deles, curiosamente, pode ser bem diferente daquela que o próprio autor pensou imprimir ao escrevê-lo, pois, depende muito de como cada leitor irá abarcar sua mensagem. De modo geral, todos os livros, de todos os gêneros, têm algo a nos dizer, sendo sua qualidade subjetiva demais para ser mensurada.
 
Nesse sentido, alguns livros nos marcam pela delicadeza de seu conteúdo, outros pela sua carga dramática, assim como Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente, de Igor Pires e o coletivo TCD, editora Globo (selo Alt), que traz como proposta o abraço empático através de textos carregados de emoção e profundidade.
 
Não se trata, no entanto, de um livro de autoajuda. Os textos são viscerais, transbordam dor e, muitas vezes, melancolia. Mas a proposta é justamente expor o quanto é, geralmente, doloroso viver e, mais ainda, o quanto é necessário expurgar nossos sentimentos.
 
Criada a partir da fanpage homônima que já fazia grande sucesso no Facebook, trata-se de uma coletânea de textos sobre as relações humanas, dividido em quatro capítulos. Suas ilustrações, profundamente tocantes, foram produzidas pela artista plástica Anália Moraes. São em preto e branco e compõem a experiência sensorial, conforme a natureza da obra.
 
O primeiro capítulo, intitulado Pra quando você se esquecer de mim, fala sobre relacionamentos que chegam ao fim, deixando saudades e marcas profundas.
 
 
O segundo capítulo, A memória é uma pele, fala sobre solidão, resignação e amor próprio.
 
 
O terceiro capítulo, Pra você não se esquecer de sentir, é um misto dos temas anteriores.
 
 
O quarto capítulo, A felicidade é uma arma quente, finaliza com reconstruções e recomeços.
 
Enfim, é uma obra para pessoas intensas, para “aqueles que não têm medo ou vergonha de presenciarem o sentimento tomando conta de cada centímetro da pele, das tripas, coração”, como descreve o próprio autor.
 
 
 
 
Sobre o autor
Igor Pires é paulista, formado em Publicidade e Propaganda, e cursa Jornalismo na UFRJ. Mais informações através do Instagram: @heyaigu
 
 
 
Sobre a ilustradora
Anália Moraes nasceu em São Paulo, fez o curso técnico em Comunicação Visual e é graduanda em Artes Plásticas na Escola Panamericana de Arte e Design. É co-fundadora e artista residente da Casa Dobra. Mais informações através do Instagram: @moraes_a
 
 
 
Sobre o coletivo TCD
A TCD é um coletivo formado por pessoas de diversas áreas, comprometidas com trabalhos autorais que abordam temas cotidianos, incluindo experiências pessoais e relatos extremamente íntimos e complexos. Mais informações:
 
 
 
Trecho do Livro
“eu sei que doeu em você
porque eu fui a única pessoa
que olhou dentro do seu olho
e pediu calma.
 
porque todas as outras
pessoas passaram por você e
pediram pressa.”
 
 
 
Curiosidades
– Em todo o livro, com exceção dos textos que delimitam os capítulos, nenhuma frase se inicia com a letra maiúscula;
– A ilustradora Anália Moraes também é ceramista;
– TCD foi o livro nacional de não ficção mais vendido em 2018.
 
 
Fontes
– Informações contidas no próprio livro.
 

A Megera Domada em Cordel

Literatura de cordel é um gênero literário, de origem portuguesa, trazido ao Brasil pelos colonizadores, que se popularizou, principalmente, na Região Nordeste. Escrito em rima e impresso em pequenos folhetos, a maioria é ilustrada com estampadas produzidas por carimbos de madeira, as xilogravuras, também utilizadas nas capas. Seu nome tem origem na forma como inicialmente os livretos eram expostos para venda, pendurados em cordas ou cordéis.

Advindo de relatos orais, o cordel costuma contar causos populares, lendas e novelas. Uma peculiaridade deste tipo de gênero é que suas histórias têm como ponto essencial uma questão que deve ser resolvida com a astúcia do personagem. A grande sacada é que muitas obras clássicas podem ser recontadas através dessa linguagem. Como aconteceu com “A Megera Domada”, de William Shakspeare, que foi transformada em cordel como resultado da adaptação do poeta e folclorista baiano Marco Haurélio.

A obra do dramaturgo inglês, que traz o corajoso Petruchio, que se dispõe a casar-se com a fera Catarina, filha primogênita do rico senhor Batista, recebeu uma adaptação genial. Algumas modificações do texto foram necessárias para uma melhor adequação ao estilo nacional. Petruchio, por exemplo, virou Petrúquio e alguns termos bem regionais foram inseridos ao contexto, sem modificar, é claro, o argumento da história original.

“- Vou fazê-lo se agitar
Cão sarnento, condenado!
Vejo ali um tamborete,
Um móvel apropriado,
Para arrebentar-lhe o quengo
E, assim, deixa-lo agitado.”

As ilustrações do cearese Klévisson Viana, por sua vez, simulam primorosamene as xilogravuras, ajudando a compor essa mistura rica e divertida entre o nordeste e a Itália renascentista.

 

 

Produzido pela editora “Nova Alexandria”, o livro faz parte da coleção “Clássicos do Cordel”, que consta com diversos outros títulos adaptados da literatura nacional e internacional. A ideia é magnifica, especialmente porque facilita o acesso aos livros clássicos, dando essa roupagem mais lúdica e brasileira.

 

Fontes:
– http://www.casadaxilogravura.com.br/xilo.html
– https://www.estudopratico.com.br/literatura-de-cordel
– http://marcohaurelio.blogspot.com.br
– http://fotolog.terra.com.br/klevisson_viana