Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente

“Só sofro com toda a força do mundo porque amo com a intensidade de um cometa.” Nando Reis
 
Costumo dizer que livros são seres individuais, repletos de energia e personalidade e que a essência deles, curiosamente, pode ser bem diferente daquela que o próprio autor pensou imprimir ao escrevê-lo, pois, depende muito de como cada leitor irá abarcar sua mensagem. De modo geral, todos os livros, de todos os gêneros, têm algo a nos dizer, sendo sua qualidade subjetiva demais para ser mensurada.
 
Nesse sentido, alguns livros nos marcam pela delicadeza de seu conteúdo, outros pela sua carga dramática, assim como Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente, de Igor Pires e o coletivo TCD, editora Globo (selo Alt), que traz como proposta o abraço empático através de textos carregados de emoção e profundidade.
 
Não se trata, no entanto, de um livro de autoajuda. Os textos são viscerais, transbordam dor e, muitas vezes, melancolia. Mas a proposta é justamente expor o quanto é, geralmente, doloroso viver e, mais ainda, o quanto é necessário expurgar nossos sentimentos.
 
Criada a partir da fanpage homônima que já fazia grande sucesso no Facebook, trata-se de uma coletânea de textos sobre as relações humanas, dividido em quatro capítulos. Suas ilustrações, profundamente tocantes, foram produzidas pela artista plástica Anália Moraes. São em preto e branco e compõem a experiência sensorial, conforme a natureza da obra.
 
O primeiro capítulo, intitulado Pra quando você se esquecer de mim, fala sobre relacionamentos que chegam ao fim, deixando saudades e marcas profundas.
 
 
O segundo capítulo, A memória é uma pele, fala sobre solidão, resignação e amor próprio.
 
 
O terceiro capítulo, Pra você não se esquecer de sentir, é um misto dos temas anteriores.
 
 
O quarto capítulo, A felicidade é uma arma quente, finaliza com reconstruções e recomeços.
 
Enfim, é uma obra para pessoas intensas, para “aqueles que não têm medo ou vergonha de presenciarem o sentimento tomando conta de cada centímetro da pele, das tripas, coração”, como descreve o próprio autor.
 
 
 
 
Sobre o autor
Igor Pires é paulista, formado em Publicidade e Propaganda, e cursa Jornalismo na UFRJ. Mais informações através do Instagram: @heyaigu
 
 
 
Sobre a ilustradora
Anália Moraes nasceu em São Paulo, fez o curso técnico em Comunicação Visual e é graduanda em Artes Plásticas na Escola Panamericana de Arte e Design. É co-fundadora e artista residente da Casa Dobra. Mais informações através do Instagram: @moraes_a
 
 
 
Sobre o coletivo TCD
A TCD é um coletivo formado por pessoas de diversas áreas, comprometidas com trabalhos autorais que abordam temas cotidianos, incluindo experiências pessoais e relatos extremamente íntimos e complexos. Mais informações:
 
 
 
Trecho do Livro
“eu sei que doeu em você
porque eu fui a única pessoa
que olhou dentro do seu olho
e pediu calma.
 
porque todas as outras
pessoas passaram por você e
pediram pressa.”
 
 
 
Curiosidades
– Em todo o livro, com exceção dos textos que delimitam os capítulos, nenhuma frase se inicia com a letra maiúscula;
– A ilustradora Anália Moraes também é ceramista;
– TCD foi o livro nacional de não ficção mais vendido em 2018.
 
 
Fontes
– Informações contidas no próprio livro.
 

A Megera Domada em Cordel

Literatura de cordel é um gênero literário, de origem portuguesa, trazido ao Brasil pelos colonizadores, que se popularizou, principalmente, na Região Nordeste. Escrito em rima e impresso em pequenos folhetos, a maioria é ilustrada com estampadas produzidas por carimbos de madeira, as xilogravuras, também utilizadas nas capas. Seu nome tem origem na forma como inicialmente os livretos eram expostos para venda, pendurados em cordas ou cordéis.

Advindo de relatos orais, o cordel costuma contar causos populares, lendas e novelas. Uma peculiaridade deste tipo de gênero é que suas histórias têm como ponto essencial uma questão que deve ser resolvida com a astúcia do personagem. A grande sacada é que muitas obras clássicas podem ser recontadas através dessa linguagem. Como aconteceu com “A Megera Domada”, de William Shakspeare, que foi transformada em cordel como resultado da adaptação do poeta e folclorista baiano Marco Haurélio.

A obra do dramaturgo inglês, que traz o corajoso Petruchio, que se dispõe a casar-se com a fera Catarina, filha primogênita do rico senhor Batista, recebeu uma adaptação genial. Algumas modificações do texto foram necessárias para uma melhor adequação ao estilo nacional. Petruchio, por exemplo, virou Petrúquio e alguns termos bem regionais foram inseridos ao contexto, sem modificar, é claro, o argumento da história original.

“- Vou fazê-lo se agitar
Cão sarnento, condenado!
Vejo ali um tamborete,
Um móvel apropriado,
Para arrebentar-lhe o quengo
E, assim, deixa-lo agitado.”

As ilustrações do cearese Klévisson Viana, por sua vez, simulam primorosamene as xilogravuras, ajudando a compor essa mistura rica e divertida entre o nordeste e a Itália renascentista.

 

 

Produzido pela editora “Nova Alexandria”, o livro faz parte da coleção “Clássicos do Cordel”, que consta com diversos outros títulos adaptados da literatura nacional e internacional. A ideia é magnifica, especialmente porque facilita o acesso aos livros clássicos, dando essa roupagem mais lúdica e brasileira.

 

Fontes:
– http://www.casadaxilogravura.com.br/xilo.html
– https://www.estudopratico.com.br/literatura-de-cordel
– http://marcohaurelio.blogspot.com.br
– http://fotolog.terra.com.br/klevisson_viana

A Fragilidade Humana em As Histórias de Titãs Quebradiços

Há muito tempo o homem descobriu que a arte não é apenas uma forma de expressão, mas, também, um perfeito refúgio, um meio de expor seus medos e tratar feridas emocionais, sublimando suas dores mais profundas e obscuras.

No livro “Histórias de Titãs Quebradiços”, de Gilson Pessoa, editora Autografia, personagens letrados, abastados de conhecimento e saber, teoricamente bem preparados para vida, expõem toda sua fragilidade cotidiana, sendo apenas – parafraseando Nietzsche – “humanos demasiadamente humanos”.

A obra traz histórias interessantes que desfilam existências e conflitos, com os quais, impressionantemente, nos reconhecemos. Conflitos como a timidez excessiva da alma romântica do personagem Salvador Alheiras que, de repente, se viu apaixonado por Suzana e que, ao primeiro encontro, não conseguiu balbuciar uma palavra sequer por horas.
Sua mente vivia presa em um labirinto por tempo integral, onde ele sempre esteve acostumado a atravessar sozinho, tomando decisões que afetariam somente o seu destino.
A narrativa segue um estilo envolvente, de cadência dinâmica. O autor optou por desenvolver uma conexão direta entre os contos, sem a utilização de capítulos. Ou seja, ao desfecho de cada história, a narrativa nos conduz, imediatamente, ao início da seguinte, sem perder o fio da meada.

As ilustrações, feitas por Rômulo Tavares Teixeira, são monocromáticas e conferem um “tom” especialmente jovial ao livro.

A musicalidade é outro componente acertado nesta obra. Sua narrativa bem desenvolvida consegue, com graça e desenvoltura, reportar, ao nosso imaginário, as músicas aludidas em cada cena. Como no momento em que os personagens Alberto e Lisandra se entregam ao tango de Carlos Gardel, embriagados de álcool e paixão.

Assim, finalizamos o livro com a nítida sensação de que ainda há muito a ser descoberto sobre esses tipos tão enigmáticos e suas experiências que se alinham e desalinham no palco da vida de cada um.

“Histórias de Titãs Quebradiços” pode ser adquirido pela Livraria Cultura online.