Tensão latente em O iluminado

A película a seguir, assim como “Chinatown” tem sido tema de inúmeros projetos de pesquisa na área de cinema, tal é seu refinamento, seja na trilha sonora ou na montagem. Além disso, de acordo com um grupo de especialistas, engloba todos os elementos necessários para um bom filme de terror e suspense.

Adaptado do romance homônimo de Stephen King, a obra narra a história de Jack Torrance, que consegue o emprego de zelador do hotel Overlook durante o período em que ele fecha suas portas a visitantes por causa do inverno rigoroso.

Ele se muda para lá com a esposa e o filho Danny, que possui um estranho dom de vidência, manifestado através de conversas com seu amigo imaginário chamado Tony.

A seqüência inicial já mostra o tom do filme, onde uma câmera aérea acompanha o carro do protagonista até sua chegada ao hotel, reforçando a idéia de isolamento a que o trio estará submetido. Esse clima é mantido durante todo o filme e o diretor perfeccionista Stanley Kubrick faz questão de imprimi-lo em cada take, usando planos fundos, a fim de acentuar o contraste dos personagens naquele ambiente vasto e sombrio.

O livro traz toda a história do local assombrado, construído em 1907, em cima de um cemitério indígena. Ao longo dos anos, foi visitado por muitas celebridades, sendo famoso por seu glamour e sofisticação, mas com o passar do tempo, eventos terríveis como assassinatos e depravações diversas aconteceram e a essência de tais atos terminou impregnada em suas paredes, o que torna a simples presença num local como esse assustadora.

Ao longo da estadia, Jack, que já possui uma índole violenta vai sendo consumido pela essência do mesmo e gradativamente transforma-se em uma ameaça para sua esposa e seu filho.

O cineasta soube trazer um tom mais realista para a história, enfocando o clima de tensão causado pelo enclausuramento ao contrário da obra literária que por sua vez abusou dos elementos sobrenaturais na trama. Kubrick manteve a essência da obra, mas optou pela sutileza, o que revela ser uma decisão mais acertada, já que o poder da sugestão é bem mais eficaz nesse gênero.

A montagem cuidadosamente trabalhada é definitivamente um dos grandes destaques do filme, com destaque para as cenas que mostram Danny andando de triciclo pelo hotel, revelando imponência do mesmo e o aspecto sombrio que vai emergindo “de suas entranhas”.

O elenco dispensa comentários. Jack Nicholson, mais uma vez inspiradíssimo, mostra um Jack Torrance que ama sua família, mas termina seduzido pelos fantasmas do hotel, enquanto o jovem Danny Lloyd surpreende ao interpretar tão bem um personagem incrivelmente complexo, aterrorizado com seu próprio dom e que consegue raciocinar até mesmo nas situações de grande risco.

“O iluminado” também pode ser visto como uma análise do confronto com demônios interiores, assim como já foi referenciado no ensaio sobre “A Janela Secreta”, adaptação do mesmo autor. Quem mais sofre com este conflito é o escritor, pois como afirma o cineasta francês Jean Cocteau, é aquele que tem necessidade de compartilhar sua solidão.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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