Terror e conspirações em Do Inferno

Jack, o Estripador foi um assassino de prostitutas na Inglaterra durante o final do século XIX. Sua identidade nunca foi descoberta, dando margem a inúmeras especulações e transformando o autor dos crimes em um personagem icônico, símbolo da decadência da época.

O cartunista britânico Alan Moore usou essa temática para criar a novela gráfica “Do Inferno”, pois segundo ele “a década de 1880, com sua pobreza miserável e promíscua incríveis e todas aquelas tendências em arte, ciência, política e pensamento, formou uma espécie de vórtice. Ao menos em minha interpretação da situação, em termos simbólicos, os assassinatos do Estripador, ocorrendo quando ocorreram e onde ocorreram, foram quase que um resumo apocalíptico daqueles tempos vitorianos. E prefiguraram muitos dos horrores do Século XX. Um apocalipse em miniatura a gerar os maiores que se avizinhavam”

A seguinte película é uma adaptação desta obra, cuja narrativa acompanha o inspetor Abberline e o sargento Peter Godley em sua investigação do assassinato de várias prostitutas em um bairro pobre de Londres.

O filme abre com uma citação do próprio assassino: “um dia olharão para trás e dirão que dei à luz o século XX”, o que marca o seu caráter emblemático.

À medida que a inquirição avança, a trajetória vai se tornando cada vez mais sombria e vários segredos a respeito da elite inglesa vão sendo desfiados.

É interessante comentar a crítica ao preconceito existente em todas as camadas sociais (especialmente a elite), que não tardam a culpar os índios,judeus,orientais e socialistas pela autoria dos crimes.

Dirigida pelos irmãos Albert e Allen Hughes, a projeção acompanha não somente a execução dos assassinatos, mas o conseqüente inquérito da polícia. Uma seqüência, através de uma progressão temporal, revela todo esse processo.

Além do serial killer, um outro personagem se revela igualmente fascinante. Viciado em ópio, absinto e láudano, Abberline entregou-se à autodestruição após sua esposa falecer durante o parto, levando também aquele que seria seu filho. Em seu estágio de transe causado pelas drogas, têm visões dos assassinatos, o que termina ajudando no estudo dos mesmos.

Nesse ponto destaco a excelente performance de Johnny Depp, interpretando um inspetor cuja índole suicida encontra uma chance de nova vida com a prostituta Mary Kelly, um dos alvos do serial killer.

Vale apontar também que ao longo da película vários personagens usam a carruagem do assassino, bem como cartolas e capas semelhantes, convidando o espectador a tentar descobrir o autor de crimes tão hediondos que nem os legistas suportavam.

Outro ponto alto é o cocheiro Netley, que é forçado a levar o mutilador. Interpretado por Jason Flemyng, sua expressão que mistura pavor, pena e desgosto marcam seu peso como cúmplice de tais atrocidades.

Intrigante, mórbido e com uma trama incrivelmente trabalhada, esta película ainda funciona como um estudo da formação de um mito e uma análise da obscuridade da natureza humana.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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