Terror e dilema em A caixa

Os filmes de suspense mais impressionantes são aqueles que constroem suas tramas em torno da tão ambígua e contraditória natureza humana, pois ela aproxima e envolve o espectador, transferindo ao mesmo certa cumplicidade dos eventos apresentados.

As histórias mais geniais deste gênero tiveram inicio nos livros de Edgar Allan Poe, que inseria elementos sobrenaturais como espelho da personalidade dos seus protagonistas, transformando-os em arquitetos de seu próprio destino.

Inspirada em um episódio da série Além da Imaginação, a narrativa gira em torno de uma família que recebe certo dia uma caixa de madeira acompanhada da seguinte proposta: se apertarem o botão que está localizado no topo e protegido por uma redoma de vidro, receberão uma maleta contendo um milhão de dólares, entretanto uma pessoa que eles não conhecem morrerá. Eles têm exatamente 24 horas para tomar uma decisão, caso contrário o instrumento será reprogramado e entregue a possíveis interessados.

A oferta é feita por um misterioso homem com metade do rosto desfigurada por uma queimadura, mas bastante gentil e educado, o que acrescenta certa aura de misticismo em torno deste curioso personagem. O resultado desse teste de caráter trará conseqüências irreversíveis para todos os envolvidos.

A montagem do cineasta Richard Kelly constrói com eficiência o clima de tensão que é latente durante todo o filme. A ambientação da história na década de 70 (percebida inclusive na textura da fotografia) e a inserção de uma ameaça sugerida aproximam este exemplar de grandes clássicos como “O iluminado” e “O bebê de Rosemary”. Alguns enquadramentos de câmera chegam a trazer uma ligeira semelhança.

O apuro técnico reforça a complexidade inserida no roteiro desta película que discursa sobre um dilema moral bastante comum em nossa sociedade. O sacrifício humano contribuindo para a fortuna alheia e ligando todos a um futuro imprevisível e caótico.

Vale apontar a disparidade de posicionamentos diante da situação representada pelos dois cônjuges. O marido cético contra a esposa crédula que sente uma curiosa ligação com o estranho enigmático, pois o seu pé deformado em função de um acidente envolvendo um aparelho de raio-x permite que ela se solidarize com sua face parcialmente destruída.

Uma intrigante projeção sobre o peso de uma escolha que irá interferir diretamente na vida de outros. A promessa de enriquecimento trazendo consigo o peso da responsabilidade sobre o destino de terceiros, sejam eles conhecidos ou não. Cada contrato envolve pequenos grandes detalhes que podem implicar em fatalidades incorrigíveis.

O elenco apresenta as ótimas performances de Cameron Diaz, James Marsden e Frank Langella num filme que trata das repercussões de um acontecimento que mudará radicalmente o futuro de um casal, permitindo um interessante questionamento sobre o conceito de felicidade e paz interior.

Uma curiosa trama onde qualquer movimento em desarmonia com o experimento instaurado pode gerar riscos fatais e inevitáveis. Um sinal claro de como somos nocivos e frágeis ao mesmo tempo.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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