Uma noção de perspectiva em Lunar

Toda a nossa rotina é construída a partir de informações que recebemos da mídia e daqueles que convivem conosco. Toda a perspectiva das coisas é gerada na conjuntura em que estamos inseridos e agimos tendo como fundamento a interação com aqueles à nossa volta.

O comportamento acompanha a constante transitoriedade dos eventos, renovando a leitura da realidade e da natureza humana a partir do conujnto de experiências que enfrentamos ao longo de nossa jornada existencial.

Ambientada em um futuro próximo, a narrativa desta projeção acompanha a trajetória de Sam Bell, um astronauta que trabalha em uma base no lado escuro da lua, cuidando da manutenção de máquinas coletadoras de energia solar para posterior comercialização.

Seu contrato de três anos com a empresa está chegando ao fim e os sinais de desgaste psicológico e emocional são evidentes, pois ele tem vivido em estado de extrema clausura durante todo este tempo.

Após sofrer um acidente durante a vistoria de uma das máquinas no exterior ele acorda na enfermaria sem a lembrança de seu retorno. Resolve investigar o ocorrido e encontra outra pessoa idêntica a ele presa nos destroços do veículo avariado.

Depois de resgatar o seu “outro eu” ele começa a procurar uma razão palusível para este fato, questionando especialmente a sua própria sanidade mental.

A montagem do cineasta Duncan Jones é eficiente ao mostrar o progressivo desmoronamento da verdade na qual o protagonista fundamentou toda a sua postura até aquele momento.

O diretor consegue manter a dinamicidade da história com um único ator em cena circulando no mesmo cenário. Nesse ponto vale mencionar o excelente trabalho de Sam Rockwell, que explora as diferentes dimensões do astronauta impressas em suas diferentes “versões”.

O único companheiro de Sam durante este insólito encontro consigo mesmo é o computador Gerty, que possui inteligência e emoções artificiais assim como o icônico HAL 9000, personagem do clássico “2001: Uma Odisséia no Espaço” de Stanley Kubrick. Dublado pelo genial Kevin Spacey, ele tenta ajudar o confuso protagonista diante deste novo contexto.

A película ilustra como a ciência pode distorcer a perspectiva racional dos fatos, instaurando uma conjectura que se adapte aos seus objetivos e criando assim uma série de princípios que distorcem nossos valores mais sinceros e viscerais.

O progresso produz mudanças significativas e pode trazer inúmeros benefícios, entretanto corrói e sacrifica de acordo com seus interesses, sem considerar as perdas emocionais que ele ocasionalmente provoca.

A história de um homem que reconhece e constrói o seu próprio caminho, apesar da ganância corporativa que insiste em trancafiá-lo um cárcere espelhado. É a vitória do espírito sobre a incessante tentativa de formatação imposta pela ciência.

Gilson

About Gilson Salomão

Jornalista apaixonado por Cultura Nerd. Escritor e poeta. Nostálgico e sonhador.

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